Henrique Acker – Imigrantes “indesejados” e sem documentação em dia são as vítimas da política de encarceramento em massa do governo Trump, nos EUA. Ao mesmo tempo, os centros de detenção são uma fonte milionária de recursos para empresas privadas que os administram.
O depoimento da brasileira Vivian de Oliveira (29 anos) em 12 de março, na Câmara de Governador Valadares – MG, é uma prova das condições sub-humanas de vida nesses verdadeiros campos de concentração de imigrantes.
Ela esteve presa de agosto de 2024 a abril de 2025 em centros de detenção na Louisiana e na Geórgia. “Vi mulheres tendo seus ossos e pernas quebradas pela brutalidade dos guardas das prisões americanas (…) A alimentação é degradante, a comida é estragada. Não tínhamos direito a água potável”, relatou Vivian.
Confira AQUI o depoimento de Vivian Oliveira na Câmara de Vereadores de Governador Valadares-MG.
Um grande negócio
Atualmente, cerca de 70% de todos os imigrantes detidos nos EUA se encontram em prisões administradas por diferentes empresas privadas. Mas os negócios do setor não se resumem apenas aos centros de detenção.
O retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, e sua promessa de uma política de detenção e deportações em massa de imigrantes fez disparar o valor das ações das duas maiores empresas do negócio carcerário nos EUA: o GEO Group e a CoreCivic.
Desde que Donald Trump venceu as eleições presidenciais de novembro de 2024, o valor das ações do GEO Group cresceu em cerca de 90% e o da CoreCivic, em cerca de 50%.
Em 2025, GEO Group e CoreCivic registraram lucros expressivos, impulsionados por novos contratos com a ICE. A GEO Group obteve uma receita de US$ 2,63 bilhões e lucro líquido de US$ 120,1 milhões. Já a CoreCivic relatou um lucro de US$ 116,5 milhões
Elas detêm contratos financiados com fundos públicos, por meio do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), uma agência governamental, com orçamento anual na casa de U$S 30 bilhões.
Recentemente o governo Trump convidou as empresas privadas a apresentar propostas de ampliação da rede de centros de detenção. Os serviços incluem transporte, segurança, assistência médica, entre outros, no valor de até US$ 45 bilhões (R$ 253,3 bilhões) para os próximos dois anos.

Tratamento degradante e violento
Um relatório do Observatório dos Direitos Humanos (HRW) de julho de 2025 em conjunto com outras entidades, denunciou condições abusivas e degradantes, que colocam a vida de imigrantes detidos em risco nos centros de detenção federais nos Estados Unidos.
O documento aponta a superlotação, condições insalubres, tratamento degradante e violento, negligência médica que causa mortes, detenção de pessoas sem antecedentes criminais, transferências punitivas e proibição de comunicação dos detentos.
“Observamos abusos em vários centros de detenção”, relata a diretora de promoções da organização Detention Watch Network, Setareh Ghandehari. Ela aponta a redução de custos como a causa das condições abaixo dos padrões mínimos que deveriam ser oferecidos pelos centros de pessoas sem documentos.
Em recente entrevista à BBC de Londres, Bianca Tylek, autora do livro “A indústria prisional: como funciona e quem se beneficia”, declarou que as empresas responsáveis “gastaram milhões de dólares apoiando campanhas políticas que favorecem seus negócios”.
Para Tylek, a rentabilidade das operações dessas empresas depende da manutenção da maior quantidade possível de pessoas detidas, reduzindo ao máximo os custos dos serviços oferecidos. Isso se encaixa perfeitamente na política do governo Trump.
Brasileiros também são vítimas
Os imigrantes detidos pela ICE permanecem encarcerados em centros de detenção enquanto aguardam os processos de extradição e a deportação, que podem durar meses. Entre janeiro e dezembro de 2025, o ICE deportou em torno de 330 mil imigrantes, quase o triplo do mesmo período de 2024.
Em fevereiro de 2026, mais de 70.000 imigrantes estavam detidos. Desses, cerca de 73,6% (mais de 50.000) não têm condenação criminal grave. As instalações de detenção já operam acima de 140% da capacidade projetada. Ao todo, estima-se que 11 milhões de estrangeiros residem nos EUA sem documentação legal, grande parte há mais de cinco anos.
Mais de 3.200 brasileiros foram expulsos ou deportados dos EUA em 2025. Um aumento de quase 100% em relação a 2024, de acordo com dados oficiais compilados por autoridades brasileiras. Em fevereiro de 2025 havia 38.677 sentenças de deportação contra brasileiros.
Entre janeiro e outubro de 2025, ao menos 142 menores de idade brasileiros foram levados para centros de detenção do ICE (dados da Lei de Acesso à Informação e registros da Polícia Federal). (Fotos: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de G1, Veja, CNN Brasil, BBC Londres, Observatório de Direitos Humanos (HRW), Lei de Acesso à Informação e registros da PF.



