Henrique Acker – Certamente o cidadão do Rio não entende por que, com gastos de R$ 19,5 mil anuais por aluno, o Estado do Rio de Janeiro é o penúltimo colocado no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), principal indicador de qualidade do ensino no Brasil.
Qualquer educador dirá que não existe um projeto educacional consistente na rede pública de ensino do Rio de Janeiro. No entanto, uma breve análise dos contratos firmados entre a Secretaria Estadual de Educação RJ entre 2025 e 2026 pode ajudar a esclarecer parte desse fiasco.
Apenas três empresas com contratos milionários com a Secretaria de Educação do Estado RJ devem faturar, somente em 2026, cerca de R$ 952 milhões. São elas a Infinity, a Agile e a Eureka. Todas têm ou já tiveram questionamentos judiciais por contratos anteriores com a Administração Pública no Rio. Ainda assim, elas continuam na lista de contratações da SEEDUC-RJ.
Outras empresas fornecedoras de serviços e pessoal custarão aos cofres públicos R$ 1.415,5 bilhão em contratos firmados pela SEEDUC-RJ até o final de 2026. No total, as chamadas “outras despesas correntes”, que dão origem a esses contratos, chegarão a R$ 2.190,4 bilhões em 2026.
Farra do boi
A Infinity Multiserviços LTDA possui um histórico de denúncias e serviços mal prestados. Sua especialidade é a área de alimentação. Seu administrador, Antônio Carlos Oliveira, foi preso pela Polícia Federal em 2017 e tornou-se réu por suspeita de fraude em licitações de fornecimento de refeições. A empresa também firmou acordos vultuosos com a Secretaria Municipal de Educação (SME), que chegaram a somar mais de R$ 137 milhões.
A Agile Corp (Agile Serviços Especializados Ltda) é uma empresa terceirizada que presta serviços operacionais para o Governo do Estado do Rio de Janeiro e a Prefeitura do Rio. Na rede estadual de educação, a empresa atua na conservação, limpeza e fornecimento de merenda, apoio operacional e vigilância patrimonial.
A Agile (antiga Masan) pertence à família De Luca. Logo que Eduardo Paes assumiu a Prefeitura do Rio, no início de 2021, os contratos com a empresa foram mantidos ou retomados, num valor inicial de R$ 130 milhões.
O empresário Marco Antonio de Luca, dono da Masan, foi denunciado pelo pagamento de mais de R$ 16 milhões, em espécie, ao esquema criminoso comandado por Sérgio Cabral Filho para obter benefícios para suas empresas, Masan e Milano, em licitações e outros contratos.
Em 2023, o Tribunal de Contas do Estado abriu processo para analisar a compra de 1,6 milhão de livros pela Secretaria Estadual de Educação junto ao Grupo Eureka. Em média, cada título custaria R$ 380, já que o contrato assinado pela secretária Roberta Barreto foi de R$ 618,6 milhões — quase 10% do orçamento da pasta naquele ano.
A empresa, que apresentava capital inicial de R$ 100 mil, também é questionada em contratos de implementação de plataformas virtuais (“Educação do Amanhã” e “e-Rio”) e uso de inteligência artificial na rede pública de ensino. Sindicatos e parlamentares de oposição cobram maior transparência com gastos e a efetividade desses programas, em contraste com a realidade precária das escolas.

Servidores mal pagos
Enquanto essa verdadeira sangria de recursos consome praticamente 1/3 do orçamento geral da Educação do Estado do Rio de Janeiro, outros R$ 4.362,6 bilhões são investidos no pagamento de pessoal. Isso inclui professores e profissionais de apoio da ativa e aposentados, num universo de cerca de 150 mil servidores.
Desse montante, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) foi responsável por 85% do valor destinado a pagar salários dos servidores da Educação do Estado RJ em 2025.
Assim mesmo, a Rede Estadual paga R$ 1.588 de salário-base inicial, com carga de trabalho de 18 horas/semana. Esse valor tem que ser complementado para não ficar abaixo do salário mínimo nacional (R$ 1.621). Vale lembrar que o professor trabalha em sala de aula e em casa, preparando aulas, corrigindo deveres e provas.
A Rede Estadual possui cerca de 20 mil professores, entre eles 5.515 temporários. Os vencimentos variam com a carga horária: R$ 2.190,50 (18h), R$ 2.677,27 (22h) e R$ 3.650,83 (30h), de acordo com os valores de 2026. Esses profissionais estão distribuídos em cerca de 1.200 escolas, lecionando para 630 mil alunos (dados de 2025).
Sem concurso público desde 2014
Devido ao quadro de Recuperação Fiscal, desde 2014 não são realizados concursos públicos para a contratação de servidores efetivos no Estado do Rio de Janeiro. No entanto, de lá para cá, as diversas administrações estaduais promoveram sucessivos processos seletivos para contratar servidores temporários.
Há indícios de irregularidades de todo tipo sobre as contratações de serviços e pessoal do Estado, no que diz respeito à rede de escolas públicas. Diretores indicados e funcionários fantasmas a serviço de deputados, obras superfaturadas na manutenção de prédios e contratação de pessoal terceirizado, na merenda escolar, na compra de material e equipamentos.
Em muitas escolas estaduais há denúncias de equipamentos de informática sucateados ou subutilizados devido ao sinal intermitente da internet, além de excesso de livros para o número de alunos matriculados.
O cruzamento desse conjunto de fatores pode ajudar a explicar os motivos do Estado do Rio estar em penúltimo lugar na educação pública, apesar de ser um dos que mais gasta em média por aluno em todo o país.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de O Globo, G1, Portal da Transparência da SEEDUC-RJ, SEPE-RJ, mandato do professor e deputado estadual Flávio Serafini (Psol), PLOA 2025 (Vol. II) – Governo ERJ.



