Belém (Redação) – O acesso à água potável não é um favor; é um direito constitucional e humanitário básico. No entanto, no interior do Pará, o que deveria ser um serviço essencial virou sinônimo de humilhação, desespero e revolta popular. Os episódios registrados nesta quarta-feira, 20 de maio, em municípios como Santo Antônio do Tauá e Igarapé-Açu, não são fatos isolados. São o retrato falado de um colapso anunciado na gestão do saneamento básico do estado.
Em Santo Antônio do Tauá, o desespero empurrou a população para as ruas. O bloqueio da rodovia PA-140, marcado pelo fogo em pneus, troncos de árvores e quilômetros de congestionamento, reflete o limite de cidadãos que se viram obrigados a radicalizar para serem ouvidos. O motivo? Dias seguidos com as torneiras secas, enquanto as tarefas mais fundamentais do cotidiano — cozinhar, tomar banho, manter comércios e postos de saúde funcionando — tornaram-se impossíveis.
O jogo de empurra e a maquiagem da privatização
O cenário ganha contornos ainda mais graves quando analisamos a postura da concessionária responsável. Com apenas três meses de atuação na região, a holding Aegea (operando sob o nome Águas do Pará) já coleciona uma enxurrada de críticas que contrastam drasticamente com as promessas de eficiência que costumam embalar os processos de concessão pública.
O que a população experimenta na pele neste curto período é uma matemática perversa: tarifas cada vez mais altas e um desfornecimento constante. Como se a falta de água não bastasse, o atendimento ao cliente é classificado como ineficiente e omisso, deixando a comunidade no completo escuro informativo.
Para piorar, diante da crise, a direção da empresa tentou adotar a velha tática do “jogo de empurra”, culpando a Equatorial Energia pelo desabastecimento. A resposta da concessionária de energia, contudo, desmascarou a narrativa: o problema real era um defeito na própria bomba d’água da empresa de saneamento. Falta de manutenção preventiva maquiada como falha alheia.
O efeito dominó da indignação
A paciência do paraense esgotou, e a revolta está se espalhando em um efeito dominó pelas redes sociais e aplicativos de mensagens.
Em Igarapé-Açu, a pressão popular mirou diretamente o poder político, com uma forte manifestação realizada na Câmara de Vereadores na mesma quarta-feira (20).
Moradores de Inhangapi, Irituia e Castanhal já organizam grandes mobilizações para os próximos dias, prometendo parar a região caso o atendimento precário persista.
O recado das ruas é claro. Bairros inteiros não vão aceitar o racionamento silencioso e a falta de respostas enquanto os boletos continuam chegando pontualmente — e mais caros — em suas portas.
Santarém denuncia concessionária
Santarém, município polo da região Oeste do Pará, também vem sofrendo o descaso da concessionária de água.
Moradores do Caranazal e bairros vizinhos denunciam vários dias sem abastecimento, bem como problemas de contas abusivas e falta crônica de água. A insatisfação se agravou desde que a empresa assumiu a gestão dos serviços de esgoto do município, substituindo a Cosanpa.
Os principais motivos das reclamações incluem cobranças de esgoto em áreas sem rede e contas altas sem o devido consumo de água.
Apontam ainda a falta de abastecimento, torneiras secas em diversos bairros e pressão inadequada na rede.
A qualidade da água é denunciada pelos moradores do bairro. “” água chega com coloração barrenta ou aspecto inadequado”, dizem.
O descontentamento gerou a aprovação de requerimentos e pedidos de informação na Câmara, além de mobilizações para pressionar o Ministério Público do Pará (MPPA) por ajustes e melhor fiscalização no contrato de concessão.
Em protesto contra as falhas, moradores têm organizado abaixo-assinados na internet e cobrado ação urgente dos deputados estaduais.
Fiscalização já!
O que ocorre hoje no Pará é o reflexo de uma transição de serviços que esqueceu o principal interessado: o cidadão. Se as empresas privadas assumem o bônus da arrecadação tarifária, precisam arcar com o ônus dos investimentos e da infraestrutura de qualidade.
O governo do estado e as agências reguladoras não podem assistir a esse colapso de braços cruzados. É urgente uma fiscalização rigorosa e a aplicação de sanções pesadas contra o descaso. Até que providências reais sejam tomadas, a fumaça preta que subiu na PA-140 continuará sendo o símbolo de um Pará que tem sede, mas que, acima de tudo, tem sede de dignidade e respeito. (Foto: Reprodução)


