A consolidação dos resultados do segundo turno das eleições, na noite de domingo (25), provocou uma mudança brusca no clima da campanha de Flávio Bolsonaro (PL). A expectativa de vitória, que alimentava a comemoração antecipada no comitê, deu lugar a reuniões de emergência, tensão entre aliados e discussões sobre como reagir à derrota para o presidente Lula (PT). Os bastidores daquela noite foram relatados por Malu Gaspar, em reportagem publicada no jornal O Globo.
Antes mesmo de metade das urnas ter sido apurada, a mudança nos números de regiões estratégicas levou Flávio a se recolher em uma sala reservada, acompanhado da mulher, Fernanda. Cercado por conselheiros e aliados, o senador demonstrava inconformismo com os boletins de Santa Catarina e a virada de Lula em Minas Gerais.
“Não é possível, isso tá errado. Como é que pode?”, questionava, sem esconder a resistência em aceitar o resultado. Desde aquele momento, segundo o relato, já demonstrava não estar disposto a reconhecer a vitória do adversário.
A reação preocupou imediatamente os assessores, sobretudo pelo risco de novas consequências judiciais, semelhantes às enfrentadas por Jair Bolsonaro após os questionamentos sem provas ao sistema eleitoral em 2022.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), os advogados Tracy Reinaldet e Maria Cláudia Bucchianeri, a assessora Daniella Marques e a equipe de comunicação comandada pelo marqueteiro Duda Lima tentaram conter os ânimos. A orientação era evitar acusações infundadas contra as urnas eletrônicas.
Duda Lima foi direto ao alertar sobre as consequências de uma declaração irresponsável: “O último que falou em fraude na urna acabou preso”.
A preocupação tinha como referência a condenação de Jair Bolsonaro e a multa de R$ 22,9 milhões aplicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao PL por litigância de má-fé, após o partido levantar suspeitas sem provas sobre as urnas eletrônicas.
Mas a tentativa de moderação esbarrou na ala mais radical da campanha. Em uma reunião com aproximadamente 12 participantes, o candidato a vice, Alfredo Gaspar, foi apontado como um dos principais defensores de uma reação mais agressiva.
“Foi quem mais radicalizou nessa primeira reunião”, relatou um dos presentes.
Gaspar defendia abertamente a anulação da eleição e sustentava que havia ocorrido “roubalheira”. Flávio também atacava a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia autorizado a extensão do horário de votação em duas horas, após solicitação do PT.
O episódio, porém, tinha uma contradição: a própria campanha de Flávio havia pedido medida semelhante para municípios atingidos por tempestades nas regiões Sul e Sudeste, justamente em localidades onde o senador obteve votação expressiva.
À medida que a discussão avançava, Flávio passou a manifestar preocupação com a possibilidade de sofrer medidas judiciais.
“O Alexandre vai me prender, ele vai me prender na semana que vem. É isso o que ele quer”, teria dito, referindo-se ao ministro Alexandre de Moraes.
O temor também estava relacionado a investigações recentes da Polícia Federal sobre movimentações financeiras ligadas ao advogado Willer Tomaz e a casas de apostas. Documentos obtidos pelos investigadores apontariam Flávio como “usuário master” de uma conta da empresa Alcazar Holding, em maio de 2025, levantando suspeitas sobre uma possível participação societária não declarada.
Outro episódio aumentou a tensão. Integrantes do partido alegaram que técnicos do PL haviam sido impedidos de acessar a sala-cofre do TSE durante 40 minutos, depois das 17h. A informação, posteriormente desmentida pelo próprio tribunal, levou os integrantes mais moderados a exigir que o assunto não fosse utilizado para alimentar suspeitas sem fundamento.
Na tentativa de reorganizar a campanha, Flávio permaneceu cerca de dez minutos a sós com a mulher e depois voltou a se reunir com lideranças partidárias.
Tarcísio de Freitas, Tereza Cristina e Guilherme Derrite defendiam cautela. Em sentido oposto, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Alfredo Gaspar pressionavam por um posicionamento de confronto.
Nikolas chegou a sustentar que a eleição não havia sido legítima e previu perseguição política e censura à oposição nas redes sociais. Sua intervenção provocou desconforto até entre aliados presentes.
“Se alguém tivesse filmado, ele podia ter sido preso”, comentou um dos participantes da reunião.
Diante do impasse, a equipe de comunicação tentou construir uma saída política e jurídica. Preparou um pronunciamento que reconheceria a derrota, mas questionaria as condições em que a disputa ocorreu, atribuindo a Lula suposto abuso de poder político e econômico pelo uso de medidas sociais e pelo reajuste do Bolsa Família durante o período eleitoral.
A estratégia também previa acionar a Justiça Eleitoral com um pedido de cassação do mandato do presidente eleito.
“O combinado era fazer um discurso duro, inconformado, de que Lula cometeu abuso de poder político e econômico, que foi uma eleição tumultuada, que não foi justa, que ele não perdeu pras urnas, mas pro sistema, mas ainda assim reconhecendo a derrota”, contou um dos participantes.
Flávio, entretanto, ignorou o roteiro preparado pelos assessores e decidiu falar por conta própria. Incentivado pelos aliados mais radicais, dirigiu-se aos jornalistas e anunciou que não reconheceria o resultado, além de prometer recorrer à Justiça para tentar anular a eleição.
“O que eu tenho que falar aqui agora é que é impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto em que essas coisas aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo — mais uma vez, pelos amigos do Lula no STF”, declarou.
A manifestação contrariou frontalmente a estratégia jurídica e política definida pela própria campanha. A reação de um integrante resumiu o espanto interno: “Ele descaralhou”, confidenciou a um colega.
Depois de divulgar um vídeo no qual prometia permanecer no Brasil para liderar a oposição ao governo eleito, Flávio Bolsonaro seguiu para os Estados Unidos. Já no exterior, publicou um manifesto no qual se autoproclamou o “verdadeiro presidente do Brasil”. (Foto: O Globo)
Por Opinião em Pauta com informações de O Globo


