Henrique Acker – As derrotas do governo na tentativa de emplacar Jorge Messias no STF e na derrubada do veto do projeto que reduz a pena dos golpistas de 8 de janeiro de 2023, sacramentaram o fim de um largo período de namoro de Lula com o Centrão.
Ao contrário da base do governo, que vai da esquerda até o campo progressista, e da extrema-direita bolsonarista, o Centrão não se pauta por compromissos político-ideológicos.
Ciro Nogueira, Hugo Motta, Davi Alcolumbre e Antônio Rueda são só homens de negócios na vida pública. Ou coronéis da política que fazem negócios usando o Estado para beneficiar as classes dominantes.
Nesse grupo heterogêneo, o que prevalece é apenas e tão somente o pragmatismo dos abastados. Para se sustentar, o Centrão precisa de cargos na estrutura de governo, verbas de ministérios, emendas parlamentares e liberdade para legislar em causas próprias no Congresso.
Daí porque, em todos os governos, desde Dilma II, o Centrão presidiu a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Tudo é discutido e aprovado ou rejeitado a partir de cálculos políticos. Como maior bloco dentro do Congresso, o Centrão usa o que há de pior: a chantagem sobre o Executivo.
Foi a partir da aprovação do chamado Orçamento Secreto e da farra das emendas parlamentares que o Congresso passou a atropelar as atribuições do Executivo. Essa forma de agir pode se transformar no estrangulamento do governo de plantão, ainda mais em ano eleitoral.
Na verdade, o que Alcolumbre tramou com os bolsonaristas foi que a atual vaga no STF fique para ser indicada pelo próximo governo. Assim, serão quatro vagas a preencher no Supremo durante o novo mandato presidencial. O Centrão quer emplacar os seus e tornar o STF mais palatável.
Em troca, a derrubada do veto de Lula à emenda da chamada dosimetria das penas para os golpistas de 8 de janeiro foi acertada entre os líderes do Centrão e os bolsonaristas, maiores beneficiários da decisão. E de quebra um possível engavetamento da CPI do Banco Master.
Nem mesmo com a liberação de bilhões em emendas parlamentares e a garantia ao Centrão da posse de apadrinhados para cargos federais pelo governo Lula, às vésperas da votação no Senado, fez Alcolumbre mudar de ideia.
O que cria a insatisfação do Centrão com o atual governo não é propriamente uma diferença política de fundo. Não é nem o fim da escala 6×1 de trabalho ou a nomeação de um ministro apoiado por Lula ao STF. O que incomoda é a liberdade e a desenvoltura das atuações do STF e da Polícia Federal.
O que perturba é a firmeza de alguns ministros do STF em tentar frear os desvios dos recursos das emendas parlamentares e em barrar medidas inconstitucionais pelo Congresso. Já a PF é criticada por conta de sua atuação nos escândalos do INSS, Banco Master e investigações de quadrilhas, às quais estão ligados muitos parlamentares do Centrão e do bolsonarismo.
Dentro dos limites possíveis, tanto a PF quanto o STF estão apenas cumprindo seus deveres constitucionais. Mas essa gente não está acostumada com isso.
No pouco tempo que resta de seu mandato e para o início do processo eleitoral de 2026, Lula deve apostar no projeto que propõe o fim da jornada de seis dias de trabalho por um de descanso (6×1) e na implantação de um novo programa de negociação de dívidas, o Desenrola 2.
Parece que finalmente o governo descobriu que, além de receberem baixos salários e da jornada exaustiva de trabalho, os brasileiros vivem endividados nos cartões de crédito, achacados pelas altas taxas de juros praticadas pelos bancos e mantidas pelo BC.
Está evidente que a união do Centrão com o bolsonarismo tem que ser enfrentada por outro caminho. A via colombiana, do presidente Gustavo Petro, aposta suas fichas na mobilização popular nas ruas contra as classes dominantes.
Foi assim que Petro impôs derrotas à maioria da direita no Congresso da Colômbia e seu partido se transformou na maior força política do país nas recentes eleições parlamentares. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)



