Rodrigo Vargas – Eu achava que entendia o que era fé até ver o Círio de Nazaré de perto. Já havia lido, ouvido histórias, visto imagens pela televisão, mas nada, absolutamente nada, chega perto de estar ali, no coração de Belém, no meio daquele mar humano que pulsa como um só coração, guiado pela ternura de uma Mãe.
Por diversas vezes parei para conversar com paraenses e entre um assunto e outro, vinha a pergunta: Como é o Círio? A resposta era simples e direta: para saber o que é você precisa viver ele. Pois segui os conselhos e fomos viver o evento.
O sol ainda nem tinha nascido completamente, e já se sentia no ar algo diferente. Era um silêncio que gritava. Um silêncio cheio de oração, de promessas, de pensamentos e de esperança. O cheiro da margem do Rio Guamá era tão suave, o som dos passos misturados às preces sussurradas, tudo parecia compor uma sinfonia invisível, onde cada pessoa tocava a sua própria nota de fé.
Cânticos ecoavam no sistema de som instalado logo à frente de onde nos posicionamos para esperar “a santa passar”. Em seguida uma artista local começou a um show que mais parecia uma celebração, envolvendo e conectando a todos no entorno. Tenho que confessar que algumas músicas não eram de meu conhecimento, mas soavam tão familiares.
E então, de repente, o burburinho aumentou e a agitação tomou conta: ela apareceu. A berlinda despontou na avenida como um raio de luz que rasga o céu. Nossa Senhora de Nazaré. Pequena e imensa ao mesmo tempo. A imagem parecia flutuar sobre as mãos, as vozes e os corações que a recebiam. Eu, parado ali, senti um nó na garganta. Era impossível não se comover. Um arrepio percorreu meu corpo, e meus olhos se encheram d’água sem que eu conseguisse evitar, muito menos evitar.
Naquele instante, entendi o que tantos chamam de “o milagre do Círio”. Não é algo que se vê, é algo que se sente. É a fé que se materializa em gestos, em promessas, em lágrimas. É a paz que invade, silenciosa, quando o olhar cruza o olhar da Mãe. Uma paz que não se explica, mas que se reconhece na alma.
Ao ver Nossa Senhora tão de perto, percebi que não era apenas uma imagem, era um espelho. Um espelho da fé de um povo inteiro, que encontra na devoção à Mãe de Nazaré a força para seguir em frente. Saí dali leve, como se tivesse deixado aos pés dela tudo o que pesava dentro de mim.
Belém amanheceu diferente naquele domingo. E eu também. Porque o Círio não é apenas uma procissão. É um encontro. Um abraço entre o céu e a terra. Entre o homem e o divino. Agora posso afirmar: o Círio não se explica, se sente. (Foto: Agência Pará)



