Jogos online: vício destrói famílias e pesa no bolso do SUS

Henrique Acker –  De um total de 12,8 milhões de apostadores em jogos pela Internet, 1,4 milhão apresentam um padrão de apostas comprometedor, compatível com o diagnóstico do transtorno do jogo, caracterizada pelo desejo incontrolável de jogar mesmo diante de prejuízos.

Os dados constam do dossiê “A Saúde dos brasileiros em jogo”, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) em parceria com a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM) e a Umane.

O estudo propõe uma série de iniciativas para ampliar o combate ao vício em apostas pela Internet. Entre eles, a restrição à publicidade das casas de apostas, investimento pesado em serviços públicos especializados para lidar com o problema e aumento do percentual da arrecadação dos impostos pagos pelas bets para a área de Saúde, como na Inglaterra, onde as plataformas de jogos online são taxadas em 50%.

 

Arrecadação irrisória e informalidade

Só em 2025, o Ministério da Saúde investiu R$30,6 bilhões com tratamentos de prevenção a suicídios, alcoolismo e uso de drogas, associados ao vício de apostadores em situação de risco. Com base na destinação obrigatória de 1% da arrecadação líquida de impostos cobrados das bets, o valor efetivamente transferido até 25 de agosto de 2025 para o Ministério da Saúde foi de R$33 milhões.

A quantia é autodeclarada pelas operadoras, conforme registrado no Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP). Os percentuais atualmente previstos em lei – 1% da arrecadação para o Ministério da Saúde e 1,75% para o Fundo Nacional de Saúde – são considerados pelo Ministério da Saúde insuficientes para garantir a implementação de todas as ações necessárias.

Contrariando a retórica de que o mercado de apostas dinamiza a economia e gera empregos, em dezembro de 2024 havia apenas 1.144 empregos formais ativos para 60 empregadores formais. Uma média de apenas 19 empregos por empresa. De cada R$ 291 de receita obtida pelas empresas, apenas R$ 1 se transforma em salário formal.

O setor também se caracteriza por um alto grau de informalidade. De acordo com a PNAD Contínua 2024 do IBGE, 84% dos trabalhadores do setor de apostas online que atuam não contribuem para a previdência.

 

Cinismo de quem lucra

Um levantamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e a FIA Business School revelou que as plataformas online são a principal causa das dívidas atualmente no Brasil.

No entanto, há quem não veja qualquer problema de endividamento excessivo, vício ou indução aos apostadores durante as transmissões esportivas. É o caso de Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias – ANJL.

Ele duvida dos estudos – como o do Ibevar/Fia – que confirma serem as plataformas online as principais causadoras das dívidas dos brasileiros.

Plínio afirma que o principal vilão continua a ser o cartão de crédito. “O estudo levanta uma hipótese relevante, mas não apresenta evidências robustas para sustentar que as apostas online tenham se tornado o principal fator de endividamento das famílias no Brasil”, afirma Lemos Jorge.

Já Casemiro Miguel, idealizador da Cazé TV, do grupo LiveMode – sustentada por aportes milionários dos grupos financeiros XP e General Atlantic -, considera que a veiculação de propaganda de apostas estimulada durante as transmissões de jogos da Copa não representa qualquer prejuízo aos internautas.

“Oh, meu Deus! Não aguento mais tantos anúncios de Bets. Tem Bet para tudo que é lado. Tem vinte bets no jogo. É fato, não tem muito quefazer. É o que faz girar o negócio. Eu achei que isso prejudicou? Não. Prejudicou o que?”, declarou Casemiro.

 

Suspensão e ameaça de multas

Não é a posição do CONAR – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, que suspendeu as propagandas de casas de apostas consideradas abusivas exibidas na CazéTV durante as transmissões da Copa do Mundo.

A decisão ocorreu com base na premissa de que os anúncios podem induzir o público a erro sobre as chances de ganho. As chamadas odds (cotações ou probabilidades) foram amplamente usadas para estimular os espectadores a apostarem durante as transmissões.

As odds divulgadas durante as partidas são indicadores numéricos que apresentam a probabilidade estimada de um resultado acontecer e o multiplicador que define o seu lucro caso o palpite seja correto.

No entanto, um levantamento feito pelo ICL Notícias indica que 45 das 74 odds veiculadas em 48 partidas das duas primeiras rodadas da Copa, a aposta da CazéTV deu errado. Em 7 das 29 odds vitoriosas, o espectador só podia pagar até R$ 10,00, com ganhos insignificantes para o apostador.

Quem seguiu as dicas que vinham sendo veiculadas no programa Jogo Aberto (TV Bandeirantes) durante a Copa do Mundo, também perdeu de goleada. De acordo com o ICL Notícias, as probabilidades verbalizadas pela apresentadora Renata Fan levaram o público a derrotas em seis das sete odds divulgadas (86%dos casos).

O Ministério da Fazenda, que fiscaliza e tem poder punir os sites de apostas, abriu processo contra a Bet365, Bet Nacional e KTO, que pode chegar a R$ 2 bilhões em multas. A Secretaria de Prêmios e Apostas informou que já notificou as operadoras de apostas e a CazéTV, que têm dez dias úteis para responder.

 

Artistas pedem “block no tigrinho”

Uma campanha publicitária com o slogan “Dê block no tigrinho”, com grandes artistas como Gilberto Gil e Chico Buarque, foi lançada pela organização 342 Artes, que tem por objetivo promover a defesa da democracia.

“Quando a campanha Block no Tigrinho pergunta “de que lado da influência você está?”, ela cobra responsabilidade de uma cadeia inteira, não de um apostador isolado”, opina Fábio Silva, CEO da Rede Muda Mundo, em artigo para a Folha de Pernambuco (11/6/26).

No texto, ele explica que a engenharia montada pelas bets obedece a uma série de critérios: plataforma desenhada para viciar; publicidade que vende lucro fácil; influenciador que normaliza, clube que estampa a marca no peito. E as emissoras de TV que fazem o grosso da publicidade.

“A campanha chega tarde, mas chega na hora de transformar indignação em desenho de solução. É disso que o Brasil precisa: menos roleta no celular do pobre, mais rede em volta dele”, adverte.

 

Autoexclusão

Pelo estudo “O impacto das apostas esportivas no consumo”, da Strategy& consultoria estratégica, em 2024 as apostas em bets já representavam 38% dos gastos em cultura e lazer das classes C, D e E. Os apostadores online são formados, em sua maioria, por homens, jovens e de classe média baixa, com concentração no Sudeste.

Segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), sete milhões e meio de brasileiros assumem ter comprometido parte da renda ou se endividado diretamente com apostas online.

Criada há seis meses pelo Ministério da Fazenda e Ministério da Saúde, uma plataforma permite ao jogador pedir a autoexclusão das casas de apostas. A Plataforma Centralizada de Autoexclusão já contabiliza mais de 600mil pedidos voluntários de brasileiros que desejaram ser banidos das bets.

De acordo com a Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda, 41% dos usuários apontaram perda de controle sobre o jogo ou impactos na saúde mental como principal motivo para buscar ajuda na Plataforma de Autoexclusão. (Fotos: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, Senado Notícias, ICL Notícias,Ministério da Fazenda e Outras Palavras.

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