Vale a pena consertar?

Rodrigo Vargas  –  Outro dia em minha rotina diária de dirigir pelas vias de Brasília com o hábito de ouvir a Rádio Gaúcha, ouvi o comentário matutino do escritor Fabrício Carpinejar, que falou sobre algo que, à primeira vista, parece simples: a pressa é inimiga da perfeição.

Mas não era sobre produtividade. Era sobre cuidado.

Ele lembrava de um tempo em que a gente encapava caderno como quem protege um patrimônio, e cuidava daquilo durante o ano todo. De quando computador tinha capa, não de software, mas de pano mesmo, porque poeira também era inimiga daquilo que a gente levava a sério. De quando um aparelho quebrava… e a primeira pergunta não era “quanto custa outro?”, mas sim: tem conserto?

Hoje, a pergunta mudou. E talvez isso diga mais sobre nós do que sobre a tecnologia, ou a qualidade dos produtos.

Porque, convenhamos, vivemos a era do “não vale a pena arrumar”. Tudo tem substituto. Tudo tem versão mais nova. Tudo chega mais rápido do que a nossa disposição de esperar. E, sem perceber, fomos importando esse raciocínio para aquilo que não deveria ser substituível.

Relacionamentos.

Amizades que não são mais “úteis” naquele momento, vão sendo deixadas de lado como um celular com bateria viciada. Amores que exigem manutenção passam a ser vistos como problema de fábrica. Conversas difíceis são evitadas como quem evita assistência técnica, melhor trocar do que perder tempo tentando entender o defeito.

Criamos, talvez sem querer, um manual silencioso de descarte afetivo.

Se não atende mais, troca.

Se exige esforço ou calma excessiva, descarta.

Se não funciona como antes, atualiza, de preferência, com alguém novo.

Só que há um detalhe que a pressa não costuma avisar: o novo também envelhece.

E, cedo ou tarde, todo relacionamento vai apresentar falhas. Não porque deixou de valer a pena, mas porque passou a ser real. É nesse ponto que a escolha acontece, e ela não tem nada de moderna. Ou a gente conserta… ou a gente coleciona substituições.

O problema é que quem se acostuma a trocar tudo, desaprende a permanecer, e quem sabe o próximo a ser trocado seja nós mesmos. E permanecer dá trabalho. Exige paciência, escuta, revisões, ajustes, quase como aqueles consertos antigos que demoravam dias, mas devolviam algo ainda mais valioso: o sentido de cuidado.

Talvez o grande risco do nosso tempo não seja a pressa em si. Mas o que estamos perdendo por causa dela.

Porque no fundo, a pergunta continua a mesma de antigamente, a gente só mudou a forma de responder:

Isso aqui ainda vale a pena consertar… ou já decidimos, sem perceber, que tudo na vida virou descartável? (Foto: Google / Reprodução)

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