Alemanha: os nazistas estão de volta?

Henrique Acker –  Como em todo processo eleitoral, há diversas tentativas de explicar os resultados. No caso da eleição no estado da Saxônia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha – AfD, partido de extrema-direita, conquistou em 6 de setembro 38 dos 83 deputados do parlamento estadual. Para formar governo, terá que obter 44 votos.

O único partido que admite referendar um governo da AfD no parlamento é o BSW, um partido que se apresenta como de esquerda com forte apelo nacionalista, que elegeu 5 deputados. Ainda assim, há uma diferença entre viabilizar o governo da AfD e participar de um governo comandado pela extrema-direita.

Mais importante do que o resultado em si, são os fatores que levaram 43,8% dos votantes de um estado da antiga Alemanha Oriental – saídos de um regime do chamado “socialismo real” – a votar em um partido de extrema-direita.

 

“Remigração”

Embora não assuma claramente a carapuça do Partido Nacional Socialista de Adolf Hitler, a AfD conta com figuras indisfarçavelmente nazis.

Na Saxônia-Anhalt, o diretório estadual da AfD desde 2023 é classificado como uma “organização extremista de direita confirmada” pelo Departamento de Proteção da Constituição do estado, que monitora as atividades dos seus membros.

Uma das políticas assumidas pela AfD é a “remigração”, ou seja, o retorno dos imigrantes aos seus respectivos países. Mas isso deixou de ser um tabu na União Europeia, principalmente depois da aprovação da nova regulamentação restritiva da UE para todos os imigrantes.

 

Decepção do eleitorado conservador

O primeiro-ministro Friederich Merz, que viu seu partido de direita CDU ser esmagado nas urnas, obtendo apenas 17,2% dos votos válidos, se disse “profundamente chocado”. Ele reconheceu que sua baixa popularidade – 16% de aprovação – teve influência no resultado.

Um dos motivos é a prolongada guerra Rússia-Ucrânia, que se arrasta por mais de quatro anos e consome boa parte do orçamento do país, sem ter sinais de uma solução. Isso atinge particularmente o eleitorado do Leste do país.

Muitos analistas apontam a decepção com o governo de Merz e a falta de uma política alternativa nos partidos tradicionais como motivos para a adesão crescente do eleitorado alemão à AfD.

Em apenas um ano de mandato de Merz a estagnação da economia fez fechar fábricas de gigantes como a Volkswagen, ampliando o descontentamento popular com o governo, que reúne os dois maiores e mais tradicionais partidos do país (CDU e SPD).

 

Programa de extrema-direita

Em todo o Mundo a maioria do eleitorado age pela emoção e simplesmente ignora os programas dos partidos. Na Alemanha não é diferente. Se lesse as propostas da AfD uma parcela dos eleitores talvez discordasse de coisas como:

. Aumentar o número de deportações e de centros de detenção de imigrantes (eles são 8% na Saxônia-Anhalt);

. Exigência de trabalho e escolas especiais para os imigrantes requerentes de asilo político;

. Cancelar contratos com emissoras de comunicação públicas, sob a alegação de que são ligadas a um governo “esquerdista”;

. Tornar o ensino domiciliar uma opção;

. Escolas separadas para alunos com necessidades especiais;

. Comissão de investigação para apurar a gestão da pandemia de Covid-19 pelo governo federal (AfD se opôs à promoção de vacinas e ao uso de máscaras como medidas preventivas);

. Substituir princípios de educação e cultura: de “Escola sem racismo” por “Escola com coragem”; de “Pensar moderno” para “Pensar alemão”.

 

Sondagens indicam avanço da AfD em todo o país

Analistas advertem que, apesar do crescimento da extrema-direita, a situação econômica e política do país nada tem a ver com o clima em que se vivia nas décadas de 20 e 30 na Alemanha.

A historiadora Katja Hoyer, em análise feita para a DW, destacou que o país está longe da dureza da inflação disparada e da banalização da violência herdadas do pós-Guerra de 1914/1918. Outros acrescentam que não há uma polarização entre os nazistas e a esquerda de então.

As próximas eleições acontecem em meados de setembro em Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, além de eleições municipais na Baixa Saxônia. Em Berlim, a disputa fica entre Die Linke (Esquerda) e a CDU, mas em Mecklemburgo e na Baixa Saxônia a tendência é de novas vitórias da AfD.

O portal PolitPro, que faz sondagens mensais sobre as tendências do eleitorado, aponta que, em 30 de agosto de 2026, o partido preferido na Alemanha seria a AfD (28%), seguido da CDU (20,9%), verdes/Grüne (14,3%), dos social-democratas/SPD (12,3%) e da Esquerda (11,5%).  (Fotos: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de DW Brasil, Agência Pública, PolitPro, BBC, UOL Notícias e G1.

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