Henrique Acker – Esperei dois dias acreditando que grandes novidades viriam a público pelo teclado do computador de uma colega de O Globo. Mas até aqui, final da tarde de 24 de dezembro, nada de novo e substancial apareceu para corroborar a versão publicada em 22 de dezembro.
Segundo a jornalista Malu Gaspar, o ministro do STF, Alexandre de Moraes, teria feito gestões junto ao presidente do Banco Central, em defesa do Banco Master, tendo em vista os interesses de sua esposa e advogada, cujo escritório foi contratado para defender o Master a peso de ouro (R$ 129 milhões).
A única novidade no caso é que entre as seis fontes consultadas por Malu Gaspar e sua equipe, foram confirmados os nomes de André Esteves (Banco BTG Pactual) e – vejam só – o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Esteves e Vorcaro – diretamente interessados na versão publicada em O Globo – estavam nas reuniões entre Moraes e Galípolo? Se alguém mais participou desses encontros, não é difícil para o próprio BC informar. Essas seriam as únicas pessoas em condições de afirmar ou desmentir o que foi tratado entre os dois.
O ministro Alexandre de Moraes sustenta nas notas que publicou que se reuniu no final de julho com Galípolo para tratar exclusivamente da aplicação da Lei Magnitsky, pela qual foi sancionado pelo governo dos EUA. Segundo ele, os encontros com Galípolo se deram após a sanção.
A nota do BC é curta e grossa, confirmando os encontros e que o assunto tratado foi a aplicação da Lei Magnitsky sobre o ministro Alexandre de Moraes.
No direito penal brasileiro, o ônus da prova cabe a quem acusa, devendo responder judicialmente se não comprovar o que afirma. Do contrário, viveríamos um eterno denuncismo e não haveria a presunção de inocência como princípio basilar do direito.
De uns tempos para cá, parte dos grandes grupos de mídia decidiu contrariar as regras elementares do jornalismo, visando assegurar interesses das classes dominantes brasileiras das quais pretendem ser porta-vozes. Vale tudo, inclusive criar espetáculos em que se constrói vilões, mocinhos e justiceiros.
A vertente do “primeiro acusa para depois arranjar provas”, ao pior estilo da Operação Lava-Jato, escancarou as portas para o sensacionalismo barato, o vale-tudo, e a irresponsabilidade que impera hoje nas redes sociais. A diferença é que quem vive disso são caçadores de escândalos, em busca de likes, projeção e retorno financeiro, não são jornalistas profissionais.
Colegas que na época eram pautados pelo Ministério Público e o Tribunal do Paraná – inclusive Malu Gaspar – jamais vieram a público para assumir que estavam ou foram enganados. Teve gente que posou em fotos com o juiz do caso e até livro publicou, exaltando os feitos de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e companhia.
Foi preciso que o portal Intercept Brasil, agindo com independência e seguindo as regras elementares do jornalismo, fosse atrás das conversas entre membros do Ministério Público do Paraná e o juiz Moro para demonstrar, com fatos concretos, os desmandos e a verdadeira intenção do circo da Lava-Jato.
Numa democracia ninguém está acima da lei. Não há nenhum problema em investigar uma denúncia de suposto tráfico de influência de um ministro do STF para beneficiar interesses de um familiar. Jogar luz sobre acontecimentos de interesse geral da sociedade é o papel dos jornalistas e do jornalismo.
Ocorre que numa questão desta gravidade não bastam ilações ou suposições, nem versões que alguém ouviu falar, como se as fontes não tivessem seus próprios interesses no caso.
Ao pior estilo “jogar m… no ventilador”, a Folha de S. Paulo estampou o editorial “Poderosos se protegem e corrupção se alastra” em sua capa deste 24 de dezembro, misturando propositalmente outros casos – inclusive a Lava-Jato – com o que saiu na coluna de Malu Gaspar sobre as reuniões entre Moraes e Galípolo.
Parece que a ideia é mesmo botar tudo no mesmo saco, colocando governo e oposição em condição de igualdade. É preparar terreno para a tal “terceira via”, sonho dos donos de jornais, parte das classes dominantes e dos que comandam as redações dos veículos de comunicação. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)



