Trump divulga notícias falsas até na ONU

Henrique Acker –  Não se sabe se por vaidade, para atacar o que chama de “inoperância” da ONU ou simplesmente para difundir meias verdades, em seu discurso na 80ª Assembléia-Geral ONU Donald Trump citou sete conflitos que teriam sido pacificados por sua intervenção direta como mediador.

“Em apenas sete meses, encerrei sete guerras indesejáveis. Sinto-me muito honrado por ter feito isso… E, infelizmente, em todos os casos, a ONU nem sequer tentou ajudar”, afirmou Trump em seu discurso.

No entanto, um levantamento do jornal estadunidense New York Times desmente que os conflitos – nem todos são propriamente guerras – foram solucionados e que a mediação do governo Trump tenha sido determinante para isso.

. Kosovo e Sérvia – Em 2020, Trump promoveu um encontro na Casa Branca para incentivar uma cooperação econômica entre os dois países. Apesar da iniciativa, não houve acordo de paz formal. As disputas sobre a posição de Kosovo continuam sem resolução.

. República Democrática do Congo e Ruanda – Diplomatas de ambos os países assinaram um acordo de paz na Casa Branca em junho, depois de três décadas de guerra. Apesar da mediação americana, os combates continuaram e negociações de maior fôlego fracassaram. O conflito continua.

. Armênia e Azerbaijão – Trump recebeu em agosto os líderes dos dois países para uma declaração conjunta, visando o fim do conflito de longa duração. Foi um passo simbólico, mas que está longe de um acordo de paz. As disputas territoriais em torno de Nagorno-Karabakh permanecem e o conflito não foi resolvido.

. Egito e Etiópia – Trump acompanhou disputas diplomáticas sobre a hidrelétrica da Etiópia, mas não houve conflito militar. A mediação americana teve pouco impacto e o potencial explosivo permanece entre os dois países, sem uma solução para o impasse hídrico na região.

. Índia e Paquistão – Trump se propôs a mediar o fim de combates entre as duas potências nucleares, depois de um ataque terrorista na região da Caxemira. Seu governo facilitou as conversas, mas Índia e Paquistão negociaram diretamente os termos do cessar-fogo, e as divergências persistem, sem resolução do conflito.

. Israel e Irã – Trump anunciou um cessar-fogo, após ataques militares dos dois lados em junho. Ele alegou ter mediado o acordo. Apesar da trégua, sua durabilidade é incerta, e tensões nucleares e militares permanecem no Oriente Médio, sem resolução definitiva.

. Camboja e Tailândia – Trump ameaçou interromper negociações comerciais para pressionar os dois países a aceitar um cessar-fogo na fronteira. A violência diminuiu temporariamente, mas as causas do conflito continuam, revelando o caráter limitado da mediação dos EUA.

Ao contrário do que afirmou Donald Trump, guerras regionais que se arrastam por anos – às vezes por décadas – não são resolvidas num passe de mágica. Tampouco pela sua capacidade extraordinária de mediar conflitos, como desejaria o presidente dos EUA.

O mais grave é usar a palavra na Assembléia-Geral da Organização das Nações Unidas para difundir mais uma notícia falsa, sem qualquer fato comprobatório que a sustente

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista)

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