Master: candidato a presidente quer fazer brasileiros de otários

Henrique Acker –  Em qualquer país em que a opinião pública e o trabalho da imprensa imponham vigilância da sociedade sobre a vida política, o escândalo do Banco Master seria suficiente para a renúncia de todos os envolvidos de seus respectivos cargos públicos. Não é o caso do Brasil.

Agora, o país toma conhecimento — por mais um trabalho sério de jornalismo do portal de notícias Intercept Brasil — de que um filme produzido para enaltecer o ex-presidente Bolsonaro contou com a generosa contribuição de Daniel Vorcaro, o coach do Banco Master.

Eis que um candidato à Presidência – filho do homenageado pelo filme – foi pego em conversa telefônica amistosa, pedindo grana ao dono do Master. E depois, o candidato foi pessoalmente a São Paulo para conversar com Vorcaro, quando este já estava com tornozeleira eletrônica. Qual será a próxima novidade?

Ficamos sabendo também que um dos responsáveis pela captação de recursos da produção do tal filme seria o outro Bolsonaro, aquele que fugiu para os EUA. O dublê de deputado e homem ligado à “cultura” que estaria na frente da produção do tal filme aparece na TV, direto dos EUA, reafirmando que não recebeu dinheiro de Vorcaro.

Ora, se nem a Justiça consegue encontrar a residência desse deputado no Brasil para intimá-lo, o que dizer do paradeiro do dinheiro que saiu de Vorcaro/Master, passou por um fundo de investimento e teria como destino a produtora GoUp, cujo endereço declarado nos EUA também não confere?

Mas, na República da esculhambação, milionário picareta transita tranquilamente pelas cúpulas dos poderes. Na maior cara dura, monta a sua pirâmide e ainda convida um monte de gente importante para megafestas milionárias, regadas a champanhe e garotas de programa.

Para o seu empreendimento, Daniel Vorcaro contou com a vista grossa do Banco Central, que não só deu aval para as operações fraudulentas como não interveio no Master. Aliás, para surpresa de ninguém, o antigo presidente do BC já ocupa um cargo de ponta num dos bancos em operação no país.

O coach Vorcaro contou sempre com o apoio entusiástico do líder do PP e do Centrão, que apresentou emendas na Câmara para tentar favorecer o esquema. Além de candidatos à Presidência e ao governo de SP, que receberam generosas contribuições financeiras para suas respectivas campanhas em 2022.

Tudo com a participação ativa de governadores e prefeitos, que compraram papéis podres do Master com dinheiro dos fundos de previdência dos servidores de seus respectivos estados e municípios. Sem falar do BRB — banco público de Brasília —, que seria usado para comprar o Master e aliviar o pescoço do caloteiro Vorcaro.

De acordo com um dirigente da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), em entrevista ao Correio Braziliense, o escândalo do Master pode atingir R$ 500 bilhões de prejuízo. Nisso estão incluídos R$ 48 bi do rombo do BRB, lavagem de dinheiro, créditos podres e outras questões que ainda devem aparecer nas investigações.

Para tentar limpar sua barra em ano de eleições presidenciais, o candidato da extrema-direita propõe que o dinheiro da “doação” de Vorcaro para o filme seja disponibilizado para a Justiça. Resta saber onde foram parar os R$ 134 milhões investidos nessa megaprodução, cujos recursos superam os orçamentos de filmes candidatos ao Oscar.

Na tentativa de justificar esse monte de “mal-entendidos”, o candidato a presidente em questão alega que a grana de Vorcaro para financiar o filme do papai seria repasse de dinheiro privado.

Que o digam os 2,75 milhões de servidores da ativa e aposentados portadores do cartão CredCesta, os milhões de servidores públicos que contribuem regularmente para os fundos de previdência de estados e municípios, os correntistas do BRB e outros infelizes que, sem saber, financiaram essa pirâmide. (Foto: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista)

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