Henrique Acker – Há dois meses e meio das eleições de 2026, uma curiosa disputa movimenta a política do Rio de Janeiro. O Estado, endividado em R$210 bilhões, vem sendo governado interinamente pelo desembargador Ricardo Couto. Só em operações que investigam desvios de verbas e corrupção, já foi detectado um rombo de 71,8 bilhões nos últimos anos.
No entanto, da parte dos dois candidatos mais cotados na corrida eleitoral ao Palácio Guanabara – Eduardo Paes e Douglas Ruas – o envolvimento de correligionários e aliados em fraudes que lesaram o Orçamento da União, o Estado e as prefeituras não parecem ter tanta importância.
Nos bastidores, desenvolve-se uma guerra de foice envolvendo partidos, deputados, vereadores, prefeitos e secretários, que negociam cargos nas chapas e em secretarias. No levantamento de prejuízos aos cofres públicos do Estado e da Capital, sobram nomes das chapas dos dois lados.
Facções criminosas no governo do Estado
Douglas Ruas (PL), atual presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), tem o apoio do bolsonarismo e tenta consolidar uma aliança com os maiores partidos do Centrão, o PP, União Brasil e Republicanos.
A coligação ainda precisa definir o candidato à vice de Ruas e os candidatos ao Senado, mas encontra dificuldades por conta do envolvimento em escândalos e até prisões dos nomes que seriam mais cotados para preencher as vagas. Um dos candidatos escolhidos pode ser o ex-prefeito da Capital, Marcelo Crivella.
O presidente da Alerj perdeu força justamente por não exercer o poder de governador interino, atualmente sob responsabilidade do desembargador Ricardo Couto. O caso está parado no STF e só deve ser decidido em 19 de agosto, após o recesso do Poder Judiciário.
Ruas ficou sem a máquina do Estado para promover inaugurações de última hora e firmar compromissos de campanha. Sua candidatura também foi afetada pelas exonerações de milhares de cabos eleitorais das secretarias e demais órgãos da administração estadual, a maioria recebendo sem trabalhar.
O candidato bolsonarista sofre ainda o desgaste de ser apontado como o herdeiro da má gestão econômica do Estado e da crise na própria Alerj. No plano econômico, um dos maiores escândalos envolve a sonegação bilionária de impostos pela Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, hoje de propriedade do empresário Ricardo Magri.
A crise política envolve a prisão de deputados da base governista, acusados de ligação com grupos criminosos (milícias, CV e TCP). E culminou com a renúncia do ex-governador Cláudio Castro, processado por empregar cabos eleitorais no Ceperj e na UERJ, também suspeito de receber dinheiro do jogo do bicho.
ONGs e “saldão” de imóveis da Prefeitura
Já o ex-prefeito da capital, Eduardo Paes (PSD), tem problemas em sua própria chapa. Jane Reis, candidata a vice-governadora, é irmã de Washington Reis, ex-prefeito de Caxias. Os dois são alvos da Operação Anáfora, envolvendo lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos (cerca de 600 milhões) especialmente na área da saúde. Jane é administradora da empresa WR Participações e Empreendimentos Imobiliários, da família Reis, que seria usada no esquema.
Pedro Paulo, candidato a senador, também deve explicações por ter liberado emendas do Orçamento Federal para a ONG Instituto Carioca de Atividades (ICA), visando a aquisição de quimonos e kits para a prática de boxe. No entanto, a ONG não atestou a prática desses esportes por seus frequentadores e nem a compra dos equipamentos esportivos.
Entre os aliados e ex-aliados de Paes figuram Chiquinho Brazão, Laura Carneiro e Otoni de Paula. Brazão e Carneiro também repassaram recursos de emendas federais ao ICA. Otoni de Paula Filho (filho do deputado Otoni de Paula), firmou contratos no valor de R$ 55,2 milhões com o ICA e com o Centro de Pesquisas e de Ações Sociais e Culturais (CPASC), outra entidade na mira da PF.
Paes também é alvo de denúncias por favorecimento ao mercado imobiliário na Capital. No apagar das luzes de seu governo, o ex-prefeito apresentou à Câmara de Vereadores do Rio o Projeto de Lei Complementar (PLC) 93/2025, que libera a venda de 324 imóveis municipais, entre terrenos e edificações, que ficou conhecido como “saldão” de imóveis.
O argumento da Prefeitura é que o município deve arrecadar de R$ 2 a R$ 2,5 bilhões. Entre os imóveis listados estão 37 terrenos na Barra da Tijuca e 15 no Recreio dos Bandeirantes. As áreas foram doadas por particulares para que a prefeitura construísse parques, praças, creches e escolas. No entanto, os projetos nunca saíram do papel.
Cortando na carne
Sob a administração interina do desembargador Ricardo Couto, todos os dias o Rio é o palco de operações da Polícia Federal. São emendas parlamentares mal explicadas – cujas verbas não chegaram aos destinos anunciados -, contratos superfaturados com empresas de laranjas ou simplesmente desvio de recursos públicos, heranças das administrações do Estado, da Capital e de outras cidades.
Em recente entrevista ao jornal Extra, o governador interino admitiu que o número de funcionários comissionados “fantasmas” a serem exonerados deve chegar a seis mil, o que pode gerar uma economia razoável na folha de pagamento.
Para agir e sufocar o crime organizado no Estado, foram criados o Gabinete Integrado de Segurança e o Escritório Nacional Antifacção, somando esforços da Polícia Federal, Polícia Rodoviária e forças estaduais de segurança pública, no combate ao chamado crime organizado.
Na entrevista, Couto ressaltou que a administração interina firmou em junho, junto ao Governo Lula, a adesão do Estado do Rio de Janeiro ao Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados).
Pelo acordo, a dívida total do Estado foi reduzida de R$ 210,6 bilhões para R$ 168,5 bilhões. O valor mensal pago à União caiu de aproximadamente R$ 490 milhões para cerca de R$ 113 milhões. Pelo Propag, os juros aplicados à dívida vão de 0% a 2%. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker, com informações de Jornal Extra, O Globo, Valor Econômico, Gazeta do Povo, UOL Notícias, Cidade 24h, Sinfrerj, www.gov.br. Imagens: Reprodução da Editoria de Arte de O Globo.



