Henrique Acker – Enquanto 82% das famílias brasileiras estão endividadas, os principais bancos privados do país mantêm seus balanços positivos no segundo trimestre de 2026. A conta que não fecha para 81,7 milhões de pessoas, permanece no azul para as maiores instituições do mercado financeiro.
Os ganhos mais expressivos de abril, maio e junho deste ano estão concentrados no Itaú (R$ 43 bilhões) e no BTG Pactual (R$ 51 bilhões). O Bradesco registrou lucro de R$ 7,05 bilhões, enquanto o Santander apresentou resultado positivo de R$ 3 bilhões.
Juros de 160% ao ano
Os maiores vilões do endividamento são o crédito rotativo no cartão e as apostas em jogos de azar pela internet. O motor que faz girar a máquina de dívidas, engordando os resultados positivos dos bancos, é a elevada taxa de juros praticada no mercado, em torno de 8,5% ao mês (160% ao ano).
Apesar do salário médio ter batido recorde (+5,4%) em janeiro de 2026, chegando a R$ 3.652, os baixos salários são a outra grande causa do endividamento em massa no Brasil. De acordo com o IBGE, 35% dos brasileiros recebem até um salário mínimo. Outros 32,7% estão na faixa entre um e dois salários mínimos. Apenas 7,6% ganham acima de cinco salários mínimos.
A taxa básica de juros (selic) está em 14% ao ano, mas não é praticada pelas instituições financeiras nas operações com juros bancários. A expectativa do mercado é que a selic só alcance taxa inferior a dois dígitos em 2028.

Menores salários, mais dívidas
De acordo com o “Mapa da Inadimplência do Brasil: 10 anos”, publicado pelo Serasa Experian, o valor médio de endividamento por pessoa em 2026 é de R$ 6.593,13. Em uma década (2016-2026) a inadimplência cresceu de 59 milhões para 81,7 milhões de pessoas.
Segundo o levantamento, 48% dos brasileiros que possuem dívidas recebem até um salário-mínimo. Outros 30% recebem entre um e dois mínimos.
O estudo aponta ainda que bancos e financeiras concentram 47,1% das dívidas (cartões de crédito e cheque especial) e 21,4% são com contas básicas (serviços públicos e privados). O Serasa alerta que o brasileiro tem, em média, 70,5% da sua renda comprometida.
Ainda pelas comparações de dados dos últimos dez anos, 34 milhões de consumidores inadimplentes já estavam na mesma situação em 2016. Ou seja, 42% dos brasileiros endividados em 2016 seguem com dívidas há dez anos.
Alta concentração bancária
Chama a atenção que um país com 210 milhões de habitantes e um território de 8,5 milhões de km2 tenha poucos bancos atuando em nível nacional.
Segundo o Banco Central do Brasil (BC), entre 2002 e fevereiro de 2024, foram analisadas 121 operações de fusão ou aquisição no setor bancário — 57 delas apenas nos últimos dez anos, a maioria envolvendo grandes bancos.
O último Relatório de Economia Bancária, publicado em junho de 2024, os quatro maiores bancos do Brasil (Caixa, BB, Itaú e Bradesco) detinham, em 2023, 57,8% das operações de crédito e 57,9% dos depósitos totais.
Na comparação do mercado financeiro brasileiro com outros países, o BC observou que a rentabilidade bancária no Brasil está entre as mais elevadas. Segundo economistas e especialistas do setor, isso se dá pelo peso da concentração dos chamados “bancões”. (Fotos: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do Serasa Experian (Mapa da Inadimplência do Brasil: 10 anos), Portal do IBGE, Economia UOL, CNN Brasil e Portal do BCB (Relatório de Economia Bancária 2023).



