Acordo com a Rússia é o preço a pagar para uma ofensiva dos EUA contra a China

Por Henrique Acker   – A mídia empresarial ocidental costuma supervalorizar o papel dos seus líderes políticos, ao mesmo tempo em que desvaloriza ou subestima tudo e todos que representam o outro lado do planeta. O noticiário é tratado como um show, onde o mundo é dividido entre “bons” e “maus”. Disso resulta uma leitura parcial e incompleta da realidade.

É o que se percebe das conclusões tiradas do encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin, no Alasca. A maioria dos veículos de comunicação trabalhou com a possibilidade de que dali resultasse uma solução para a guerra da Ucrânia. No mínimo, um cessar-fogo.

 

Ducha fria no Alasca

A partir de uma expectativa exagerada, é evidente que o resultado da reunião de cúpula entre os dois governos não produziu os efeitos imaginados e foi considerado frustrante pela maioria dos analistas. Bastaria analisar os movimentos tanto dos russos quanto dos ucranianos para compreender os limites do encontro de Trump e Putin.

Em consonância com seus pares da União Europeia, Volodymyr Zelensky jamais abriu mão de defender a integridade do território ucraniano sob domínio dos russos. E segue apelando para o fantasma do perigo da expansão do império russo para toda a Europa.

Em momento algum, Vladimir Putin recuou de sua intenção de manter a Ucrânia fora da OTAN e de manter os territórios conquistados em três anos de guerra. Desde o início, Putin desvalorizou Zelensky como interlocutor, porque sabe que a Ucrânia só se sustenta com o apoio militar massivo e direto da OTAN.

Trump, por sua vez, precisa aparar arestas com Putin para ter o caminho livre no confronto com a China, maior preocupação do grande capital ocidental. O Kremlin sabe disso e cobra um preço alto nas negociações com Trump. O presidente dos EUA deve levar a Zelensky a fatura a pagar, mesmo com objeção dos aliados europeus.

 

OTAN voltada para a Ásia

Além de firmar novas parcerias político-militares na Ásia, os EUA e a Grã-Bretanha têm promovido manobras em conjunto com outros países asiáticos e da Oceania, além de reforçarem seus arsenais e instalarem novas bases militares no Pacífico. Os EUA usam a defesa da independência de Taiwan como desculpa para uma escalada militar da OTAN contra a China.

Entre julho e agosto, o Comando Aéreo do Pacífico dos Estados Unidos (PACAF) realizou o exercício Resolute Force Pacific (REFORPAC), uma das maiores manobras aéreas da história recente da região no Indo-Pacífico. A operação contou com mais de 300 aeronaves dos Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e Canadá.

Logo após a cúpula de Haia, em junho deste ano, um porta-voz do Ministério da Defesa da China afirmou que a OTAN é “um produto da Guerra Fria” que “provoca guerras por todos os lados”, após representantes dos países da Aliança Atlântica terem criticado as “atividades desestabilizadoras” chinesas no Estreito de Taiwan e no Mar da China Meridional.

 

“Quintal” da América

Para justificar a política de vigilância e intromissão dos EUA na América Latina, o governo Trump retoma o “combate ao narcotráfico” como desculpa para possíveis intervenções na região. Os grupos que traficam drogas e armas seriam considerados “terroristas” e o combate a esses grupos se daria sem qualquer autorização dos governos dos países onde eles operam.

Em abril deste ano, o secretário de Defesa dos Estados Unidos referiu-se à América Latina como “quintal” dos EUA ao criticar a crescente influência da China na região. Pete Hegseth destacou que o presidente Donald Trump pretende “recuperar o nosso quintal”, com foco estratégico no Canal do Panamá.

Em 7 de junho, o governo dos EUA anunciou que dobraria a recompensa oferecida por informações que levassem à prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, para US$ 50 milhões. A justificativa é que a agência antidrogas dos EUA teria apreendido 30 toneladas de cocaína ligadas a Maduro e seus associados.

 

Enfraquecer o BRICS

Não por acaso, o governo Trump passou a dar ouvidos à dupla Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, com o intuito de adotar medidas econômicas contra o Brasil e sanções políticas contra autoridades brasileiras, como o ministro do STF Alexandre de Moraes e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Desqualificar o processo contra a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e defender a liberdade de Jair Bolsonaro é a desculpa. A tarifa de 50% na importação sobre alguns produtos brasileiros visa atingir e enfraquecer o Brasil como país que preside o BRICS.

O objetivo de Trump é desfazer ou enfraquecer os laços econômicos, políticos e militares entre os países do BRICS. O governo Lula anunciou que pretende responder às ameaças dos EUA, propondo aos países do BRICS uma cláusula de solidariedade no plano econômico, semelhante à que vigora no campo militar entre os países da OTAN. (Foto: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do The Independent, Agência Ria Novosti, The Guardian, portal Rebelion, JP News, Gazeta do Povo e portal Poder Aéreo

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