Rio refém de serviços privatizados e da omissão governamental

Henrique  Acker  –  Eram 16:20h da tarde da quarta-feira (29/7) quando coloquei os pés na rua pensando em voltar para casa. Nuvens pesadas anunciavam uma mudança no clima depois de um dia quente. Estava no Centro do Rio e caminhava pela rua Senhor dos Passos, quando começou a ventania.

Primeiro surgiu a nuvem de poeira, depois o vento cortante. As árvores balançavam forte, já se ouvia batidas de portas e barulho de vidraças quebrando.

Minutos depois veio a enxurrada de folhas, papéis, plásticos e caixas de papelão. Procurei abrigo debaixo da marquise de um prédio, mas nada da coisa melhorar.

Decidi seguir em frente, na esperança de tomar uma condução. No meio do caminho, resolvi matar a sede e parei para tomar água. Àquela altura, as lojas da Saara já estavam fechando, porque não havia eletricidade.

Quando atravessei a Avenida Passos o sinal de trânsito já estava no amarelo piscante e os carros parados no engarrafamento. Um enorme redemoinho de folhas e papéis tomou conta da calçada. Não dava para continuar.

Entrei pela portaria do prédio da Rádio Saara, na Alfândega e subi pela escada até o andar da emissora. Assuntei com amigos e confirmei: ninguém recebeu qualquer informação sobre o que estava se passando, nem um SMS. Depois soube que algo parecido aconteceu pela manhã, em São Paulo.

Era, simplesmente, um vendaval, que depois virou “frente de rajada”. Ninguém foi avisado sequer por uma mensagem da Prefeitura ou pelos órgãos do governo do Estado. Deduzi que algo estava errado. Afinal, hoje qualquer um pode acompanhar as alterações de temperatura e mudanças do clima ao vivo, até pelo celular.

A prefeitura do Rio tem um Centro de Operações que controla toda a cidade. Não foi avisada pelos serviços de meteorologia, que funcionam em tempo real por satélite? Ninguém sabia que um dia antes o vendaval foi forte no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, fez estragos na Baixada Santista horas antes e tinha como destino o Rio de Janeiro?

Vasculhei as notícias e vi que o prefeito em exercício emitiu um primeiro alerta às 16:50h, portanto, bem depois que as coisas começaram a acontecer. Dos órgãos estaduais nem sinal de fumaça…

Ainda deu tempo de ver as primeiras imagens das consequências da ventania para a cidade no Jornal local da TV Record. Por volta das 17:30h, já se sabia que trens e metrô estavam paralisados. Havia muitos galhos e árvores caídas nas ruas.

Aguardei as coisas melhorarem e fui em frente. Na Praça Tiradentes havia uma aglomeração de pessoas no ponto do VLT, onde uma composição estava parada. Segui pela Lavradio e entrei na Gomes Freire, mais deserta do que de costume.

Por sorte um ônibus parou fora do ponto e consegui subir com outras pessoas. Eram 18:40h. Cheguei ao meu destino por volta das 19:10h. No trajeto reparei que ruas, prédios e casas do bairro estavam às escuras. Um porteiro confirmou que a queda de energia se deu lá pelas 16 horas.

 

Comecei a teclar essas linhas às 21 horas de 29 de julho, no escuro, à luz de vela, num bairro do Centro do Rio. Fico imaginando a situação dos que residem na Zona Oeste, na Baixada Fluminense, na Leopoldina e adjacências.

Muitos enfrentaram horas em ônibus entupidos ou tiveram a paciência de aguardar o restabelecimento do serviço de metrô e trens urbanos.

Basta uma ventania forte para derrubar a máscara de quem vende o Rio como cidade “maravilhosa”. As belezas naturais do Rio – já um tanto alteradas pela intervenção desastrosa dos interesseiros e a omissão dos governantes – não são mais capazes de esconder o caos em que sobrevivemos.

E isso tem responsáveis. Os serviços públicos estão entregues ao comando de quadrilhas e a empresas terceirizadas, movidas por interesses próprios, apesar da resistência, dos baixos salários e do esforço de boa parte dos servidores concursados.

Policiais de trânsito, guarda municipal, bombeiros e defesa civil não foram mobilizados a tempo de organizarem um esquema de emergência para socorrer a população. No Centro não foram avistados, com raríssimas exceções.

As antigas empresas que pertenciam ao governo do Estado – privatizadas desde os anos 90 – “andam” para os cariocas e fluminenses. Todos, repito, todos os serviços de transportes privatizados apresentaram um desempenho abaixo do sofrível numa situação de emergência.

Operadoras de telefonia celular simplesmente deixaram de funcionar em muitas regiões, num momento em que as pessoas precisavam se informar e se comunicar com seus parentes.

O serviço de Uber, que seria uma opção para alguns, em vez de manter os preços das tarifas e fazer lotadas numa situação de emergência, passou a cobrar R$ 60 ou mais pelas corridas.

A energia elétrica continua com seus cabos expostos, algo que já não se usa há décadas em países um pouco mais desenvolvidos. Muito menos nas capitais. Resultado: fiação afetada e regiões inteiras do Grande Rio às escuras por horas.

Viver no Rio não é uma aventura, nem um desafio. É um tormento para a grande massa de sua população, que paga caro e recebe todos os dias tapas na cara da bandidagem que tomou conta do território, dos serviços públicos e dos palácios.

As autoridades? Certamente vão empurrar suas irresponsabilidades umas para as outras. Afinal, é ano de eleição. E contam com a boa vontade de boa parte da mídia para reforçar aquela versão de que a culpa é de São Pedro.

Assisti ao noticiário do Jornal Hoje, da Globo, no início da tarde de 30 de julho. O locutor da matéria que exibia os estragos na cidade dizia que “a ventania chegou de repente”.  Como se fosse uma surpresa. O mesmo tom foi usado para se referir aos problemas causados em Santos (SP).

Nenhuma cobrança aos governantes. Tudo foi tratado como uma fatalidade. Até às 14h do dia seguinte (22 horas depois), meio milhão de pessoas no Rio ainda estavam sem energia elétrica. Danem-se os que tiveram as casas destelhadas ou perderam tudo nas geladeiras. (Fotos: Henrique Acker)

Por Henrique Acker (jornalista/colunista)

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