Henrique Acker – As Casas Bahia, uma das maiores redes do comércio varejista do país, anunciaram em 16 de agosto um pedido de recuperação judicial (RJ). No documento que justifica a medida, a empresa revela uma dívida acumulada de R$ 17,3 bilhões. O prejuízo do grupo no segundo trimestre de 2026 chegou a R$ 10,1 bilhões.
Em função do rombo bilionário, as Casas Bahia – que já haviam passado por uma recuperação extrajudicial em 2024 – anunciaram o fechamento de 298 lojas e a demissão de 3 mil funcionários em todo o país.
Entre 2024 e 2025 o grupo fechou 55 lojas e demitiu 8.600 funcionários, quando renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas com instituições financeiras. No “fato relevante” publicado, a direção da empresa também comunicou a troca do vice-presidente jurídico e tributário, além do afastamento de dois conselheiros.
Efeito Americanas
Alguns analistas de mercado têm cravado que a crise das Casas Bahia nada tem a ver com a fraude bilionária das Lojas Americanas (LA). Os motivos, de fato, são diferentes, mas o resultado pode ser consequência do golpe das LA no mercado.
Coincidência ou não, a fiscalização e a liberação de crédito por parte do mercado financeiro apertaram para operações de grandes empresas do mercado varejista, desde o anúncio do rombo das Lojas Americanas, em janeiro de 2023.
Na ocasião, o balanço contábil das LA – empresa do Grupo 3G – revelou uma fraude de R$ 29 bilhões. As apurações da Polícia Federal identificaram que 14 ex-executivos da Americanas venderam R$ 258 milhões em ações antes da publicação do balanço fraudado pela antiga gestão da empresa.
O então CEO da LA, Michel Gutierrez, chegou a ser preso na Espanha em junho de 2024, depois que se desfez de bens, entre eles imóveis e veículos, e enviou valores a empresas sediadas em paraísos fiscais.
O rombo da LA alertou financeiras e investidores internacionais, que passaram a ver as operações das redes brasileiras de varejo com desconfiança. Um dos motivos da crise das Casas Bahia é que as tratativas para a adesão de um investidor-âncora ao grupo fracassaram.
Risco sacado
No chamado “fato relevante”, em que anuncia o pedido de recuperação judicial, as Casas Bahia atribuem a situação a diversos fatores: elevadas taxas básicas de juros, compressão da margem de lucro, concorrência do comércio digital, encarecimento brutal da dívida financeira e retração no consumo das famílias.
Um dos pontos críticos reconhecidos pela empresa é justamente a redução do chamado “risco sacado”, quando uma instituição financeira antecipa o pagamento devido a fornecedores, passando a ser credora da empresa.
Numa reação natural, as ações do Magazine Luiza e da Americanas subiram na Bolsa de Valores. No entanto, para Matheus Matos, sócio da MA7 Capital, a situação é preocupante. “Eu não leria essa alta como alívio do setor, porque o que apertou a Casas Bahia continua apertando todo mundo. O mercado está precificando a saída de um concorrente do jogo, não a melhora do jogo”, alertou.
Como funcional a RJ
A recuperação judicial é um instrumento legal para auxiliar empresas endividadas a reestruturar suas dívidas e a continuar operando. A Lei 11.101, em vigor desde 2005, visa garantir que as empresas consigam superar suas dificuldades financeiras sem a necessidade de uma liquidação imediata.
A recuperação judicial permite que a empresa proponha um plano de recuperação, onde são estabelecidos prazos e condições para o pagamento das dívidas. O objetivo é preservar a atividade econômica, proteger os empregos de seus funcionários e os interesses dos credores.
O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia se estende às subsidiárias do grupo: ASAP Log – Logística e Soluções Ltda; ASAP Log Ltda; CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística Ltda; Cntlog Express Logística e Transporte Ltda; Globex Administração e Serviços Ltda; Cnova Comércio Eletrônico S.A; Integra Soluções para Varejo Digital Ltda; Casas Bahia Tecnologia Ltda; e Indústria de Móveis Bartira Ltda. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de CNN Brasil, Migalhas, Valor Econômico, InfoMoney, O Globo, Veja, ncnews e braziljournal.


