Henrique Acker – Quando o ministro André Mendonça imaginava encurralar seu colega Alexandre de Moraes, apresentando diálogos de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, uma enxurrada de revelações veio à tona envolvendo bolsonaristas, incluindo denúncias contra o próprio Mendonça.
Alvo do bolsonarismo desde a eleição de 2022 e do inquérito das Fake News, Moraes teria trocado mensagens com Vorcaro sobre o contrato do escritório de advocacia de sua esposa, que prestou serviços ao Banco Master. Até o momento, não foram reveladas as respostas de Moraes, apenas as postagens de Vorcaro.
As mensagens, vazadas pelo próprio André Mendonça, lançaram um clima de vale-tudo no Supremo Tribunal Federal. Alexandre de Moraes pediu ao presidente da Côrte, Edson Fachin, uma investigação sobre a conduta de Mendonça, à frente também do inquérito que investiga o desconto indevido de aposentados do INSS para entidades fantasmas.
PF coloca Mendonça sob suspeição
Moraes apresentou um relatório da Polícia Federal, solicitado por ele no âmbito das investigações do caso das Fake News, no qual a conduta de Mendonça à frente do caso Master e do escândalo do INSS é questionada.
O relatório da PF aponta que Mendonça teria apontado o “direcionamento de determinados alvos para investigação (Ministro Alexandre de Moraes e Senador Davi Alcolumbre), por motivos pessoais e políticos, inclusive com a indicação prévia das medidas cautelares a serem apresentadas pela Polícia Federal”.
Na tentativa de acordo para uma delação premiada de Maurício Camisotti, um dos principais acusados no escândalo do INSS, o documento da PF explicita que “o relator (André Mendonça) teria afirmado que, por não confiar na Procuradoria-Geral da República, poderia aplicar benefícios não previstos em lei a partir de proposição da Polícia Federal, inclusive fora das hipóteses legalmente previstas”.
O presidente do STF, ministro Edson Fachin, deu prazo de cinco dias a todos os implicados na crise – incluindo o Procurador Geral da República, Paulo Gonet, e o Diretor-Geral da PF, Andrei Rodrigues – para apresentarem suas justificativas, antes de decidir como pretende conduzir o caso no Supremo.
Encontro com Vorcaro
Outro fato que se juntou à avalanche de denúncias diz respeito ao Instituto Iter, uma organização privada dirigida por André Mendonça, com sede em São Paulo, fundada em 2023.
A entidade, que captou R$ 11,5 milhões em apenas dois anos de existência, é voltada para ministrar cursos de capacitação profissional e aperfeiçoamento de gestores, e teria firmado 68 contratos em 15 estados e prefeituras sem licitação pública.
Foi na sede do Iter, segundo o jornalista Paulo Motoryn (Intercept Brasil), que o ministro André Mendonça teria se encontrado com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em março de 2025. Isso depois de ter ido a uma alfaiataria de luxo em São Paulo, em fevereiro, acompanhado do advogado Ciro Rocha Soares, ligado a Vorcaro, segundo relata a reportagem do ICL Notícias.
Diante das descobertas, Mendonça confirmou o encontro com Vorcaro e anunciou seu afastamento do Iter. Até porque, como ministro do STF, não poderia comandar uma organização privada que firma contratos envolvendo dinheiro público.
Filme cada vez mais caro
Por fora do circuito da grande mídia, que parece mais preocupada em opinar do que investigar, a revista Piauí revelou que Daniel Vorcaro enviou 1,6 milhão de dólares ao Havengate Development Fund LP, empresa responsável pela captação de recursos para o filme Dark Horse (sobre a vida de Jair Bolsonaro), em setembro de 2025.
Os dados são do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Com isso, seriam sete repasses milionários já confirmados de Vorcaro para a realização do filme, num total de R$ 65 milhões.
A notícia contradiz recente declaração de Flávio Bolsonaro em entrevista à Globonews. Na ocasião, o candidato a presidente afirmou que “o último pagamento que ele fez […] foi em maio de 2025″.

Nikolas: jatinho e mineração
Outro que sai chamuscado dos recentes vazamentos de mensagens é o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Em mensagem de abril de 2024, publicada pela jornalista Juliana Dal Piva (ICL Notícias), Vorcaro afirma a um interlocutor: “Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele”.
Meses atrás, indagado sobre o uso de aeronave para deslocamentos durante o segundo turno da eleição de 2022, Nikolas Ferreira disse desconhecer que se tratava de propriedade de Daniel Vorcaro.
Em 10 de junho de 2026, o próprio Nikolas ironizou o fato durante debate na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados: “Pelo que eu saiba, a única coisa que tem para falar aqui de mim é ‘pegou voo no jatinho do Vorcaro’. Está com inveja, é? Está com inveja?”
Em áudio enviado por Nikolas Ferreira ao banqueiro, em março de 2025, o deputado pede diretamente a interferência de Vorcaro (a quem chama de “Dani”) para liberar “um ativo minerário” que estaria pendente no Banco Master.
De acordo com as investigações da PF, o escritório de um ex-assessor de Nikolas Ferreira. O advogado Thiago Faria, possuía contratos com uma empresa que opera na Serra do Curral (BH), investigada na Operação Rejeito. A PF apura irregularidades na mineração em áreas protegidas e tombadas – com lucros estimados entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões.
Em sua defesa, o deputado apresentou um laudo atribuído à PF que o isentaria de qualquer participação ou benefício no caso da Operação Rejeito. Mas a própria PF negou a autoria do documento divulgado nas redes sociais. (Fotos: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Revista Piauí, Intercept Brasil, ICL Notícias, Valor Econômico, CNN Brasil, UOL Notícias, O Estado de Minas, BBC Brasil, G1, Congresso em Foco.



