A iminência da reunião entre Donald Trump e o mandatário chinês Xi Jinping pode ter afetado a escolha do presidente dos Estados Unidos de se reunir com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em um período em que o Brasil se torna cada vez mais significativo devido às suas reservas de minerais essenciais, como as terras raras.
A análise é consensual entre membros da assessoria estratégica de Lula voltada para a política internacional, incluindo Celso Amorim, que é assessor especial da Presidência e ex-ministro de Relações Exteriores.
Os dados são provenientes do periódico Valor Econômico.
A viagem de Donald Trump à China está agendada para os dias 14 e 15 de maio. Este deslocamento acontecerá em um contexto delicado relacionado a minerais essenciais, uma vez que a China decidiu suspender, por um ano, as restrições severas sobre as exportações de minerais raros, uma ação tomada após o aumento de tarifas por parte dos EUA em abril do ano passado.
Embora a suspensão seja temporária, não existem certezas de que a disponibilização desses insumos não enfrente novas limitações. Nesse cenário, o estreitamento de laços com o Brasil se torna significativo para Washington, uma vez que o Brasil possui a segunda maior reserva global de minerais vitais e estratégicos, incluindo as terras raras.
Celso Amorim mencionou que a questão pode ter exercido impacto no movimento de Trump, mesmo sendo um assunto que se estende por um longo período. “É possível que tenha tido influência, mesmo sendo uma pauta de longo prazo, e o presidente estará pronto para se manifestar sobre esse tema”, comentou o embaixador ao Valor, antes de finalizar a reunião entre Trump e Lula, que ocorreu nesta quinta-feira (7), em Washington.
Segundo Amorim, a realização da reunião é um aspecto fundamental da pauta de interação entre os países. “O que mais importa é que este encontro aconteça“, declarou ele.
Disputas comerciais
A questão dos minerais essenciais recebeu um novo impulso político no Brasil após a aprovação, na noite desta quarta-feira (6), pelo Congresso Nacional, do regulamento que rege a extração desses recursos. O documento aborda minerais de terras raras e proporciona ao governo a oportunidade de declarar que o país está aberto a investimentos nessa área, desde que sejam atendidas as condições de valorização na exploração.
De acordo com Amorim, a reunião programada para esta quinta-feira não deve levar à formação de um pacto claro e imediato. A previsão é que ambas as partes compartilhem propostas e opiniões sobre assuntos de interesse mútuo.
Os tópicos que podem ser abordados no diálogo incluem a intensificação de pactos para enfrentar o tráfico de drogas e um foco particular na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, instrumento utilizado em disputas comerciais com nações estrangeiras.
No contexto do Brasil, a competição abrange alegações de infidelidade ligadas à concorrência do Pix com marcas de cartões de crédito dos Estados Unidos e à alegada superioridade do agronegócio nacional resultante da exploração de áreas desmatadas.
Mercado global de minerais críticos
O Brasil intensificou sua participação na competição tecnológica mundial por terras raras ao contabilizar 21 milhões de toneladas em reservas, o que posiciona a nação como a segunda no ranking global, apenas superada pela China, que detém 44 milhões de toneladas. A Índia ocupa a terceira posição, com 6,9 milhões de toneladas, de acordo com informações de 2024 do Serviço Geológico dos Estados Unidos, conforme reportado pelo Valor Econômico.
Esses minerais são vistos como essenciais devido ao progresso na transição energética, na fabricação de semicondutores e na produção de dispositivos eletrônicos avançados, além de seu papel no setor de defesa. A aprovação da proposta principal do marco regulatório para minerais críticos também fortalece os esforços do Brasil em aumentar sua participação nesse mercado global.
As chamadas terras raras constituem um conjunto de 17 elementos químicos que têm grande importância para setores industriais e tecnológicos. Essa lista abrange elementos como lantânio, cério, neodímio, samário, térbio, disprósio, escândio e ítrio, além de outros minerais que são utilizados em aplicações avançadas.
Esses componentes se tornaram relevantes por sustentarem áreas fundamentais da economia atual. A indústria faz uso de terras raras em turbinas eólicas, automóveis híbridos, smartphones, TVs de tela plana, lâmpadas fluorescentes compactas, catalisadores para veículos, ímãs permanentes, lentes específicas e sistemas militares guiados.
A procura por esses recursos aumenta na mesma proporção em que nações competem pelo controle de tecnologias relacionadas à energia sustentáveis, segurança, semicondutores e dispositivos digitais sofisticados. Essa situação converte reservas minerais em valiosos ativos geopolíticos e eleva a importância de países capazes de produzir, processar e agregar valor a esses materiais.
No contexto brasileiro, a magnitude das reservas possibilita uma proposta industrial mais ousada. O país se esforça para não ser apenas um exportador de matérias–primas e procura estabelecer diretrizes que incentivem a produção de itens com maior valor econômico dentro de suas fronteiras.
O debate sobre a regulamentação dos minerais essenciais se insere nesse cenário. O projeto de lei, que recebeu aprovação na Câmara dos Deputados, abrange as terras raras e disponibiliza ao governo ferramentas para assegurar que o Brasil está aberto a investimentos na área, desde que as companhias atendam às exigências relacionadas ao avanço da cadeia produtiva.
Minerais estratégicos e minerais críticos não têm o mesmo significado. Os estratégicos apoiam setores considerados fundamentais para o desenvolvimento econômico, a indústria de tecnologia avançada, a segurança nacional e a mudança para fontes de energia mais sustentáveis.
Os analistas, por outro lado, demonstram uma preocupação acentuada em relação à segurança do fornecimento. A concentração da produção em um número reduzido de nações, a dependência de fontes externas, as tensões no cenário internacional, os obstáculos tecnológicos, as interrupções na logística e a dificuldade de encontrar alternativas para certos insumos elevam a fragilidade desses recursos.
A categorização de minerais varia de acordo com as prioridades de cada nação. Um mineral pode ser considerado crucial para uma economia e ter uma abordagem distinta em outra. Inovações tecnológicas, novas descobertas geológicas, variações na demanda global e transformações no panorama internacional também impactam essa classificação.
Atualmente, o lítio, o cobalto, a grafita, o níquel e o nióbio são frequentemente citados em inventários de minerais essenciais e estratégicos criados por vários governos. As terras raras podem também estar incluídas nessas duas classificações, dependendo do seu uso na indústria, da oferta mundial e do nível de dependência em relação a fornecedores externos.
Essa diferenciação contribui para compreender por que os elementos terras raras estão assumindo uma importância crescente nas relações internacionais. Eles podem ser essenciais para o crescimento econômico e, simultaneamente, tornar-se um ponto crítico quando apenas um pequeno número de nações detém o controle da produção ou do tratamento desses recursos.
Com significativas reservas, o Brasil começa a competir por posições em uma rede que abrange energia, tecnologia, setor militar e comércio global. A participação do país nesse mercado estará atrelada à habilidade de converter seu potencial mineral em produção de alta qualidade, investimentos, pesquisa e integração na indústria. (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações do Valor Econômico



