Henrique Acker – Na residência oficial do governo britânico, em Downing Street (Londres), o único morador com relativa estabilidade é o gato Larry. O animal foi admitido em 2011 como caçador de ratos e já conviveu com seis primeiros-ministros nos últimos 15 anos.
Agora é a vez do trabalhista Andy Burnham, com a renúncia de seu colega de partido Keir Starmer, cujo mandato durou menos de dois anos. O governo que sai deixa como herança, além da mais baixa popularidade em 50 anos, alta da inflação e do custo de vida.
Efeitos do Brexit e promessas
A instabilidade política dos últimos anos também é reflexo do Brexit, resultado do plebiscito de 2016 que definiu o desligamento da Grã-Bretanha da União Europeia. O isolamento econômico gerou problemas tanto para os ingleses, quanto para a UE, que apesar de se manter como o principal parceiro comercial do Reino Unido, perdeu parte de seu orçamento.
De acordo com o portal alemão Deutsche Welle (DW), um estudo da Universidade de Stanford constatou que nos dez anos do Brexit a economia britânica encolheu de 6% a 8%. A queda se deu no investimento (12% a 18%), na produtividade (3% a 4%) e no emprego (3% a 4%).
Medidas para a redução da imigração dos governos conservadores abriram uma crise em diversos setores da economia onde a mão-de-obra predominante era de outros países da Europa. O jeito foi contar com indianos e nigerianos, o que acabou por aumentar o número de estrangeiros, provando que o discurso xenófobo anti-imigração era só demagogia eleitoral.
O novo primeiro-ministro indicado pelo Partido Trabalhista promete combater as mazelas herdadas nos últimos anos, em que o governo foi comandado tanto por conservadores como pelos próprios trabalhistas. Ele promete apresentar um plano de recuperação econômica para os próximos dez anos, além de medidas que contenham a alta do custo de vida, para dar um “certo alívio” aos britânicos.
Elegância dispensável
“Saio com elegância, com um sorriso e orgulhoso de tudo o que conquistamos”, declarou Keir Starmer em discurso melancólico de despedida em frente à residência oficial de Downing Street.
A queda de Starmer está associada à derrota fragorosa dos trabalhistas nas eleições municipais de maio deste ano e ao escândalo da nomeação de Peter Mandelson, um amigo do criminoso sexual Jeffrey Epstein, como embaixador britânico nos Estados Unidos.
Quem agradece aos trabalhistas e conservadores é a extrema-direita, cujo líder Nigel Farage viu seu partido (Reform UK) avançar nos últimos anos e se consolidar como a terceira força política do país.
Com a crise política, muitos britânicos questionam se o gato Larry vai viver o suficiente para assistir à queda do novo governo e à posse de um outro primeiro-ministro. “Os políticos vão e vêm; os gatos ficam”, sentencia a conta de Larry na plataforma digital X.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do The Guardian, O Globo, CNN Brasil, G1, UOL Notícias e DW Brasil.



