Henrique Acker – O vício ou dependência de jogos de azar pela Internet já atinge cerca de 11 milhões de brasileiros com mais de 14 anos. O alerta sobre a gravidade do problema foi dado há um ano pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com base na pesquisa da Fapesp, divulgada em abril de 2025.
De acordo com o levantamento, os brasileiros gastavam até então R$ 20 bilhões/mês em apostas através de plataformas de jogos na internet, as chamadas bets. No entanto, dados mais recentes apontam que as apostas online já movimentam R$ 30 bilhões/mês.
O público mais vulnerável é o de menores de idade, que não têm sequer como arcar com as dívidas acumuladas nos cassinos virtuais. A jogatina dos filhos acaba comprometendo o orçamento familiar, penalizando os pais. Muitos assumem dívidas junto a bancos e cartões de crédito para cobrir o rombo.
“Moldado” para apostador perder
Só com a Copa do Mundo 2026 os brasileiros devem movimentar até R$ 31 bilhões em apostas online. Um mercado que cresce, impulsionado pela regulamentação em vigor desde o final de 2025.
Além das bets legalizadas no país, a internet permite ao apostador jogar em cerca de duas mil plataformas sediadas em outros países que também atuam no mercado brasileiro.
“É muito difícil fiscalizar e monitorar esses sites e aplicativos que, em geral, estão sediados em locais onde a legislação é flexível e sem muitas regras”, reconhece Guilherme Klafke, professor de direito digital da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
“Não tem nenhum tipo de cálculo, habilidade ou estratégia que vão aumentar a sua probabilidade de vencer. Esses jogos são programados para pagar um prêmio muito menor. É matematicamente impossível fazer dinheiro se ficar jogando”, declarou Ricardo Perassolli, especialista em ciência de dados à EPTV, afiliada da TV Globo no interior de S.Paulo.
De goleada
A popularização das apostas online levou 39,5 milhões de brasileiros a jogar através de bets em 2025, mostrou levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). Desse total, aproximadamente 7,5 milhões (19%) admitiram que comprometeram parte da renda com os jogos de azar.
De janeiro de 2023 a março de 2026 a inadimplência do consumidor causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. O montante equivale ao volume de vendas nos períodos de Natal de 2024 e 2025.
Nos últimos anos, as apostas pela internet tornaram-se o principal motor do endividamento das famílias brasileiras. O apostador está levando uma verdadeira goleada. De acordo com estudo da Confederação Nacional do Comércio, os gastos chegam a drenar cerca de R$ 30 bilhões por mês da economia doméstica, superando o impacto histórico dos juros bancários e levando centenas de milhares de brasileiros à chamada inadimplência severa.
Apostas online superam cartão de crédito
Um levantamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e a FIA Business School revelou que as plataformas online são a principal causa das dívidas atualmente no Brasil.
Segundo o Ibevar e a FIA, o impacto das apostas online é quase o dobro da soma dos dois fatores tradicionais – cartão de crédito e imprevistos financeiros -, podendo ser ainda maior, já que parte do efeito dos juros está embutido na dinâmica do crédito.
Num único mês, agosto de 2024, o Banco Central identificou cerca de R$ 3 bilhões saindo via Pix das contas de beneficiários do Bolsa Família para casas de apostas. Foram quase 5 milhões de pessoas, com gasto médio de R$ 100, e a maioria era chefe de família.
“Para quem vive de um benefício de pouco mais de R$ 680, R$100 não é troco: é gás, é feira, é o material escolar do filho”, lembra Fábio Silva, CEO da Rede Muda Mundo, em artigo para a Folha de Pernambuco (11/6/26).
“A bet não está disputando o dinheiro do supérfluo. Está disputando o dinheiro da comida, exatamente nas famílias que menos podem perder”, conclui Silva. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do G1, Revista Pesquisa Fapesp, UOl Notícias,



