A mesa que ficou grande demais

 

Rodrigo Vargas  –  Outro dia ouvi uma reflexão do ator Nelson Freitas sobre família e isso me deixou pensativo por dias e noites. O vídeo retratava não aquela família perfeita das propagandas de televisão, sempre sorrindo em volta de uma mesa impecável. Mas a família real. A minha, a sua, a nossa. Com seus silêncios, ausências, afetos e feridas escondidas. E talvez tenha sido justamente por isso que aquelas palavras ficaram ecoando mais tempo do que deveriam.

Existe um momento da vida em que percebemos que a mesa da família mudou. Ou pior: talvez ela continue exatamente do mesmo tamanho, mas as pessoas já não estejam mais ali. Antes faltavam cadeiras. Hoje sobram lugares.

Lembro que antigamente os almoços de domingo eram barulhentos. Crianças correndo pela casa, histórias repetidas, conversas atravessadas e risadas que pareciam infinitas. Hoje, curiosamente, o silêncio parece ocupar mais espaço do que as próprias pessoas. E o mais assustador é que esse afastamento raramente acontece de forma brusca. Ele chega devagar.

Primeiro vieram os celulares sobre a mesa. Depois a pressa constante. Depois o “qualquer dia a gente marca”. E quando percebemos, estamos todos juntos fisicamente, mas emocionalmente distantes.

Porque existe uma diferença enorme entre estar junto e estar perto.

Estar junto é dividir o mesmo espaço. Estar perto é perceber que a voz da mãe anda mais cansada.

Estar junto é responder automaticamente que está tudo bem. Estar perto é notar que o pai anda silencioso demais. Famílias também herdam silêncios.

Algumas ensinam amor. Outras ensinam orgulho. Outras apenas ensinam a fingir que está tudo bem.

E talvez uma das maiores ilusões da vida moderna seja acreditar que convivência automática significa conexão verdadeira. Não significa. Há famílias que vivem na mesma casa e, ainda assim, moram emocionalmente em continentes diferentes.

Também existem aquelas figuras invisíveis: o esteio da família. A mãe que sofre calada para proteger os filhos. O pai que aprendeu a esconder fragilidades. O irmão que resolve tudo, mas raramente encontra alguém disposto a perguntar se ele também está bem. E geralmente só percebemos o tamanho dessas pessoas quando a ausência delas transforma o silêncio em saudade.

A vida adulta nos tornou rápidos para responder mensagens, mas lentos para perceber quem está precisando de atenção ao nosso lado.

Talvez ainda dê tempo de desacelerar. De ouvir novamente aquela história repetida da mãe. De perguntar sinceramente como o pai está. De largar o celular durante o almoço. De visitar alguém sem precisar de ocasião especial.

Porque um dia, inevitavelmente, a mesa ficará silenciosa.

E quando esse dia chegar, dificilmente alguém sentirá falta das mensagens respondidas rapidamente ou das notificações vistas em tempo real. O que fará falta será aquilo que deixamos para depois: a conversa interrompida, o abraço apressado, o “depois eu ligo”.

A verdade é que a saudade quase sempre nasce de presenças que não aproveitamos como deveríamos.

Talvez por isso o grande segredo da vida seja entender, antes que seja tarde, que presença é um presente silencioso. E que devemos aproveitar cada instante ao lado de quem amamos, antes que a presença vire lembrança… e a lembrança, saudade. (Foto: Google/ Reprodução) 

 

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