A escolha do governo dos Estados Unidos em designar grupos criminosos brasileiros como terroristas resulta da nova abordagem do governo Donald Trump em relação à América Latina, que estabelece uma “soberania restrita” para as nações da área. Essa análise é feita por especialistas em geopolítica, economia e relações internacionais ouvidos pela Agência Brasil.
Segundo esses especialistas, essa ação teria a intenção de sujeitar as decisões do Brasil aos interesses de Washington, podendo ser utilizada como justificativa para intervenções políticas.
O docente de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Borba Casella, considera que, com essa classificação, Trump pode repetir a ação que realizou contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua companheira, Cilia Flores, que foram detidos em Caracas no dia 3 de janeiro.
“O reconhecimento de um grupo como organização terrorista, segundo a legislação dos Estados Unidos, autoriza o governo americano a agir contra membros dessas entidades sem precisar declarar guerra ou obter autorização do Congresso”, diz o especialista.
O especialista em relações internacionais, Francisco Carlos Teixeira da Silva, que atua na área de ciência política, defende que essa decisão está alinhada à “doutrina da soberania limitada”, a qual tem sido intensificada durante a administração de Trump.
“Os Estados Unidos deixam claro que a soberania das nações da América Latina é restrita pelos interesses dos americanos. Eles têm a capacidade de intervir sempre que considerarem necessário, de acordo com suas diretrizes”, afirmou o professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em entrevista à Agência Brasil.
Em novembro de 2025, a administração Trump divulgou a nova Estratégia Nacional de Segurança, estabelecendo que os Estados Unidos precisavam reforçar sua “dominância” na América Latina.
De acordo com o analista Francisco Carlos Teixeira da Silva, a intenção de Washington com essa estratégia é enfraquecer a autonomia das nações e reposicionar os Estados Unidos como líderes hegemônicos nas Américas.
Especialistas em relações internacionais indicam que o recente endurecimento na política externa dos Estados Unidos decorre do aumento da influência econômica e tecnológica da China, refletindo a competição para preservar a posição de liderança na economia global.
México tem soberania violada
Além dos exemplos da Venezuela e Cuba, o historiador Teixeira menciona o México, onde também existem grupos operando na região que são considerados terroristas, como o cartel de Jalisco.
Em seguida, os Estados Unidos mandaram um grupo da CIA para o território mexicano sem a devida permissão. Os acontecimentos imediatos nos meses seguintes indicam que a rotulação de grupos como terroristas não ocorre isoladamente, mas traz consigo repercussões significativas.
O falecimento de dois membros da CIA em um acidente automobilístico no México, em abril, gerou descontentamento no governo de Claudia Sheinbaum, pois a presença desses agentes ocorreu sem a devida autorização ou conhecimento por parte da administração federal.
Soberania do Brasil restringida
De acordo com Luiz Carlos Prado, professor de economia internacional na UFRJ, a escolha do governo Trump, respaldada por setores políticos no Brasil, tende a restringir a soberania do país.
“Isso indica que o Brasil não pode ser considerado um país independente, pois sua soberania estaria atrelada ao poder político dos Estados Unidos. Assim, o Brasil não deve possuir uma diplomacia própria, nem desenvolver políticas que reflitam seus interesses internos e suas aspirações. O país deve atuar como um aliado subordinado à liderança norte-americana“, analisa.
Prado defende que classificar facções como terroristas possibilita apontar outros grupos no Brasil, incluindo movimentos sociais, como simpatizantes do terrorismo, mesmo sem fornecer evidências ou indícios concretos.
“Os Estados Unidos podem, de certa forma, nomear ou sinalizar que certos grupos internos, por motivos políticos, apoiam essas entidades, que agora são vistas como terroristas por Washington. Assim, essas alegações fornecem uma justificativa para a repressão de segmentos específicos da população.”
O docente da UFRJ destaca que os Estados Unidos enfrentam desafios para aceitar a autonomia de outras nações e costumam adotar uma atitude que ignora acordos internacionais.
“Essa escolha amplia a flexibilidade e a pressão sobre o Brasil. Refere-se à tradicional prática dos Estados Unidos de empregar, por assim dizer, justificativas que, em teoria, não podem ser verificadas para legitimar intervenções”, observa.
O analista Luiz Carlos Prado observa que os bombardeios no Líbano e na Síria, por exemplo, são frequentemente defendidos sob a alegação de que essas regiões estão sob o controle, segundo os Estados Unidos, de grupos terroristas. “Eles geram uma justificativa legal para uma ação política.” (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações da AgBR


