Cresce movimento para eliminar direito de as mulheres votarem

Miriam Leitão – Não é apenas uma bizarrice de um fanfarrão grosseiro. É um movimento perigoso pela eliminação do direito do voto da mulher que tem crescido na extrema direita. Há projetos que restringem as garantias civis das mulheres. Eles estão falando sério, por mais que pareça escalafobético. Algumas propostas avançam. Sim, a extrema direita gostaria de impor a nós esta ruína civilizatória.

O que Paulo Figueiredo disse não deve ser entendido como uma grosseria individual e fortuita. Não é apenas uma “treta” condenada a desaparecer quando algo mais absurdo viralizar. Na verdade, falou por uma corrente de pensamento que acredita na inferioridade da mulher.

Para entender o grau de simbiose de Figueiredo com os Bolsonaro, basta ver a foto do seu perfil nas redes sociais, na qual ele aparece entre Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro e atrás de Donald Trump. O repúdio tardio de Flávio Bolsonaro não é suficiente para separar os dois. Figueiredo e os Bolsonaro são unha e carne, pensam de forma idêntica e defendem os mesmos ideais. Para conter o estrago, Flávio Bolsonaro disse que é “a mulherada que manda”. Isso é um velho lugar comum dos machistas. Não convence.

No mundo inteiro, notadamente nos Estados Unidos, o pensamento ultraconservador tem ameaçado as conquistas das mulheres. Os ataques vão pelas bordas. Em 11 de fevereiro deste ano, foi aprovado na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos o “Save America Act” que cria barreiras eleitorais. Atinge imigrantes, pessoas trans e mulheres casadas ao dificultar o voto de quem trocou de nome.

Está parado no Senado, mas como técnica legislativa, foi acoplado a outro projeto, a Lei de Autorização de Defesa, com aceitação mais ampla, para aumentar suas chances. Como 69 milhões de americanas casadas possuem nome na certidão de nascimento que não corresponde à identificação atual, elas teriam que pagar US$ 165 e vencer a burocracia para compatibilizar os documentos. Do contrário, seriam impedidas de votar.

Entidades que pregam o voto de “família”, começam a perder a vergonha de dizer o que querem: que o marido vote pela mulher. O movimento antissufragista, do fim do século XIX e começo do século XX, dizia que a política corromperia a mulher e a tiraria do seu papel de dona de casa e mãe. A mesma estultice está reaparecendo.

O pastor Douglas Wilson sustenta a tese de que se volte ao período em que os Estados Unidos foram fundados, quando havia o voto por domicílio. Um integrante da denominação de Wilson é o secretário de Guerra Pete Hegseth. A visão começa a ganhar adeptos na ala trumpista do Partido Republicano.

Na convenção de 2020 do partido, a ativista Abby Johnson defendeu publicamente este modelo. Numa conferência recente, conservadoras admitiram abrir mão do direito. Há influenciadores mobilizados na divulgação da proposta do voto familiar, em vez do individual. A 19ª emenda tem hoje inimigos reais.

Paulo Figueiredo disse o que um grupo pensa. Ele afirmou que a mulher “vota mal para caralho”, que isso é “estatisticamente provado” e que as mulheres que não gostassem da fala arrancassem “os pentelhos das calcinhas”. Antes de prosseguir, peço desculpas aos leitores dessa coluna, publicada no GLOBO há quase 35 anos, e que jamais trouxe tal classe de palavras. Contudo, foi necessário reproduzir a fala indigesta para mostrar duas coisas. Primeiro, ele mente e cita estatística inexistente. Segundo, por desprezo, ele imagina que a mulher não teria capacidade de argumentação e, portanto, descontrolada, arrancaria os próprios pelos.

Nos partidos de extrema direita da Europa a tese aparece de forma mais discreta, mas há a pregação do ideal de retorno da mulher ao lar. Nos debates atuais, como na época da luta entre sufragistas e antissufragistas no século passado, havia também mulheres contra o direito do voto feminino. A briga não é com os homens, mas contra uma corrente de pensamento retrógrado.

A ultradireita quer suprimir várias outras conquistas, além dos direitos eleitorais. No Conto da Aia, a genial Margaret Atwood criou o mundo ficcional de Gilead em que a mulher é confinada ao papel de reprodutora. Esse é o sonho da ultradireita. O que houve na semana passada não foi apenas mais um ultraje. Foi a defesa de um projeto. (Foto: Reprodução)

Texto da colunista Miriam Leitão, de O Globo

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