Por Henrique Acker – O governo Trump enviou três navios de guerra, aviões e quatro mil marines para as águas do Caribe, que banham a costa da Venezuela. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, declarou (19/8) que os EUA “vai usar de toda força” contra o governo venezuelano.
“O regime de Nicolás Maduro não é o governo legítimo da Venezuela. É um cartel do narcotráfico, na opinião desta administração. Nicolás Maduro não é um presidente legítimo. Ele é um líder fugitivo deste cartel, acusado nos EUA de tráfico de drogas para o país”, afirmou Leavitt.
A resposta de Maduro foi colocar de prontidão 4,5 milhões de efetivos das Milícias Bolivarianas, um ramo oficial das Forças Armadas venezuelanas.
Recentemente, o governo Trump dobrou para 50 milhões de dólares a recompensa a quem fornecer informações sobre Nicolás Maduro, presidente venezuelano. A alegação é que Maduro teria ligações com o Cartel de Sinaloa e seria chefe de um grupo de narcotraficantes, conhecido como Tren de Aragua.
Acusações sem provas
Nas palavras da procuradora-geral dos EUA (7/8), Pam Bondi, Maduro é um dos “maiores narcotraficantes do mundo” e representa uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.
No dia seguinte à declaração de Bondi, o jornal The New York Times revelou que Donald Trump havia secretamente instruído o Pentágono a começar a usar força militar contra os oito cartéis de drogas no México, Venezuela, Haiti e El Salvador.
O jornal observou que, em abril, Trump “pressionou a presidente Claudia Sheinbaum (México) a permitir maior envolvimento das forças armadas dos EUA na luta contra os cartéis […] e ameaçou tomar medidas militares unilaterais contra os cartéis se o México não tomar medidas mais drásticas para desmantelá-los”.
Em entrevista à Catholic Television Network, o Secretário de Estado Marco Rubio explicou a mudança de vocabulário sobre grupos de narcotraficantes para organizações terroristas.
Segundo Rubio, o que muda é que isso fornece ao seu governo “a autoridade legal para atacar esses [cartéis] de uma forma que não seria possível se fossem apenas um bando de criminosos. Não é mais uma questão de aplicação da lei. Torna-se uma questão de segurança nacional.”

México reafirma soberania
O governo da Venezuela tratou de esclarecer que sequer a ONU reconhece a ameaça de traficantes e muito menos de grupos terroristas em seu território. No relatório mais recente do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime 2025 (lançado em 26 de junho), a Venezuela é listada apenas como país de trânsito para cocaína produzida na Colômbia, Peru e Bolívia.
Baseado no relatório da ONU, o governo Maduro sustenta que não há evidências da existência de grandes cartéis de drogas operando em território venezuelano e nem relatos da presença de fentanil no país.
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum afirmou em 8 de agosto que, apesar da decisão de Trump, “não há risco de que eles (EUA) invadam nosso território”. Sobre os supostos laços de Maduro com o cartel de Sinaloa, ela declarou: “É a primeira vez que ouvimos falar disso. Da parte do México, não há nenhuma investigação sobre isso. Nada.”
A presidente mexicana reafirmou que não há nenhuma “operação especial” da Agência Antidrogas dos EUA (DEA) na fronteira norte do país. Sheinbaum declarou em coletiva de imprensa em 20 de agosto que sob seu governo, “a soberania jamais será posta em risco, jamais.”
Brasil na mira
A política de combate ao “narcoterrorismo”, baseada na velha “Doutrina Monroe” e requentada pelo governo Trump, pode ter consequências também para o Brasil.
Há pressões dos EUA para que o PCC e o Comando Vermelho sejam declarados como grupos narcoterroristas, o que poderia levar a intervenções militares unilaterais do governo dos EUA em território brasileiro.
Em reunião com representantes do governo Donald Trump em 6 de maio, técnicos do Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmaram que, para o Brasil, facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) não podem ser classificadas pela legislação do país como organizações terroristas, e sim como grupos criminosos.
Paraguai colabora
Apesar da negativa do Brasil e do México, há governos na América Latina dispostos a colaborar com a política intervencionista de Trump. É o caso do Paraguai, cujo governo firmou em 14 de agosto um acordo de cooperação com os EUA, visando combater a imigração ilegal e reforçar a segurança nas fronteiras.
Entre as medidas previstas no memorando está a criação de um centro antiterrorista na Tríplice Fronteira com Argentina e Brasil, com agentes treinados pelo Departamento Federal de Investigação dos EUA (FBI). O espaço terá como foco membros do grupo Hezbollah e do crime organizado.
De acordo com Marco Rubio, “existem grupos narcoterroristas operando na região. Alguns deles utilizam espaço aéreo internacional e águas internacionais para transportar veneno para os Estados Unidos. E esses grupos serão confrontados.”
Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do The New York Times, TeleSurTV, Relatório sobre Drogas e Crime 2025 (ONU), Gazeta Brasil, CNN Brasil, G1, DW.



