Um pouco mais de um ano atrás, em outubro de 2024, Zohran Mamdani iniciou sua candidatura à Prefeitura de Nova York. Com 33 anos na ocasião e já tendo passado por um mandato na Assembleia do Estado de Nova York, ele participou das primárias do Partido Democrata, contando com o apoio dos Socialistas Democráticos da América (DSA), um grupo ativista de orientação esquerdista.
A competição dentro do partido contava com mais quatro concorrentes, todos eles com mais vivência política e que tentavam se conectar com grupos progressistas e moderados. Mamdani se juntava à disputa como um jovem ativista de esquerda – sendo também o primeiro candidato de origem muçulmana a almejar o cargo.
Na primeira sondagem eleitoral, realizada em fevereiro, obteve 1% das preferências dos eleitores. Nove meses depois, foi eleito prefeito da maior cidade americana, recebendo mais de um milhão de votos e uma vantagem de quase 200 mil em relação ao segundo colocado, o ex-governador Andrew Cuomo.
Ao participar das primárias do Partido Democrata para a prefeitura de Nova York, Cuomo rapidamente se destacou como o candidato mais forte. No início de 2025, as pesquisas mostravam que ele tinha mais de 30% das intenções de voto, enquanto seus concorrentes mal alcançavam dois dígitos.
Sua vitória parecia garantida, até que Zohran Mamdani começou a crescer nas pesquisas. Em fevereiro, ele tinha apenas 1% das intenções de voto, mas, em março, subiu para 10%, depois alcançou 22% em maio e 32% em junho, conforme dados do Emerson College Polling. A competição era um verdadeiro desafio entre um gigante e um desafiante, dado o imenso poder político e financeiro de Cuomo.
Mandani possuía um grande carisma, uma habilidade eficaz nas redes sociais, talento para mobilizar pessoas e um forte comprometimento de seus apoiadores. Com certa frequência, Davi conseguiu se destacar – o jovem do partido socialista obteve 576 mil votos, a maior quantidade já registrada em primárias na história da cidade.
DOMÍNIO DAS REDES SOCIAIS
Selecionado pelo Partido Democrata, Mamdani enfrentaria Curtis Sliwa, representante do Partido Republicano. No entanto, a legislação permite que o candidato que perder nas prévias concorra novamente como independente. Assim, Andrew Cuomo retornou à disputa, utilizando uma coalizão rica para fortalecer sua campanha. Os recursos independentes que apoiaram Cuomo arrecadaram 41,7 milhões de dólares, enquanto o apoio a Mamdani foi sete vezes menor.
Entre os apoiadores financeiros de Cuomo, destacam-se alguns bilionários notáveis, como Joe Gebbia, um dos fundadores do Airbnb, e Bill Ackman, gestor de um fundo de investimentos. Ambos são aliados próximos do ex-presidente Donald Trump. Temendo a vitória de um candidato socialista em sua cidade natal, Trump qualificou Mamdani de “comunista insano”, afirmando que ele “nunca trabalhou na vida”, que pretende “reduzir o financiamento da polícia” e que tem aversão aos judeus. O presidente ameaçou retirar verbas federais e enviar tropas para Nova York caso o socialista fosse vitorioso.
Devido à conquista em um cenário tão desafiador, a trajetória de Mamdani se destacará na história política dos Estados Unidos. Muitos atribuem seu sucesso à sua presença nas redes sociais, onde realmente se sobressai. No entanto, seu esforço foi mais abrangente do que isso.
De fato, a utilização eficaz das redes sociais foi parte de um sistema mais elaborado que envolveu ouvir ativamente os eleitores, elaborar um programa claro que atendesse às necessidades do público e mobilizar a base de maneira sistemática. Os vídeos virais do candidato desempenharam um papel fundamental, atingindo seus propósitos porque se integrevam com os outros elementos: repetiam de forma constante as três principais propostas da campanha (transporte gratuito e mais ágil, congelamento dos aluguéis e creches sem custo), projetavam o candidato como uma figura próximo ao povo e auxiliaram na organização do envolvimento dos apoiadores.
ZOHRAN MAMDANI, UM ILUSTRE DESCONHECIDO
Ao ser reeleito presidente dos Estados Unidos em novembro do ano anterior, Donald Trump ainda não era bem conhecido em Nova York por Zohran Mamdani. Iniciando sua participação nas prévias, um dos primeiros movimentos de sua campanha foi percorrer comunidades que registraram um significativo número de votos a favor do candidato republicano. Essa iniciativa resultou em um vídeo que rapidamente se espalhou, no qual Mamdani questionava os residentes sobre suas escolhas nas urnas.
Um número significativo dos participantes da pesquisa eram antigos apoiadores do Partido Democrata, mas decidiram votar em Trump em 2024, ou optaram por não comparecer às urnas. Entre os motivos para essa mudança, destacaram-se a desilusão com a política convencional e a visão de que Trump abordava questões econômicas que impactavam a vida diária nas comunidades locais. Além disso, foram levantadas críticas em relação à postura do governo dos EUA em relação à guerra na Ucrânia e ao conflito em Gaza.
Naquele instante, Mamdani já possuía a essência de sua proposta eleitoral, que havia sido experimentada em diálogos e entrevistas. Ao término do vídeo, ele indagou a um homem negro, que segurava um ramo de flores, se votaria em um candidato que sugerisse congelar os aluguéis e disponibilizar creches e transporte público gratuito. A resposta foi um animado sim.
Mamdani apresenta-se como um pré-candidato do Partido Democrata e recebe reconhecimentos de seu interlocutor. Além de conseguir o apoio de um eleitor cético, essa interação representa a primeira validação do que se tornaria o foco de sua campanha: interagir com a população nas ruas, discutir questões do dia a dia e reiterar suas três propostas de campanha como se fossem mantras, repetidos várias vezes.
Dessa maneira, o candidato começou a conquistar a simpatia da classe trabalhadora, que enfrenta sérios desafios com o custo de vida em Nova York. No entanto, ainda restava um obstáculo a superar: a obtenção do apoio das lideranças sindicais, cujas influências são significativas nas disputas eleitorais da cidade. Normalmente, os sindicatos afiliados ao Partido Democrata tendem a apoiar os candidatos que apresentam melhores perspectivas de triunfo, uma vez que desejam evitar conflitos com quem provavelmente estará no poder.
PARCERIA COM OS FORTES SINDICATOS
Em 2018, Alexandria Ocasio-Cortez enfrentou Joe Crowley, um político experiente e moderado, nas primárias para representar o 14º distrito de Nova York, sem obter apoio de qualquer sindicato. Embora sua campanha tenha se tornado viral e conseguido contornar essa limitação, Mamdani enfrentaria maiores dificuldades em uma corrida que abrange a cidade inteira. Não é surpreendente que Andrew Cuomo tenha anunciado sua candidatura em março nas instalações do Sindicato de Carpinteiros, que possui mais de 20 mil membros.
A abordagem de Mamdani para mudar a situação foi estimular os sindicatos de forma ascendente. Contando com um apoio crescente e engajado dos operários, sua campanha implementou um plano de ação focado e eficiente: unir os filiados para solicitarem apoio à sua candidatura. Isso envolveu uma intensa mobilização dos trabalhadores para participar de reuniões e a realização de numerosos telefonemas para as lideranças sindicais.
Dessa forma, o socialista obteve, em abril, o apoio do DC 37, a principal organização sindical da cidade, que conta com mais de 150 mil membros e 89 mil aposentados. Laura Pirtle Morand, uma membro do comitê responsável pelo endosse eleitoral do sindicato, mencionou que seu departamento recebeu uma grande quantidade de telefonemas dos associados solicitando apoio a Mamdani. Segundo ela, “isso nos levou a fazer uma análise detalhada. Fui incentivada a reavaliá-lo”.
A pressão exercida sobre os sindicatos integrou uma estratégia mais ampla e bem-sucedida de engajamento da base. A iniciativa de Mamdani demonstrou uma grande eficácia em atrair, organizar e motivar apoiadores para atuarem nas ruas. Conforme o relato do próprio candidato, que emprega um sistema digital para o registro de voluntários e atividades, houve mais de 90 mil inscritos, que realizaram mais de 3,6 milhões de contatos diretos nas casas das pessoas, de acordo com a campanha.
A notável organização e coordenação de voluntários ocorreu de maneira integrada ao uso das mídias sociais. O processo pode ser descrito da seguinte forma: Mamdani compartilhava um vídeo com uma informação relevante e, ao final, convidava o público a se envolver; quem comentava no vídeo no Instagram recebia automaticamente uma mensagem privada convidando para uma atividade presencial; o link direcionava para um site, onde a pessoa se inscrevia como voluntária, passando a receber comunicações diretas da campanha.
CONEXÃO ENTRE REDES E RUAS
Por outro lado, a quantidade de indivíduos realizando campanhas nas vias públicas criava imagens que fortaleciam a campanha nas mídias sociais, gerando um ciclo de reforço mútuo.
A conexão entre redes e ruas reflete a trajetória profissional de Mamdani, que, ainda na universidade, iniciou sua atuação em um setor conhecido nos Estados Unidos como “organização“. Esse campo envolve o design, a elaboração e a implementação de mobilização social em organizações não governamentais, movimentos sociais e partidos políticos.
Durante os seis anos entre o término da graduação em 2014 e sua escolha como integrante da Assembleia do Estado de Nova York em 2020, Mamdani trabalhou em organizações não governamentais e em campanhas políticas, adquirindo experiência em organização e mobilização comunitária.
Simultaneamente, expandiu sua presença nas redes sociais, um espaço de interação onde é considerado “nativo“ – um termo que distingue os políticos que começaram suas carreiras se comunicando online daqueles que precisaram se ajustar ao mundo digital.
Um estudo realizado pelo D-Hub, uma entidade focada em estratégias de combate à extrema direita, avaliou a campanha de Mamdani como uma “aula magna em marketing digital e engajamento político”, destacando sua habilidade em integrar várias táticas para se destacar no cenário eleitoral.
CAMPANHA ELEVA VOLUNTARIADO A NOVO PATAMAR SOCIAL
O texto destaca a importância de equilibrar diferentes maneiras de comunicação, como vídeos com diversas abordagens, intervenções em espaços públicos e a colaboração de influenciadores, ao mesmo tempo em que há um rigoroso controle da mensagem, assegurando que o enfoque permaneça nas questões relacionadas ao custo de vida e nas ideias propostas pelo socialista.
Os autores afirmam que a campanha conseguiu elevar o “voluntariado a um novo patamar social“, formando uma comunidade de integrantes que se identificam com a causa da candidatura. Em síntese, a campanha replicou com sucesso as estratégias que a extrema direita tem utilizado de forma eficaz nos últimos anos.
O rápido crescimento do jovem socialista intensifica a discussão sobre como enfrentar a extrema direita. De maneira geral, existem duas perspectivas em confronto. A primeira delas vê as alternativas políticas como um continuum que se estende da esquerda radical à extrema direita, incluindo a esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita.
Com a ascensão de tendências políticas mais radicais à direita, a estratégia para se opor a essa movimentação seria focar em candidatos que se posicionam mais ao centro, capazes de conquistar o apoio tanto da esquerda quanto da direita moderada. Nesse contexto, a vertente moderada do Partido Democrata, exemplificada por líderes como os ex-presidentes Joe Biden e Barack Obama, além da ex-vice-presidente e candidata nas últimas eleições, Kamala Harris, estaria mais bem preparada para enfrentar Donald Trump e seus apoiadores.
Por outro lado, existe a percepção de que grande parte dos eleitores não se guia pelas linhas políticas tradicionais, mas sim por outras formas de afiliação e por questões práticas que afetam sua rotina diária. De acordo com esse ponto de vista, o establishment do Partido Democrata se desconectou das dificuldades enfrentadas pelos segmentos mais vulneráveis da sociedade, permitindo que esses cidadãos se tornassem alvo das promessas de Trump.
DIALOGANDO COM ELEITORES DE COMUNIDADES CARENTES
Esse pensamento serviu como base para a campanha de Mamdani, que buscou dialogar com eleitores de comunidades carentes que optaram pelo candidato republicano. Segundo ele, em uma entrevista ao podcast New Yorker Radio Hour, o voto desses cidadãos “não se trata de escolher um candidato com base em ideologia ou partido”, mas sim de “identificar-se com as propostas daquele candidato“.
A estratégia de Mamdani, referida como “populismo democrático” no relatório do D-Hub, mostra-se eficaz no cenário eleitoral dos Estados Unidos, onde a participação no voto é voluntária e a mobilização dos eleitores é crucial para alcançar resultados positivos.
Impulsionar sua base com ideias arrojadas e inovadoras, comunicadas por meio de uma campanha de grande impacto, provou ser mais eficaz do que adotar uma abordagem cautelosa para não desagradar setores intermediários da esfera política. Nesse contexto, as propostas de Mamdani foram fundamentais para criar um sentimento de transformação que era tanto profundo quanto viável.
Nova York lidera a lista das cidades com o custo de vida mais elevado nos Estados Unidos, e em Manhattan, os preços superam em mais de duas vezes a média do país. De acordo com um relatório recente, foi nesse município que o aumento do custo de vida foi mais significativo entre 2011 e 2022, alcançando uma alta de 68%.
Ao começar sua campanha, Zohran Mamdani focou nos aspectos que mais impactam financeiramente a população. (Foto: AFP)
Por Opinião em Pauta com informações da reportagem de Roberto Andrés para a revista Piauí

