As lições da chantagem de Trump

Henrique Acker   –  A atuação desastrosa de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nos EUA, ajudou Donald Trump a encontrar uma desculpa para anunciar a taxação de produtos brasileiros em 50%, mas pode custar a derrota da extrema-direita brasileira na eleição presidencial de 2026.

O próprio Eduardo era um dos nomes cotados para encabeçar a chapa do bolsonarismo, que já se assanhava com uma possível aliança com o Centrão. No entanto, o estrago que a chantagem política de Trump provocou foi tamanho, que afetou o cenário político sucessório.

 

Bolsonarismo deu tiro no pé

Os segmentos exportadores da economia brasileira ficaram atordoados com as medidas anunciadas por Trump e apontaram o dedo à extrema-direita brasileira, acusada de irresponsabilidade, inclusive por setores da Faria Lima.

Encabeçada pelos grupos Globo, Folha e Estadão, a mídia empresarial fez a leitura óbvia e bateu duro no bolsonarismo: ainda que existam divergências com o PT, a taxação de produtos exportados pelo Brasil para os EUA afeta a economia do país, podendo gerar desemprego em massa.

A punição contra Alexandre de Moraes foi entendida como uma intromissão indevida no funcionamento das instituições do Estado brasileiro. Não que todos morram de amores pelo magistrado do STF, mas o precedente é gravíssimo para a autonomia dos poderes no país.

O diagnóstico é óbvio. Com as ações e palavras de Eduardo Bolsonaro nos EUA, a extrema-direita foi pega em flagrante delito: traição à pátria, em nome de um patriotismo familiar. Colocou os objetivos políticos de seu grupo acima dos interesses do país.

 

Lula fortalecido

As primeiras pesquisas de opinião indicam que a imagem do presidente Lula, ao contrário de enfraquecer, saiu fortalecida do episódio. Os números das enquetes para a corrida eleitoral presidencial de 2026 também foram alterados, mostrando agora Lula na frente de todos os possíveis candidatos bolsonaristas.

A imagem do presidente deve ficar ainda mais sólida, à medida que Trump teve que recuar da taxação de mais de 700 produtos brasileiros, por conta das consequências que ela teria sobre a própria economia dos EUA.

É evidente que o objetivo de Trump era atingir o BRICS, punindo o Brasil, país que hoje preside o bloco e de maior expressão na América Latina. No entanto, a globalização da economia cria contradições e dificulta punições a determinados países e restrições à comercialização de certos produtos no mercado internacional.

 

Maturidade e firmeza

A sensibilidade das velhas raposas no Congresso Nacional foi sentida com o imediato isolamento da bancada bolsonarista. O mandato do deputado em férias, Eduardo Bolsonaro, está seriamente ameaçado.

O Centrão já trabalha com duas possibilidades para 2026: lançar um nome que consiga unificar o eleitorado conservador no primeiro turno – sem a extrema-direita – ou manter a aliança com Lula na Presidência.

Longe de qualquer patriotismo de araque, a postura firme e madura de Lula e do ministro Fernando Haddad, além da busca de canais de negociação com o governo dos EUA pelo vice Geraldo Alckmin, evidenciou que quem defendeu os interesses do país foi o governo.

Este episódio deixa um recado para os setores de esquerda e centro-esquerda no Brasil. A necessidade de negociar com o grande capital não significa ajoelhar-se diante de pressões que levem o país e a maioria de seu povo a pagar um custo elevado. Isso vale tanto para a luta política internacional quanto para a disputa política no terreno interno.

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista)

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