A recente manifestação de Luciano Huck a respeito do Bolsa Família, onde ele disse que o programa “não interrompe o ciclo da pobreza” e que os beneficiários poderiam descobrir “caminhos” para continuar recebendo o auxílio, reavivou a discussão sobre as políticas de transferência de renda no Brasil. Para os especialistas, suas palavras foram um ponto de partida para analisar a evolução do programa.
No último mês, os laureados com o Prêmio Nobel de Economia de 2019, Esther Duflo e Abhijit Banerjee, argumentaram em uma conversa com a revista Exame que a discussão precisa ir além da polarização entre “a favor ou contra” e concentrar-se em novos paradigmas de proteção social, levando em conta a crescente desigualdade, o envelhecimento da população e os efeitos da inteligência artificial.
“Em vez de questionar se é positivo ou negativo, seria mais proveitoso refletir sobre o que poderia ser o Bolsa Família 2, 3 ou 4“, declarou Banerjee. Segundo ele e Duflo, o programa deve se desenvolver, integrando informações, tecnologia e abordagens que melhorem a eficiência e personalizem o atendimento às famílias.
De acordo com Duflo, o Bolsa Família se firmou como um modelo internacional, contribuindo para a diminuição da pobreza extrema e servindo de inspiração para iniciativas semelhantes em outras nações. Pesquisas realizadas pela Fundação Getulio Vargas (FGV) indicam que, desde 2014, mais de 60% dos participantes do programa se desvincularam até 2025. Entre os jovens, esse número é ainda mais elevado: 68,8% na faixa etária de 11 a 14 anos e 71,25% entre 15 e 17 anos, tendo a educação como a principal razão para a saída.
A pesquisa revela que 52,67% dos adolescentes de 15 a 17 anos foram retirados do Cadastro Único, que abrange famílias com rendas maiores. Dentre eles, 28,4% possuem empregos formais. Já entre os jovens de 11 a 14 anos, 46,95% deixaram o CadÚnico, e 19,1% possuem contrato de trabalho. Esses dados evidenciam que, ao contrário da afirmação de Huck, o programa favorece a ascensão social e a independência dos seus beneficiários.
Instabilidade social
Os especialistas em economia também chamaram atenção para novos desafios em nível global. O progresso da automação e da inteligência artificial pode levar à concentração de riqueza e colocar em risco os postos de trabalho da classe média intelectual, incluindo programadores, advogados e contadores. Banerjee ressaltou que a aversão dos muito ricos em relação ao pagamento de impostos intensifica a desigualdade, contribuindo para uma potencial instabilidade social.
Para lidar com possíveis crises no futuro, Duflo sugeriu soluções criativas, como o “Pix do Clima“, que consiste em transferências automáticas para lares impactados por ondas de calor, inundações ou catástrofes naturais. O objetivo é minimizar os custos administrativos e assegurar uma resposta ágil em situações de emergência.
O Nobel destaca que o Brasil possui uma infraestrutura sofisticada para a coleta de dados e a análise de políticas públicas, sendo reconhecido como uma referência no cenário internacional. De acordo com Duflo, estudiosos de diversas nações estão interessados em absorver a experiência do Brasil, especialmente considerando os desafios enfrentados para obter dados confiáveis nos Estados Unidos.
De acordo com os especialistas, a discussão deve focar em melhorar o Bolsa Família, ao invés de desmantelá-lo. O objetivo é desenvolver políticas sociais que sejam mais eficazes, personalizadas e adaptáveis, assegurando proteção e autonomia para todas as famílias em um cenário de mudanças econômicas e tecnológicas. (Foto: Reuters)
Por Opinião em Pauta com informações da Reuters



