Sexta é o novo sábado: 41 empresas em Portugal adotam 4×3

No livro Sexta-Feira é o Novo Sábado, o economista português Pedro Gomes, docente na Universidade de Londres, apresenta a história de 41 empresas em Portugal que optaram, de forma independente, por implementar um regime de trabalho de quatro dias, seguidos por três dias de folga (4×3).

Um especialista da Escola de Negócios de uma universidade em Londres afirma que a diminuição da carga horária não apenas é possível, mas pode também “resgatar a economia“, trazendo vantagens para a economia como um todo e para a sociedade.

No que se refere ao Brasil, o especialista acredita que o país pode diminuir a carga horária para 40 horas semanais e abolir o sistema 6×1. O estudo de Gomes indica que essa alteração leva a uma diminuição das ausências no trabalho, reduz a rotatividade de funcionários e estimula o setor de lazer e entretenimento.

“Existe um grande temor em relação à diminuição da carga horária de trabalho. Em todos os lugares que visito, ouço sempre o mesmo argumento: que essa redução é inviável e que acarretará um aumento nas despesas para as empresas”, afirmou.

Em entrevista à Agência Brasil, o economista de Portugal afirmou que a elevação da produtividade – que ocorre quando uma empresa produz mais utilizando menos tempo de trabalho pode equilibrar os gastos resultantes da diminuição da carga horária.

“Historicamente, sempre que ocorre uma diminuição da jornada de trabalho, observa-se um incremento na produtividade por hora. As melhorias nos métodos de produção frequentemente compensam, em grande parte, essa diminuição do tempo trabalhado sob a perspectiva das empresas, esclareceu.

O novo sábado, sexta-feira

O escritor examinou a diminuição da carga horária opcional para o sistema 4×3 em 41 companhias portuguesas, que juntas contam com mais de mil funcionários, abrangendo variados setores e portes.

Entre essas empresas, 52% indicam que continuarão com a carga horária reduzida para quatro dias de trabalho; 23% afirmam que manterão a jornada reduzida, mas em uma frequência menor; e apenas 19% informaram que voltarão ao modelo de 5×2.

Mais de 90% das empresas não enfrentaram despesas financeiras devido à mudança, com 86% delas reportando um incremento nas receitas em comparação ao ano anterior, enquanto 14% observaram uma redução nas receitas. Aproximadamente 70% também afirmam que os processos da empresa foram aprimorados após a alteração.

A adoção de uma semana de trabalho de quatro dias é uma abordagem de gestão válida e sustentável, trazendo vantagens operacionais para as empresas, como a criação de um ambiente laboral mais positivo, diminuição das ausências e maior apelo para atrair talentos. Entretanto, para que essa mudança seja bem-sucedida, é necessário realizar uma reestruturação significativa”, afirmou Gomes.

Dentre as transformações nas organizações efetuadas pelas companhias de Portugal, a que ocorreu com mais frequência foi a redução do tempo das reuniões.

Tempo para entretenimento

O tempo que o trabalhador economiza ao ter a jornada reduzida possui um valor econômico que estimula os setores de lazer e entretenimento, gerando um impacto benéfico para a economia como um todo.

Os colaboradores são, igualmente, consumidores. Eles atuam como inovadores, exercem a cidadania, são pais de alunos e, por isso, as atividades que realizam durante seu tempo livre influenciam a economia”, disse ele.

Pedro Gomes menciona o caso do empresário Henry Ford, fundador da fábrica Ford nos Estados Unidos, que, em 1926, completando um século, implementou a carga horária de 40 horas semanais em sua companhia, estabelecendo assim o descanso de dois dias por semana.

“Com a diminuição da jornada de trabalho para 40 horas, 70% da população começou a frequentar cinemas. Isso fortaleceu Hollywood como uma das indústrias mais importantes dos Estados Unidos. O impacto foi bastante benéfico para os setores de esportes, música, literatura, cultura e hotelaria”, afirmou Pedro.

De acordo com o economista, “esse é um avanço que ocorreuum século nos Estados Unidos e, por isso, é o momento ideal para que o Brasil e os demais países da América Latina realizem essa transição para uma jornada de 40 horas.”.

O economista menciona também o exemplo da China, que, em 1995, implementou um fim de semana de dois dias para uma parte da sua força de trabalho.

Não atingiu a todos, mas focou mais na classe média. Contudo, logo em seguida, o setor de turismo interno da China se transformou no maior do planeta, uma vez que as pessoas tiveram oportunidades para viajar. Além disso, o Brasil possui um imenso potencial turístico”, acrescentou.

Em 1996, em Portugal, a carga horária de trabalho foi diminuída de 44 horas para 40 horas semanais.

Aos sábados, o comércio

Um outro benefício da carga horária reduzida é a diminuição das ausências no trabalho e a menor troca de funcionários, o que facilita a harmonização entre a vida profissional e familiar, sendo particularmente vantajoso para as mulheres.

Os altos índices de turnover e de ausências entre os funcionários representam um grande gasto para as organizações. Com uma carga horária diminuída, os colaboradores tendem a faltar menos e demonstrar menos vontade de deixar o emprego, o que ajuda a diminuir a rotatividade,” afirmou.

O pesquisador Pedro Gomes destacou que várias das empresas analisadas por ele não precisaram suspender as atividades no sábado ou em outro dia devido à diminuição das horas de trabalho. Muitas organizações começaram a implementar escalas com um número reduzido de funcionários nos dias de menor movimento.

“Percebe-se que o número de clientes é reduzido nas terças e quartas-feiras, por isso, é possível conceder mais folgas aos funcionários nesses períodos de menor movimento. Embora haja menos colaboradores na loja, ela continua funcionando.”

Segundo Gomes, as organizações costumam resistir a alterações na duração da jornada laboral, mesmo que essas modificações possam trazer vantagens.

“As empresas têm diversas opções à sua disposição, mas frequentemente evitam refletir sobre isso. Elas tendem a considerar essas questões apenas após as mudanças na legislação, sem conseguir antecipar os ganhos que poderiam usufruir..

 

Crescimento da economia

O economista descarta as projeções de pesquisas que indicam uma possível diminuição no Produto Interno Bruto (PIB) se a diminuição da carga horária e a eliminação da escala 6×1 forem implementadas no Brasil.

O escritor Pedro Gomes analisou 250 ocasiões em que houve diminuição da carga horária por meio de legislação no planeta desde 1910. Nos cinco anos que antecederam a reforma, a média de crescimento do PIB foi de 3,2%, enquanto, após a diminuição da jornada laboral, essa média aumentou para 3,9%.

Os impactos na produtividade horária foram extremamente relevantes e superaram consideravelmente a diminuição da carga de trabalho. Ademais, todos os demais efeitos macroeconômicos também influenciaram [o PIB]”, detalhou.

Segundo o docente de economia, o elevado número de horas que os trabalhadores brasileiros dedicam ao trajeto para o trabalho também fundamenta a necessidade de diminuir a carga horária de trabalho no país.

“Trata-se de uma justificativa extra. Os colaboradores terão uma qualidade de vida significativamente aprimorada, o que será altamente valorizado, e as despesas para as empresas são bem inferiores ao que normalmente costumam alegar”, concluiu. (Foto: Reuters)

Por Opinião em Pauta com informações da Agência Brasil

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