Digimais: o milagre da multiplicação de ativos do banco de Edir Macedo

Henrique Acker –   Ligado ao grupo empresarial do autointitulado Bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal, o Banco Digimais foi alvo de uma operação da Polícia Federal que levou à quebra dos sigilos bancário e fiscal de nove investigados. O sequestro e o bloqueio de bens e valores durante a Operação Miragem alcançaram R$ 670 milhões.

As apurações envolvem suspeitas de gestão fraudulenta, inserção de informações falsas em relatórios financeiros e realização de operações de crédito proibidas pela legislação bancária.

Um dos focos da investigação é a compra de precatórios, títulos decorrentes de decisões judiciais contra o poder público. Pelas estimativas de mercado, o patrimônio líquido do Digimais está negativo, num rombo que chega a R$ 8,5 bilhões.

 

Maquiagem de balanços

O inquérito conduzido pela Justiça Federal de São Paulo identificou carteiras de crédito supostamente relacionadas ao Banco Master sem “documentação comprobatória de lastro”.

Além disso, havia ativos vinculados a um empreendimento imobiliário ainda não construído e ao financiamento de automóveis com elevado índice de inadimplência. A suspeita é que esses ativos foram superavaliados para “maquiar a real situação de insolvência da instituição”.

O grupo empresarial do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, inclui a TV Record, o Portal R7, a Record News, uma emissora de Rádio, a Editora Unipro, o selo musical Line Records, além do banco Digimais. O braço político do grupo é o partido Republicanos.

 

Cara, cheiro e rabo de Master

Assim como o Banco Master, o Digimais também coloca seus papéis a taxas bem acima das praticadas pelas instituições mais sólidas do mercado financeiro, de até 125% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI).

Também como o Master, o Digimais contou com a ajuda das plataformas da XP e do banco BTG Pactual para espalhar seus Certificados de Depósitos Bancários (CDB) na praça, operando de forma arriscada e fraudulenta.

A relação entre Master e Digimais fica evidente ao se verificar que a ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., administradora de cinco dos mais de trinta fundos do Digimais, tem entre seus sócios ex-executivos do Master. Um deles é Rodrigo Balassiano, que chegou a ser executivo da corretora do Banco Master.

A ID está para o Banco Digimais assim como a Reag estava para o Banco Master. Ela é a responsável pela administração dos fundos do Digimais. Como no caso da Reag, a ID também tem reputação duvidosa.

A ID responde a 147 processos judiciais. O sócio fundador da empresa, José Roberto Giancoli Filho, chegou a ser investigado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por suspeita de irregularidades em administração de carteiras e operações fraudulentas de 2008 a 2011, embora tenha sido absolvido do processo.de 2008 a 2011.

 

R$ 2 bi da Record

“Nem é propriamente desvio, é truque para enganar o mercado financeiro, para enganar os compradores de títulos desse banco e para enganar o Tesouro Nacional, a Receita Federal, o governo, as chamadas autoridades”, declarou o jornalista Jânio de Freitas, no programa Três Pontos nesta sexta-feira (26/6), ao analisar as práticas contábeis do Digimais.

Para tentar aplacar a crise, o Digimais recebeu um aporte financeiro do Grupo Record de comunicação e mantém cerca de R$ 2 bilhões em caixa enquanto negocia sua venda ao BTG Pactual, segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo.

A instituição atende a mais de 145 mil clientes no total (incluindo trabalhadores do setor privado) e mantém cerca de 69 convênios ativos com órgãos municipais, estaduais e federais.

 

Empréstimo consignado

Entre outros serviços, o Digimais oferece empréstimo consignado a servidores públicos federais, estaduais e municipais, com desconto automático na folha de pagamento. O consignado é um serviço oferecido a partir de 2025 e já representa 42% do total.

A maior parte dessas operações concentra-se no estado de São Paulo, sendo cerca de 3% das consignações em folha de pagamento dos servidores municipais e 1,57% das operações do sistema estadual. Os empréstimos a servidores de São Paulo representam 85% da carteira de consignados do Digimais.

Coincidentemente, Prefeitura e Governo do Estado são comandadas por dois políticos bolsonaristas: Ricardo Nunes (MDB) e Tarcísio de Freitas, que pertence ao Republicanos.

A Aeronáutica também autorizou o Banco Digimais a realizar descontos diretamente na folha de pagamento dos integrantes da corporação para quitação de empréstimos, em contrato que se estende até 2030, segundo o jornal O Estado de SP. Outro contrato, desta vez com o Exército, foi firmado em agosto de 2025 e é válido até 2027.

 

Vista grossa do BC de Bolsonaro

O Banco Master foi liquidado em novembro de 2025, no maior acionamento da história do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que é formado por recursos captados junto aos correntistas dos maiores bancos do país.

O caso Master produziu um efeito cascata: o Will Bank foi liquidado em janeiro e o Banco Pleno em fevereiro. O Digimais entra agora na fila, indicando que houve vista grossa ou conivência da antiga direção do Banco Central – presidido por Roberto Campos Neto (indicado por Jair Bolsonaro) – na fiscalização e liquidação de instituições financeiras inadimplentes.

Apesar da operação da PF, o banco BTG Pactual informou ao mercado, em 24 de junho, que não descarta prosseguir com o processo de aquisição do Digimais.

 

Acusados negam irregularidades

O que diz o Digimais:

Em nota, o Banco Digimais afirmou que está à disposição das autoridades. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”.

O que diz a ID:

A ID informou em nota que a empresa “possui reputação consolidada no mercado, com mais de 500 fundos sob sua plataforma e aproximadamente R$ 50 bilhões em ativos sob custódia, todos conduzidos com histórico de integridade e controles rigorosos de marcação e verificação de lastros, em linha com as melhores práticas de mercado e com a regulação vigente”.

O que diz a Igreja Universal:

A assessoria de Comunicação da IURD afirmou que “Edir Macedo não integra a administração executiva nem participa da gestão operacional, financeira ou contábil” do banco. O Digimais permanece sob o comando do bispo João Urbaneja (indicado por Macedo), embora a atual administração seja de Aldemir Bendini. (Foto: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Metro, Metrópoles, Folha SP, Estadão, DCM, Brasil 247, O Globo, Revista Piauí e ICL Notícias.

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