Por: Diego Feijó de Abreu (Revista Forum) – A reestruturação nas regras de monetização do X, antigo Twitter, deixou de ser uma questão técnica de engenharia de software e se tornou um manifesto político explícito. A plataforma comandada por Elon Musk, que já acumula histórico de embates com o Judiciário brasileiro por abrigar redes de desinformação, decidiu redesenhar o seu fluxo de dinheiro e apontou os novos donos da vitrine financeira da rede. Ao sufocar perfis agregadores de notícias e estrangular o tráfego que direciona usuários para fora do aplicativo, a empresa determinou que os maiores beneficiados pelos pagamentos em dólar serão criadores de conteúdo alinhados à extrema direita e à guerra cultural.
A confirmação das novas diretrizes partiu da própria diretoria da empresa. O head of product do X, Nikita Bier, detalhou em sua conta oficial um corte agressivo na receita de páginas que apenas compilam informações. A justificativa pública é recompensar o “conteúdo original de alta qualidade”. No entanto, ao apresentar os exemplos do que a rede considera como o padrão a ser seguido, Bier ignorou jornalistas e produtores independentes. A vitrine oficial da empresa é composta por três contas imersas no radicalismo americano, no machismo e no fundamentalismo religioso.
O ataque às Big Techs e o muro do algoritmo
A mudança estrutural vai muito além de premiar perfis radicais. O arrocho imposto pelo X embute um ataque comercial direto a gigantes como Meta e Google, além de plataformas de jornalismo como o Substack. Agregadores já sofreram um corte para 60% dos pagamentos no atual ciclo, com previsão de uma nova tesourada de 20% no próximo mês.
O ponto nevrálgico, que impacta o fluxo de informação global, é a punição imposta ao conteúdo externo. A diretoria da rede social confirmou que contas que publicarem links de plataformas de terceiros sofrerão uma queda severa de até 90% nas impressões. Aqueles que abusarem do alerta de “BREAKING” (urgente) como isca de cliques também terão deduções permanentes em suas receitas.
Na prática, Elon Musk ergue um muro em torno de sua base de usuários. Ao destruir o alcance algorítmico de quem posta links para portais de notícias ou vídeos do YouTube, o X aprisiona o debate em um ecossistema fechado. Neste ambiente isolado, o conteúdo validado e financiado pela própria plataforma impera sem o contraponto da imprensa profissional ou de agências de checagem.
A vitrine radical: quem o X decidiu financiar
A curadoria do que o X considera exemplar revela o alinhamento total da gestão Musk ao projeto político conservador, servindo como uma prévia do ecossistema financiado para a campanha de Donald Trump nos Estados Unidos. Os três perfis citados nominalmente pela diretoria funcionam como laboratórios de táticas de manipulação de massas.
O primeiro modelo endossado pela plataforma é Nick Shirley, um provocador focado em inflamar o sentimento anti-establishment. Suas publicações recentes miram o governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom. Em suas postagens, Shirley associa o político a fraudes sistêmicas e afirma que ele deve ficar “o mais longe possível da Casa Branca”. É o roteiro clássico de conspiração projetado para engajar a base extremista através do ódio político.
Charles Curran, apontado pelo X como exemplo de vídeos de alta produção, utiliza inteligência artificial para criar paródias políticas com forte viés de direita. Em uma peça recente, ele usa humor agressivo para satirizar geopolítica. Além disso, o perfil coleciona comentários depreciativos sobre mulheres, validando a estética “red pill” que atrai e radicaliza o eleitorado jovem na internet.
O terceiro escolhido, Will Manidis, mistura análises do Vale do Silício com pânico moral e fundamentalismo cristão. O produtor ataca concorrentes, como a OpenAI, por permitirem o que classifica como material “erótico”. Em suas postagens, ele alerta que a inteligência artificial estaria corrompendo as crianças e exige a submissão do desenvolvimento tecnológico à moral religiosa.
Laboratório eleitoral e o impacto no Brasil
As dinâmicas promovidas pelo X nos Estados Unidos são frequentemente importadas pela extrema direita brasileira em anos eleitorais. Não por acaso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mantém alertas permanentes de que a propagação de desinformação afeta a lisura do processo democrático e a própria vontade do eleitor. Em qualquer rede social moderna, o algoritmo de pagamento dita as regras do debate público. Ao asfixiar financeiramente a distribuição de notícias factuais e direcionar a verba publicitária para o choque de costumes, o X deixa de ser uma praça pública neutra e assume o papel de braço financeiro de um campo político específico.
Sob o disfarce técnico de proteger a autoria e recompensar a originalidade, a plataforma manda um recado claro aos criadores de conteúdo às vésperas de disputas eleitorais decisivas. Para ganhar alcance, faturar em dólar e sobreviver no novo X, o usuário precisará abandonar as fontes externas e atuar, com exclusividade, como uma engrenagem da guerra cultural. (Foto: Fabrice COFFRINI / AFP)
Transcrição na íntegra da Revista Forum



