Secretário de Defesa dos EUA defende fim do voto feminino

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, gerou controvérsia entre líderes religiosos progressistas e especialistas ao divulgar, na plataforma X, um vídeo onde pastores argumentam que as mulheres não deveriam ter o direito de votar. A postagem, realizada na quinta-feira, alcançou mais de 5 milhões de visualizações, 15 mil curtidas e 3 mil compartilhamentos.

O clipeuma parte de quase sete minutos de uma matéria realizada pela CNN dos Estados Unidos traz declarações de Doug Wilson, um pastor cristão nacionalista e um dos fundadores da Comunhão de Igrejas Reformadas Evangélicas (CREC), localizada em Idaho. Wilson expressa o desejo de que os EUA se tornem “uma nação cristã” e, de forma mais ampla, “um mundo cristão”. Além disso, ele apoia a ideia de que mulheres não devem desempenhar funções de liderança nas Forças Armadas.

No mesmo vídeo, Toby Sumpter, um outro pastor associado à rede, expressa sua visão de uma sociedade ideal onde o voto seria realizado por domicílios, com o marido e pai encarregado de realizar o registro após discutir com a família. Uma das fiéis entrevistadas ressaltou que o marido como o “líder do lar” e que “se submete” a ele. Em sequência, a matéria traz novamente declarações passadas de Wilson, nas quais ele afirmou ter a convicção de que existia uma “relação de afeto” entre os escravizados e seus senhores.

Hegseth compartilhou novamente o vídeo com a frase: “Todo Cristo para toda a vida.” Dois dias depois, o representante principal do Pentágono informou à imprensa americana que o secretário de Defesa é “um orgulhoso membro de uma igreja ligada à CREC”, instituição fundada por Wilson, e que ele valoriza muitos dos escritos e ensinamentos” do pastor. De acordo com a CNN, Hegseth e sua família participaram do culto inaugural da igreja de Wilson em Washington, em julho.

 

Extremamente inquietante

Doug Pagitt, pastor e líder executivo da organização evangélica progressista Vote Common Good, declarou que as concepções apresentadas no vídeo são perspectivassustentadas por grupos cristãos menores” e considerouextremamente preocupanteque o secretário de Defesa esteja promovendo tais ideias. Por sua vez, o sociólogo Andrew Whitehead, docente em sociologia e especialista em nacionalismo cristão, ressaltou à NPR que a intenção de Wilson e seus adeptos é converter crenças individuais em legislações.

 

— Não se trata apenas de suas crenças pessoais cristãs sobre a função da mulher na família. Eles desejam impor essas ideias a todos — afirmou. — O que realmente importa é se o secretário da Defesa está retuitando um vídeo com opiniões bem específicas sobre se as mulheres deveriam ter direito a voto ou assumir papéis em atividades de combate, ou se a escravidão é vista como algo aceitável. É a perspectiva de alguém que ocupa uma posição significativa de autoridade.

A divulgação do vídeo por Hegseth aconteceu no contexto do aumento dos esforços do governo Trump em apoiar o nacionalismo cristão, acompanhando a renovada parceria do presidente com a ala cristã conservadora durante seu segundo mandato. Em fevereiro, Trump estabeleceu um gabinete de fé na Casa Branca para sugerir modificações em políticas e programas. Em maio, Hegseth convidou seu pastor pessoal para liderar o primeiro de uma sequência de cultos cristãos no Pentágono ao longo do expediente.

A ação do secretário ocorreu em um contexto em que as sondagens de opinião, nos Estados Unidos, indicam uma diminuição na aprovação do presidente entre o público feminino. Em abril, uma pesquisa realizada pela CBS News/YouGov revelou que 63% das mulheres eram contra a gestão econômica do republicano, enquanto 66% desaprovavam a forma como Washington estava lidando com a inflação, um tema crucial para as eleições de 2024. Nos três meses subsequentes, a deterioração da imagem de Trump foi novamente evidenciada: dados da Economist/YouGov revelaram que a aprovação geral do presidente entre as mulheres diminuiu três pontos percentuais, passando de 42% em maio para 39% em julho.

A Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos impede que o governo crie uma religião oficial. No entanto, especialistas observam que a interpretação do termo estabelecimento tem sempre sido vaga, uma vez que o texto assegura a todos o direito de exercer sua crença de forma livre. (Foto: EPA-EFE/REX/Shutterstock)

 

Por Opinião em Pauta com informações da  AFP

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