Após os estudos realizados por cientistas da Universidade do Texas e de Stanford, que determinaram que satélites russos eram responsáveis pelas perturbações no sinal de GPS observadas na Europa desde 2019, a questão que emergiu não era de natureza técnica, mas sim estratégica: qual a intenção por trás disso? As interferências constatadas ocorrem em um padrão que coincide com dias úteis e horário comercial — um sinal, segundo analistas, de que Moscou está testando suas habilidades em guerra eletrônica contra a Otan.
O artigo intitulado Chasing Lightning, lançado em maio de 2026 e atualmente passando por revisão por pares, apontou a constelação russa, que tem um papel formal na defesa contra mísseis balísticos, como a causa de 75 dias de interferências que afetaram os sinais de GPS, Galileo e BeiDou em uma área que se estende da Polônia até o Canadá.
O professor americano Todd Humphreys, que é o principal responsável pela pesquisa, rejeita a possibilidade de um erro não intencional. O padrão de ocorrência das interferências, que se concentra entre as terças e quintas-feiras durante o horário comercial da Europa, não se alinha com nenhuma falha aleatória de equipamentos.
— Estou certo de que se trata de uma interferência intencional — afirmou Humphreys ao GLOBO.
De acordo com Mauricio Santoro, pesquisador associado ao Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha e especialista em relações internacionais, a revelação se alinha perfeitamente a uma realidade que a Europa já admite, ainda que não o faça de maneira explícita.
Um ex-embaixador do Brasil, que esteve recentemente na Europa, comentou que, em sua percepção, o continente se encontra em um estado de pré-guerra com a Rússia. Santoro achou essa definição bastante apropriada. Ele observou que, embora não haja exércitos em combate, existe um ambiente de tensão, com preparações militares e a competição por novos territórios estratégicos.
Mais Sobre Rússia
As relações entre a Europa e a Rússia atingiram um nível de tensão não visto desde o término da Guerra Fria. A Alemanha tem aumentado significativamente seus investimentos em defesa. Polônia, nações bálticas e Romênia estão intensificando suas medidas de proteção contra a possibilidade de invasões russas. Drones estão patrulhando as fronteiras. Além disso, conforme mencionado por Santoro, as interferências no GPS podem ser interpretadas como uma preparação, não uma ação militar, mas sim um teste para avaliar capacidades que poderiam ser utilizadas futuramente.
Humphreys sintetizou a ideia: se a Rússia realmente pretendesse causar prejuízos, seria suficiente ajustar o sinal para que correspondesse precisamente à frequência central do GPS, mantendo-o ligado de forma ininterrupta. Atualmente, a interferência ocorre a 2 Megahertz da frequência desejada e se prolonga por poucos segundos, tempo suficiente para confirmar o funcionamento do sistema, mas inadequado para demonstrar todo o seu potencial destrutivo.
— Caso as transmissões fossem ajustadas para igualar perfeitamente a frequência central do GPS e enviadas de maneira incessante, o efeito sobre a aviação, a navegação em alto-mar, os sistemas financeiros e as redes de energia seria uma intensificação significativa na guerra eletrônica — advertiu o pesquisador.
- Apoio nas linhas de frente: A falta de efetivos faz com que a Ucrânia intensifique a utilização de robôs para frear o progresso das tropas russas nas batalhas.
O GPS como arma
Durante quatro anos de combate na Ucrânia, a Rússia lançou milhares de mísseis de cruzeiro em direção ao país vizinho, todos utilizando sistemas de navegação por satélite para localizar seus objetivos. Nesse cenário, o GPS transformou-se de uma mera ferramenta civil em um elemento essencial para operações militares.
Santoro recorda um acontecimento recente que exemplifica claramente a rivalidade. Em 2024, mísseis do Irã falharam em atingir seus alvos de maneira significativa — um resultado, de acordo com especialistas, causado por interferências dos EUA e de Israel nos sistemas de navegação. No ano seguinte, a precisão dos mísseis iranianos apresentou uma melhoria considerável. A teoria mais aceita sugere que Teerã substituiu o GPS pelo sistema BeiDou da China, tirando proveito da colaboração militar com Pequim.
— Ao mencionarmos a habilidade de empregar um satélite para afetar o funcionamento do GPS, isso gera um enorme impacto nos mísseis de cruzeiro — afirmou Santoro. — A gestão desse espaço aéreo é crucial para os conflitos modernos, especialmente entre nações com avançada tecnologia.
Na realidade, a extensão do risco ultrapassa os limites dos conflitos armados. A partir do espaço, a observação é completa e abrangente; dessa forma, uma interferência constante e ajustada impactaria de maneira simultânea a aviação comercial, a navegação por mar, a coordenação de sistemas financeiros, as redes elétricas e a logística.
Quem responde e como?
O desafio de identificação — que exigiu seis anos de cálculos e pesquisas científicas para reconhecer o satélite em questão — não é um aspecto irrelevante e pode ser visto como um componente da estratégia. Na ausência de uma evidência técnica irrefutável, qualquer ação diplomática ou militar por parte do Ocidente se torna legalmente vulnerável.
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ainda não dispõe de uma doutrina definida para considerar ataques no domínio eletromagnético como atos de guerra. Anteriormente, os ataques cibernéticos realizados pela Rússia contra a Estônia foram categorizados como guerra híbrida, e não como uma agressão militar direta. Santoro opina que essa categorização deverá evoluir ao longo do tempo, à medida que se torna mais claro o dano potencial causado por esses ataques.
Na ONU, o órgão responsável é a União Internacional de Telecomunicações, porém, conforme o especialista, sua agilidade é insuficiente para a urgência da situação. Humphreys é claro ao afirmar que os países devem enfrentar a Rússia por meio da diplomacia e, paralelamente, desenvolver sistemas de navegação totalmente autônomos em relação ao GPS, utilizando sinais terrestres de alta intensidade juntamente com a sincronização de tempo via fibra óptica.
Santoro aponta que nações como China, Coreia do Sul e Reino Unido estão implementando redes alternativas. O Brasil, apesar de não estar em conflito direto com outras nações, também se movimenta nesse sentido e formou um Grupo Técnico por meio da Agência Espacial Brasileira (AEB) para investigar e sugerir a criação de um Sistema Brasileiro de Posição, Navegação e Tempo (PNT).
De acordo com a AEB, as metas incluem identificar as fragilidades da atual dependência de sistemas de navegação estrangeiros, como o GPS; elaborar estratégias para criar um sistema nacional autônomo; e realizar um levantamento das capacidades industriais, de pesquisa e tecnológicas imprescindíveis para a execução do projeto.
A maior parte dos sistemas de posicionamento foi impactada. Atualmente, isso é apenas um transtorno. No entanto, se as ondas de interferência fossem ajustadas para se alinhar perfeitamente com os sinais do GPS/Galileo/BDS, enfrentaríamos um problema sério. É fundamental abordar a Rússia sobre essa interferência e desenvolver sistemas de contingência que sejam completamente autônomos para gerenciar a situação — destaca Humphreys. (Foto: Reprodução/’Chasing Lightning’/Zachary L. Clements, Argyris Kriezist e Todd E. Humphreys)
Por Opinião em Pauta com informações de O Globo



