O Cavalo de Troia do bolsonarismo no STF

Henrique Acker –  Após o pedido de afastamento de Dias Toffoli do inquérito sobre o Banco Master, André Mendonça assumiu a condução do caso no STF. Tomou as rédeas da apuração, cercando-se de pessoas como o senhor   Thiago Marcantonio Ferreira, que o assessorou quando era ministro da Justiça de Bolsonaro, desprezando o trabalho da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.

Sua atitude ameaça, inclusive, desmoralizar as duas instituições. Justamente as que mais têm trabalhado para apurar crimes e prender os responsáveis por desbaratar quadrilhas que desferem golpes milionários contra o erário público no Brasil.

Ou seja, está evidente que o processo seria direcionado para livrar a cara dos bolsonaristas (Flávio, Eduardo e cia), responsabilizar o governo Lula e o Banco Central. A seleção de alvos por critérios políticos e as ilegalidades cometidas sob a condução de Mendonça podem levar à anulação do caso. É o que atesta o relatório da Inteligência da PF sobre o caso.

A revelação de conversas e reuniões de Vorcaro com Mendonça, em 2025, fragiliza a sua permanência à frente da apuração do caso. Mas ele ainda acredita estar em condições de pedir um julgamento de seu colega de toga, Alexandre de Moraes, contra o qual pesaria o contrato entre o Master e o escritório de advocacia de sua esposa.

O que a grande mídia teima em sustentar, apesar das evidências, é uma suposta equivalência entre os papéis de Moraes e Mendonça neste caso, e entre governistas e bolsonaristas nas responsabilidades pelo escândalo do Master. Isso não se sustenta, até porque é sabido que Alexandre de Moraes nunca teve nada a ver com Lula e o PT.

Para Mendonça, o problema não são as falcatruas do Master, cometidas por Vorcaro. A prioridade não é resgatar os direitos e recuperar as perdas dos que foram prejudicados. É um acerto de contas com Moraes, que foi implacável com os golpistas de 8 de janeiro de 2023 e no inquérito das notícias falsas.

Para cumprir esse papel de Torquemada do STF, ninguém melhor do que o ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro. Foi durante sua gestão que se produziu um dossiê com nomes de antifascistas, críticos ao governo, no qual constavam inclusive dois jornalistas e seis radialistas.

Triste papel de cúmplices da extrema-direita cumprem, mais uma vez, os principais órgãos da mídia empresarial. Sobretudo alguns colegas, que fogem da objetividade dos fatos e se apegam a suposições e questões de menor importância para o caso. Cabe indagar: são maus profissionais ou apenas porta-vozes de seus patrões?

As conversas de Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira com Vorcaro – para obter dinheiro e outros benefícios, além do apoio financeiro explícito do ex-banqueiro para as campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas (num total de R$ 5 bilhões) – não deixam dúvidas.

O bolsonarismo é causador e beneficiário dos escândalos que envolvem o Master. O banco de Daniel Vorcaro foi autorizado a operar no governo Bolsonaro e só foi liquidado na gestão de Gabriel Galípolo, nomeado por Lula. A intimidade do palavreado de Flávio Bolsonaro e Nikolas com Vorcaro revela a cumplicidade com o ex-banqueiro.

Ao cobrar dinheiro supostamente para bancar o filme Dark Horse (cujo orçamento supera em muito as grandes produções de Hollywood), Flávio se dirige a Vorcaro com “irmão” e afirma: “…estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.

Já Nikolas, que passeou no jatinho de Vorcaro para pedir votos em todo o país para Bolsonaro em 2022, se refere ao ex-banqueiro como “Dani”, para pedir interferência num negócio de mineração para seu amigo e advogado em Minas Gerais.

Milhões de correntistas e servidores públicos foram tungados pelos esquemas que envolvem o Master e seu dono. Caixas de Previdência foram detonadas por governadores e prefeitos bolsonaristas para sustentar a pirâmide de Vorcaro. O cartão Credicesta foi imposto a servidores públicos em diversos cantos do país.

Um escândalo que abriu um rombo bilionário no Banco Regional de Brasília, também sob o governo de um bolsonarista assumido, o ex-governador Ibaneis Rocha.

O Fundo Garantidor de Créditos (FGC), sustentado por correntistas dos maiores bancos brasileiros (inclusive a Caixa Econômica e o BB), vai arcar com o prejuízo da roubalheira promovida pelo senhor Vorcaro e seus apaniguados. Algo em torno de R$ 40 bilhões de reais.

Ao contrário das palavras de Eduardo Bolsonaro, que em 2028 afirmou bastar “um soldado e um cabo” para fechar o STF, a Corte agora está ameaçada por um Cavalo de Troia. Ele tem assento garantido no Plenário desde o governo Bolsonaro e trabalha lá dentro para a desmoralização do Supremo.

Por Henrique Acker (jornalista e colunista)

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