Criado durante a ditadura , Comando Vermelho cria raízes no país

Na mais intensa ação policial registrada no Rio de Janeiro, realizada na última terça-feira, 28, mais de 60 pessoas perderam a vida, de acordo com informações oficiais. A operação teve como finalidade efetuar cem prisões e conter a expansão territorial do Comando Vermelho, a facção criminosa mais antiga do estado.

Recentemente, a facção tem aumentado sua influência territorial. De acordo com o Mapa dos Grupos Armados, resultado de uma colaboração entre o Instituto Fogo Cruzado, o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), o Comando Vermelho foi a única organização criminosa a expandir seu domínio no Estado, enquanto as demais viram sua área de atuação diminuir.

No período de 2022 a 2023, a entidade ampliou em 8,4% as regiões sob sua autoridade, recuperando a primazia que havia sido cedida às milícias em anos anteriores. Dessa forma, passou a ocupar 51,9% das áreas dominadas por facções armadas na Região Metropolitana do Rio.

Cerca de cinco décadas de trajetóriaincluindo um período de ditadura militar — separam a fundação do Comando Vermelho deste dia trágico no Rio de Janeiro. Na década de 1970, detentos políticos se encontravam com criminosos comuns no Instituto Penal Cândido Mendes, localizado em Ilha Grande, a mais de 100 quilômetros da cidade.

Até aquele momento, os prisioneiros mais experientes, na sua maioria detidos por roubos a bancos e com escassa ou nenhuma instrução escolar, não tinham conhecimento de seus direitos. Através do contato com os prisioneiros políticos — predominantemente provenientes de famílias de classe média — eles começaram a atuar como mediadores nas negociações visando a melhorias nas condições de detenção.

“O Comando Vermelho surge dentro dos presídios, no centro do Estado, em contato com indivíduos detidos pela Lei de Segurança Nacional. A princípio, recebia o nome de Falange da Segurança Nacional. Posteriormente, passou a ser conhecido como Falange Vermelha. Anos depois, a mídia o denominou como Comando Vermelho (CV)”, comenta a socióloga Carolina Grillo, da UFF.

Os prisioneiros políticos de esquerda não se uniram. Havia um elemento em comum entre eles: o roubo de bancos. Esses delitos eram vistos como ameaças à segurança nacional, uma vez que os movimentos de oposição à ditadura realizavam assaltos a instituições financeiras para sustentar sua luta política. Assim, esses atos ganharam uma classificação especial nas leis, resultando na punição de criminosos comuns em locais como a Ilha Grande”, explica Jacqueline Muniz, do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos do Departamento de Segurança Pública.

Um dos fundadores mais destacados do grupo foi William da Silva Lima, conhecido como o Professor. Em sua obra 400 x 1 – uma história do Comando Vermelho, Lima relata que a formação do grupo teve como objetivo melhorar a ordem nas prisões, estabelecendo normas para a convivência.

Novo negócio; tráfico de cocaína

Com a promulgação da Lei da Anistia em 1979, os detentos políticos foram liberados, enquanto os demais permaneceram encarcerados. A busca por justiça social no interior do sistema prisional perdeu ímpeto na ausência dos antigos companheiros de cela.

Os integrantes da Falange Vermelha se reestruturaram de novas formas. Em 1980, começaram a planejar fugas, e mais de cem prisioneiros conseguiram se evadir do sistema penitenciário, o que causou grande preocupação entre os banqueiros. Os recursos obtidos com os roubos a instituições financeiras foram redirecionados pelo Comando Vermelho para um novo negócio: o tráfico de cocaína.

Durante a década de 1980, a Colômbia começou a se tornar um produtor de cocaína, o que resultou em alterações nas rotas internacionais do tráfico. O Brasil se transformou em um ponto de passagem na rota para a Europa, situação que permanece até os dias atuais“, afirma Grillo.

Devido ao comércio clandestino, os integrantes do CV tiveram que resguardar seus produtos contra as investidas de furto de outras facções.

“Não é possível que você à delegacia registrar um boletim de ocorrência apenas porque suas drogas foram furtadas. A chance de assegurar a posse, ao contrário da propriedade legal, que eu possuo escritura, nota fiscal e CNPJ, implica que o crime exige armas para assegurar acordos e proteger a posse de seu capital ilícito“, diz Muniz.

Existiam desavenças e competições, bem como lutas por áreas de influência. Com isso, os vendedores de armamentos e os agentes policiais, que também começaram a oferecer armas, passaram a se beneficiar financeiramente. Essa situação gerou, dentro das forças policiais, uma necessidade de se equipar de maneira mais robusta para enfrentar um tráfico fortemente armado, finaliza Grillo.

Na década de 1990, os níveis de criminalidade no Rio de Janeiro alcançaram recordes alarmantes. Em 1994, a taxa de homicídios era de 64,8 por 100 mil pessoas. Para comparação, hoje esse número caiu para 24,3 mortes por habitante no Estado.

Líderes presos em segurança máxima

Na busca por desestabilizar o Comando Vermelho, o governo decidiu realocar seus principais líderes para várias prisões. Contudo, o resultado foi o inverso: o CV disseminou suas crenças entre outros detentos, fortalecendo-se e consolidando-se como a principal facção criminosa do Rio de Janeiro.

A partir daquele momento, o CV deixaria de estar restrito apenas ao Estado do Rio.

“O Comando Vermelho opera de maneira semelhante a franquias. Existem diversos líderes em diferentes favelas, e nenhum exerce controle absoluto, pois trata-se de uma estrutura coletiva. Essa dinâmica foi fundamental para a expansão do Comando Vermelho em todo o Brasil. Essa filosofia de grupo possibilitou que líderes de outras regiões, desde o começo, se tornassem aliados comerciais de suas facções”, explica o jornalista Rafael Soares, autor da obra Milicianos: Como agentes formados para combater o crime passaram a matar a serviço dele.

Segundo ele, nos últimos seis anos, o Comando Vermelho expandiu sua atuação para 25 Estados, enquanto anteriormente seu controle abrangia apenas 10 Estados.

Um ponto de virada significativo na nacionalização do PCC [Primeiro Comando da Capital] e do CV foram as penitenciárias federais. Essa ‘genial’ proposta do governo federal de deslocar as principais lideranças do PCC e do CV para prisões federais em diferentes estados” critica Grillo.

O crescimento do Comando Vermelho demandou investimentos adicionais. O comércio de entorpecentes permanece no foco de suas operações, especialmente com a ocupação de regiões limítrofes, como a Amazônia, onde a facção e o PCC expandem suas rotas.

Entretanto, o ganho financeiro não se limita apenas ao tráfico de drogas. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o crime organizado gerou, em 2022, aproximadamente R$ 146,8 bilhões em setores ilegais, incluindo ouro, combustíveis, bebidas e tabaco.

A maneira como os traficantes obtêm armamento também se alterou. Anteriormente, eles contavam basicamente com duas fontes: as transações ilegais provenientes do Paraguai e os desvios realizados por membros das forças de segurança do país. Atualmente, é possível fabricar armas de forma artesanal, além de haver empresas clandestinas que produzem esses armamentos em alta quantidade.

Fabricação de armas

Essas são indústrias equipadas com tecnologia de ponta, utilizando máquinas que podem custar até quinhentos mil reais. Entre elas, estão impressoras 3D capazes de trabalhar com metal e produzir componentes finalizados. Sendo máquinas voltadas para a indústria, elas são capazes de realizar produção em grande volume“, esclarece Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz.

No mês de agosto, a Polícia Federal descobriu uma oficina secreta de fabricação de armas em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Janeiro, e confiscou quatro impressoras 3D.

A tecnologia adotada pelo crime organizado vai além disso. Na terça-feira, o CV mostrou sua força ao utilizar drones para despejar explosivos durante os confrontos.

Um aspecto ressaltado por Langeani é a praticidade na localização de componentes para a fabricação dessas armas. Com as políticas de relaxamento das normas de controle de armas implementadas durante a administração de Jair Bolsonaro, ocorreu um aumento significativo no número de indústrias nessa área.

Foi oferecido um estímulo financeiro para as indústrias de empunhadura, por exemplo. Anteriormente, elas basicamente apenas forneciam para a polícia e as Forças Armadas. Assim, não havia lógica em manter esse tipo de indústria no Brasil. No entanto, após a gestão de Bolsonaro, um grande número de civis começou a adquirir fuzis. E muitas dessas pessoas, em algumas ocasiões, buscam personalizar, substituir a coronha ou a empunhadura”, comenta.

Entre 2018 e 2022, a ampliação das regras para a posse de armas resultou em um significativo crescimento no número de registros de Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CAC’s). Contudo, alguns desses indivíduos acabam utilizando suas armas legais para atividades criminosas. De acordo com o Instituto Sou da Paz, metade das armas apreendidas na região sudeste do Brasil provém de desvios, 30% são armas montadas, e 20% pertencem a CACs.

Intervenções policiais sem efeitos práticos

As informações indicam que as intervenções policiais mais onerosas e agressivas do governo não têm produzido os efeitos desejados. Enquanto o Comando Vermelho se expande pelo estado do Rio de Janeiro, é exatamente nas regiões sob seu controle que a polícia intensifica sua atuação — e onde os confrontos se intensificam.

De acordo com o Mapa dos Grupos Armados, a probabilidade de conflitos em regiões sob domínio do tráfico é 3,71 vezes superior àquelas controladas por milícias. Em cerca de 60% das localidades onde ocorrem esses confrontos, a presença da polícia.

“Não percebo uma conexão clara entre as ações do governo e a desmobilização nem das milícias nem do tráfico. Não observamos o retrocesso em regiões que, uma vez ocupadas, retornaram ao controle do Estado. O que se constata é uma ampliação da influência desses grupos ou disputas internas, mas o governo não consegue afirmar: ‘Esse lugar que não era seguro voltou a ser’. O que realmente se observa é uma deterioração contínua e uma troca de liderança; o Estado não consegue recuperar o controle de áreas que estão sob domínio há décadas”, conclui Terine Husek, gerente de pesquisa do Instituto Fogo Cruzado. (Fotos: O Globo/BBC)

Por Opinião em Pauta com informações da  repórter Carol Castro, da BBC

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