Ortodoxos e palestinos decidem eleição em Israel

Henrique Acker – Os partidos que representam grupos judaicos ortodoxos (UTJ e Shas) elegeram 13 deputados no pleito de 27 de outubro. Eles podem ser decisivos na composição de uma maioria para a formação do próximo governo.

Apesar de representarem cerca de 20% da população de Israel e sofrerem o veto dos partidos judaicos, os palestinos que residem no país também influenciam o complicado tabuleiro eleitoral. As duas coligações de partidos árabes-palestinos (Lista Conjunta e Ra´am) elegeram 19 deputados.

Num parlamento de 120 deputados, nem a aliança de partidos do atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (53 cadeiras) nem o bloco de oposição, liderado pelo general Gadi Eisenkot (48 cadeiras) alcançaram maioria para formar governo.

 

Mais do mesmo

Tanto Netanyahu (Likud) quanto seu oponente Gadi Eisenkot (Yashar) são expressamente contrários à formação de um Estado Palestino. Os dois firmaram posição pública de rejeitar aliança com os partidos palestinos para governar.

Todos os partidos de base judaica se reivindicam sionistas, mesmo aqueles que criticam o governo de Netanyahu. Assim, não se espera qualquer mudança no tratamento da questão palestina dentro e fora de Israel. 

Durante a campanha, Eisenkot prometeu derrotar o Hamas em 18 meses. O militar também não deve alterar a política externa, sobretudo em relação ao conflito com o Irã.

Se a oposição conseguir base suficiente no parlamento para formar o novo governo, acredita-se que deve frear o ímpeto violento dos colonos judeus na Cisjordânia e melhorias dos serviços públicos no país. 

 

 

Descrença dos ortodoxos

A coligação governista de Netanyahu perdeu 10 deputados e enfrenta o descontentamento dos judeus ortodoxos do UTJ (Judaísmo Unido da Torá) e do Shas. Eles não acreditam na promessa de aprovação da dispensa de alistamento militar dos jovens de suas comunidades.

“Não vamos conseguir nada de Netanyahu. Nossa aliança com ele chegou ao fim, especialmente agora que ele não tem mais 61 cadeiras”, disse uma fonte da UTJ ao Canal 12 de Israel.

A questão do serviço militar obrigatório também é um grande obstáculo a qualquer acordo com Eisenkot, que se opõe veementemente às isenções gerais para homens Haredi que os partidos ultraortodoxos desejam.

Um alto funcionário ultraortodoxo disse ao jornal Israel Hayom que a UTJ e o Shas, partido ultraortodoxo sefardita (judeus originários do Oriente Médio), consultariam suas lideranças rabínicas antes de decidir qual político apoiar. 

Segundo essa fonte, quem conseguir aprovar uma legislação que isente os estudantes de yeshiva (escola tradicional de ensinos judaicos) do serviço militar poderia obter o apoio dos dois partidos.

 

Impasse

Pela contagem oficial de votos, 78% dos eleitores foram às urnas, o maior índice de todas as eleições no país. Entre os palestinos (1,9 milhão de pessoas) o comparecimento alcançou 80%, o que ajudou as bancadas das duas coligações não judaicas a crescerem de 15 para 19 deputados.

Na quarta-feira (27/10), o líder da Lista Conjunta, Yousef Jabareen, afirmou que seu partido está preparado para assumir a responsabilidade de derrubar a coalizão de extrema-direita de Netanyahu. “O governo tornou a vida de todos os cidadãos árabes miserável”, disse Jabareen, citado pelo jornal Yedioth Ahronoth.

Netanyahu tem denunciado, sem provas, uma suposta fraude entre os colégios eleitorais com maior presença dos palestinos residentes em Israel. Mas o Comitê Central Eleitoral rejeitou as denúncias, consideradas infundadas.

De acordo com o pesquisador Shajar Goldwaser, do Grupo de Estudos sobre Conflitos (GECI) da PUC de S. Paulo, alguma promessa terá que ser quebrada para resolver o impasse. “A oposição prometeu que não iria fazer governo com Netanyahu e que não iria fazer governo com os partidos árabes-palestinos”.

Enquanto não houver uma maioria de oposição, Benjamin Netanyahu continuará à frente do governo de Israel. Se o impasse permanecer, nova eleição poderá ser convocada, dando mais tempo de sobrevivência política ao atual primeiro-ministro.

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Times de Israel, Jerusalém Post, Al Jazeera, Agência Brasil, CNN Internacional, G1, DW e BBC.

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