Henrique Acker – O ministro Flávio Dino quebrou o sigilo de três petições de um processo que tramita no STF (*), envolvendo uma investigação iniciada a partir do assassinato de um empresário em São Luís, no ano de 2022, conduzida pela Polícia Federal no Maranhão.
Os documentos liberados por Dino em 14 de agosto desvendam o contexto das atividades do grupo político que comanda o governo do Maranhão, aprovando emendas do orçamento da União e desviando esses recursos com a contratação de empresas que facilitam o esquema.
Pelo que já foi apurado, a morte do empresário João Bosco Pereira ocorreu justamente pela divisão de propina de contratos para a execução de obras.
A participação do deputado federal Josimar Maranhãozinho no esquema de liberação de emendas, o assassinato do empresário e a exposição da família do ministro relator do caso no STF são partes do mesmo caso.
A suposta “quebra de sigilo da fonte” de um blogueiro (que não é jornalista) – alardeada por Malu Gaspar (Globo/Globonews) e Carlos Andreazza (Band News) – é uma das questões que envolvem as investigações.
Bastaria uma passada de olhos no próprio blog para perceber o tipo de material publicado e a ligação evidente do autor com o atual grupo político que comanda o governo do Maranhão.
Em 26 de março deste ano, o blogueiro publicou material ilustrado com fotos, no qual denuncia o uso de veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão – o que não constitui ilegalidade – para deslocamento do ministro Flávio Dino e familiares em São Luís. O caso data de 30 de outubro de 2025.
Em função do ocorrido, que coloca um ministro do STF e seus familiares em risco, Alexandre de Moraes determinou a investigação dos equipamentos do blogueiro, o que foi alardeado como “quebra do sigilo de fonte”.
Fonte investigada
Quem entregou as fotos com a placa do veículo e nomes de agentes que faziam a segurança do ministro e de sua família foi Raimundo Cutrim, então secretário do governo de Carlos Brandão. Cutrim pertence ao grupo político da família Orleans Brandão.
Ou seja, a fonte em questão é alguém diretamente interessado em desqualificar o relator do caso no STF. Cutrim, ex-delegado da PF, ex-deputado e até então secretário do governo estadual, também é alvo das investigações.
Uma gravação entregue à Justiça por seu primo, pai de Gilbson Cutrim – assassino confesso do empresário em 2022 – dá conta de que Raimundo Cutrim pretendia que Gilbson retirasse do seu depoimento o nome de Daniel Brandão, que estava na cena do crime e hoje é membro do Tribunal de Contas do Maranhão.
Gilbson Cutrim procurou o STF, acusando Raimundo Cutrim e aliados de terem oferecido dinheiro à sua família para que nomes de políticos fossem retirados das acusações envolvendo os possíveis mandantes do crime.
Jornalismo “que incomoda o poder”
O blogueiro em questão tem conhecimento do processo no STF, do interesse de quem forneceu o material e a quem a publicação do material atingiria. O pano de fundo deste caso é o desvio de recursos públicos em forma de emendas do orçamento por um grupo político.
No cabeçalho do blog está estampada a frase “Jornalismo independente que incomoda o poder”. No entanto, segundo o portal nd+, o blog conta com patrocínio da Assembléia Legislativa do Maranhão.
Para o jornalismo, há outra questão envolvida. E nada tem a ver com “quebra de sigilo de fonte”.
Publicar material para atender a interesses de grupos privados, longe de representar liberdade de imprensa e exercício da profissão, é, tão somente, canalhice, sabujice ou subserviência. No jargão jornalístico, alguns chamam a isso de “jabaculê”.
A medida do ministro Dino, liberando documentos do processo, joga luz sobre uma ampla investigação não só dos motivos que levaram ao assassinato de um empresário e os interesses pesados que envolvem o caso.
A divulgação das petições permite que um jornalismo verdadeiramente independente vá fundo na apuração da farra das emendas parlamentares e como elas alimentam a vida nababesca de grupos políticos e empresariais que se perpetuam em torno do poder. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)
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(*) Recomendamos a leitura das petições liberadas pelo ministro Flávio Dino, da nota do TJ do Maranhão sobre o uso de veículos oficiais por ministro do STF e da matéria do blog citado, que podem ser acessadas pelos links:
https://revistaforum.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Dino-3.pdf
https://revistaforum.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Dino-2.pdf
https://revistaforum.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Dino-1.pdf
https://www.tjma.jus.br/midia/portal/noticia/522745/nota-publica



