A disputa direta entre o Pix e os cartões de crédito, como ocorre nos Estados Unidos, vai além de um capricho infantil; representa uma distorção que se opõe à inovação e favorece a manutenção de monopólios e do imperialismo digital. É uma mentalidade que diz que apenas a minha inovação conta, enquanto as dos demais não têm valor, encerrando o debate e a competição, pois, em suma, a tecnologia é de minha propriedade.
O Pix não é apenas uma forma de pagamento, mas também uma estrutura que facilita a digitalização das transações e a movimentação de recursos. Ele se apresenta como um conjunto de serviços oferecidos por diversas empresas, que competem com várias alternativas disponíveis no mercado. Na China, existem exemplos como o WeChat, da Tencent, e o AliPay, da Alibaba, que são iniciativas de empresas privadas, entre outras opções. Recentemente, por meio de campanhas e vínculos do grupo Bolsonaro, foi revelado que nos Estados Unidos existe o Zelle, considerado o correspondente do Pix, embora seja um sistema menos utilizado e sem grande destaque.
Em uma análise rápida, é relevante explorar alguns dados. De acordo com o Banco Central do Brasil, o Pix possui atualmente mais de 170 milhões de usuários registrados (aproximadamente 80% da população do país) e 16 milhões de estabelecimentos, superando 598 milhões de contas ativas. A cada mês, mais de 63% da população utiliza esse sistema de pagamentos imediatos.
Crescimento de 25%
De acordo com o Banco Central, em 2025, o Pix registrou um total de R$ 35,4 bilhões, representando um aumento de 34% em relação aos R$ 26,4 bilhões movimentados em 2024, com 80 bilhões de transações, o que equivale a um crescimento de 25% frente às 63,8 bilhões de transações do ano anterior. Em contrapartida, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões, o que, embora superior aos R$ 4,1 trilhões de 2024, ainda é quase oito vezes menos do que o valor total do Pix. No mesmo ano, as 45,7 bilhões de transações realizadas com cartões foram 75% inferiores às 80 bilhões de transações registradas pelo Pix. Em 2024, os cartões haviam realizado 45,7 bilhões de transações, enquanto o Pix alcançou 63,8 bilhões.
Em 2025, as operadoras de cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões, um aumento de 10% em relação a 2024. Desse total, R$ 3,1 trilhões correspondem a operações de crédito, R$ 1 trilhão a transações de débito e cerca de R$ 400 bilhões a cartões pré-pagos.
Levando em conta que a taxa retida pela bandeira do cartão é em torno de 2,2% no crédito e 1% no débito, é viável calcular a quantidade de receita que essas grandes empresas de cartões, especialmente as americanas MasterCard e Visa, geram. Essa receita é então direcionada para o envio de lucros, após a dedução das despesas, para suas sedes nos Estados Unidos.
Bandeiras dos cartões de crédito
Em 2025, os rendimentos das operadoras de cartões no Brasil totalizaram cerca de R$ 80 bilhões, equivalentes a US$ 16 bilhões, com a maior parte sendo transferida como lucro para os Estados Unidos, onde estão localizadas as bandeiras dos cartões de crédito. Isso gerou descontentamento por parte de Trump e dos EUA em relação à elevada tributação aplicada ao Brasil. No ano de 2024, essa receita foi de aproximadamente R$ 75 bilhões. Portanto, apenas nos dois anos anteriores, o lucro dessas bandeiras no Brasil alcançou aproximadamente R$ 150 bilhões, ou US$ 30 bilhões.
O mercado de cartões de crédito no Brasil é imenso. Em 2026, o país possui 243 milhões de cartões de crédito. As principais bandeiras atuantes no Brasil são as americanas Mastercard e Visa, que juntas representam 90% do total. Dentre elas, 126 milhões pertencem à Mastercard e 90 milhões à Visa, enquanto os 10% restantes estão divididos entre Elo (EloPar), American Express, Caixa e outras.
De acordo com dados da Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), o setor de cartões no Brasil teve seu início com os grandes bancos tradicionais, e atualmente é gerido também por inúmeras instituições financeiras digitais, fintechs e grandes empresas do comércio varejista.
R$ 500 bilhões de arrecadação
Em um cálculo simples utilizando a regra de três, podemos estimar que, se as instituições de cartões atuassem com os montantes que atualmente transacionam pelo Pix, levando em conta uma taxa média de apenas 1,5% (sendo que no cartão de crédito a taxa é de 2,2% e no de débito é de 1%), sua arrecadação seria superior a R$ 500 bilhões, correspondendo a aproximadamente US$ 100 bilhões.
É importante destacar que até setembro de 2025, o Pix influenciou a utilização de cartões de débito vinculados a contas, especialmente após a implementação do parcelamento via Pix pelo Banco Central. Embora o BC não tenha fornecido dados específicos sobre o volume de transações realizadas com o Pix Parcelado em suas estatísticas, é evidente que essa funcionalidade afetará os cartões, visto que as transações na modalidade crédito representam quase 70% do total. Esse fator é um dos principais motivos para a resistência de Trump em relação às inovações tecnológicas no Brasil. Para eles, inovação deve ser restrita. Sem concorrência e com um monopólio das grandes empresas americanas.
Trump e Bolsonaro não estão apenas apoiando as empresas de cartões, mas também estão defendendo as grandes empresas de tecnologia. (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações de agências de notícias


