Ao longo de muitos anos, os antimicrobianos desempenharam um papel fundamental no aumento da produtividade da agricultura pecuária em todo o mundo. Empregados para evitar enfermidades e, em diversas nações, como agentes que favorecem o crescimento, esses fármacos auxiliaram na melhoria da eficiência dos sistemas de produção e responderam à crescente procura mundial por proteínas de origem animal.
Um relatório recente da FAO, publicado na semana passada, destaca a questão do uso excessivo desses medicamentos. A mesma abordagem que oferece benefícios econômicos imediatos pode, a longo prazo, colocar em risco a sustentabilidade da produção de animais nas próximas décadas.
Segundo o relatório, se as tendências atuais forem mantidas, a utilização de antimicrobianos na agricultura pecuária deverá aumentar em aproximadamente 30% até o ano de 2040.
Diante desse cenário, instituições e organizações de saúde pública ao redor do mundo estão advocating por regulamentações mais severas. Essa é uma debate extremamente pertinente para o Brasil. Sendo um dos principais exportadores globais de carne bovina, de frango e suína, o Brasil se encontra diretamente suscetível às demandas de mercados internacionais que se mostram cada vez mais preocupados com a rastreabilidade, o bem-estar dos animais e a utilização adequada de medicamentos veterinários.
A União Europeia recentemente excluiu o Brasil da lista de exportadores, argumentando que o país não atende aos critérios europeus relacionados ao uso de antibióticos ao longo da vida dos animais. O Brasil possui um prazo até o começo de setembro para apresentar a documentação que comprove o uso responsável desses medicamentos, a fim de evitar perdas de 1,8 bilhão de dólares.
Em uma reportagem recente no jornal britânico The Guardian, a Aliança para a Preservação de Nossos Antibióticos (ASOA), uma iniciativa global que busca incentivar o uso responsável de antimicrobianos, solicita ao Reino Unido que proíba a importação de carne criada com promotores de crescimento antimicrobianos. Essa ação visa diminuir os estímulos ao uso dessas substâncias em cadeias produtivas internacionais, o que pode impactar também as exportações brasileiras, que alcançaram mais de US$ 380 milhões em 2025.
A ameaça da resistência a antimicrobianos
Nos sistemas de produção em larga escala, os antimicrobianos são utilizados para curar enfermidades, evitar infecções e, em certas nações, ainda podem ser usados para estimular o crescimento dos animais. A exposição recorrente das bactérias a esses fármacos contribui para a seleção de microrganismos resistentes.
Quando um gado bovino, suínos ou aves é tratado com antibióticos, algumas bactérias conseguem resistir ao tratamento e criam formas de resistência. Essas bactérias podem se reproduzir e dominar a população, gerando perdas financeiras significativas para a indústria.
Sob a perspectiva econômica, a avaliação da FAO indica que as perdas totais na produção pecuária mundial podem atingir US$ 318 bilhões até 2040, caso a resistência antimicrobiana permaneça elevada. Esse montante é consideravelmente maior do que o custo estimado para a mudança em direção a sistemas que utilizem menos esses produtos.
A dificuldade enfrentada por autoridades e agricultores reside na discrepância entre a forma como os custos e os benefícios são percebidos. Os recursos que precisam ser alocados para diminuir a utilização de antimicrobianos — incluindo vacinação, biossegurança, suporte veterinário e aprimoramento das práticas de manejo — são de caráter imediato e demandam investimento. Por outro lado, os ganhos se manifestam ao longo do tempo, refletindo-se em uma pressão reduzida sobre a resistência bacteriana e em uma melhor conservação da efetividade dos medicamentos.
Suporte técnico e financeiro
Para os agricultores, sobretudo em nações em desenvolvimento, a situação se torna ainda mais desafiadora. Em várias áreas, os antibióticos permanecem como uma opção mais econômica em comparação aos investimentos necessários em medidas de prevenção sanitária. Sem o devido suporte técnico e financeiro, a troca desses produtos pode levar a uma diminuição temporária na produtividade e ao aumento das despesas operacionais.
Nesse cenário, o documento da FAO sugere uma transformação significativa na abordagem da resistência antimicrobiana. Essa questão deixa de ser vista apenas como um problema de saúde pública e é considerada também uma questão econômica e estratégica vital para a segurança alimentar no mundo.
Em um contexto onde a América do Sul deve representar cerca de 20% do uso global de antimicrobianos na criação de animais até 2040, conforme estimativas da FAO, o Brasil ocupa uma posição central nas conversas sobre maneiras de elevar a produção sem aumentar os riscos relacionados à resistência bacteriana.
Em um segmento que necessita aumentar a produção de alimentos para uma população em expansão, a resistência antimicrobiana se destaca como um dos principais desafios para o setor agrícola, que deve equilibrar produtividade, competitividade e sustentabilidade nas próximas décadas. (Foto: Reuters)
Por Opinião em Pauta com informações da Reuters



