Henrique Acker – Uma avalanche azul varreu os republicanos na eleição de meio do mandato presidencial de Donald Trump. Um mosaico de cores, etnias e faixas etárias emergiu das urnas em 3 de novembro, com a vitória acachapante de um partido democrata que parece renovado.
Trump procurou explicar a derrota afirmando que não era o nome dele que estava na cédula eleitoral. No entanto, nos últimos comícios de campanha, o presidente pediu aos eleitores que votassem nos republicanos como se estivessem votando nele.
Em minoria na Câmara e no Senado, Trump será, provavelmente, o que os estadunidenses chamam de “pato-manco”, um presidente sem plenos poderes para governar. A derrota dos republicanos pode representar o início do declínio da extrema-direita em nível mundial.
Democratas socialistas em alta
Apesar de reconhecer a vitória dos democratas, Trump avisou que pode se tornar o “Mister Veto”, governando por decretos e ordens executivas contra as medidas da oposição no parlamento.
O governo de Trump expressa a política de seu grupo de extrema-direita, o “Make America Great Again” (Tornar a América Grande Novamente), que assumiu o comando do Partido Republicano nos últimos anos. O MAGA tem entre seus entusiastas dirigentes das maiores corporações privadas estadunidenses, em particular as grandes empresas de alta tecnologia.
Para dificultar a vida de Trump, entre os democratas eleitos há um grupo de 50 socialistas, entre deputados estaduais, federais e senadores. Entre eles Abdul El-Sayed, muçulmano de origem egípcia eleito senador pelo estado de Michigan.
Custo de vida elevado
A derrota do Partido Republicano pode ser atribuída a um fator chave: a alta do custo de vida nos EUA, que Trump prometeu baixar quando foi eleito presidente, em 2024.
A política de tarifaços contra produtos estrangeiros e a guerra contra o Irã atingiram em cheio o orçamento das famílias nos últimos dois anos. Os preços de diversos gêneros de primeira necessidade ficaram mais caros e o preço dos combustíveis bateu recorde.
De acordo com a plataforma Expatistan, os custos mensais médios de uma família nos EUA chegam a U$ 6.401, enquanto um cidadão gasta por mês U$ 3.613. Já o salário mínimo médio mensal varia de US$ 3.189,33 (Distrito de Columbia) a US$ 1.256,67 em 19 estados.
Na semana da eleição, um galão de gasolina (3,8 litros) atingiu mais de quatro dólares. A alta está diretamente ligada ao conflito armado com o Irã. A guerra, ainda sem definição, elevou os preços dos combustíveis para os estadunidenses e no mundo inteiro.

Bodes expiatórios
Outro aspecto que impactou o eleitor estadunidense foi a política de endurecimento com os imigrantes, principalmente os latinos. Eles formam uma comunidade de 70 milhões de pessoas, cerca de 20% da população dos EUA.
A tentativa do governo Trump de criminalizar os imigrantes e os métodos violentos do ICE não convenceram os estadunidenses, provocando protestos em diversas localidades. Os estados que concentram mais latinos são Califórnia (16,1 milhões), Texas (12,6 milhões), Flórida (6,7 milhões), Nova York (4,1 milhões), Illinois (2,5 milhões) e Novo México. Desses, nos quatro estados em que houve eleição este ano, o Partido Democrata saiu vencedor em três.
Relatórios e dados oficiais dão conta que cerca de 400 mil a mais de 460 mil imigrantes foram detidos ou registrados pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), de janeiro de 2025 a meados deste ano.
América Latina e os Bolsonaro
A partir de 2027, os democratas poderão definir a agenda legislativa, influenciar o orçamento federal e abrir investigações sobre o presidente, sua família e seus aliados. O Senado poderá bloquear indicados por Trump. O parlamento também pode estrangular as verbas para conflitos armados, como a guerra contra o Irã.
A eleição deste ano deve afetar a política do governo Trump para a América Latina. Secretário de Estado, Marco Rubio, é o encarregado de lidar com os países da região, a qual Trump trata como seu “quintal”.
Essa política foi determinante para o apoio e a vitória de candidaturas de extrema-direita nos últimos anos, com recursos financeiros e apoio das Big Techs. Um dos articuladores dessas campanhas, o argentino Fernando Cerimedo, está preso na Bolívia, depois de mandar assassinar sua ex-namorada.
Foi mal recebido pela opinião pública e a mídia estadunidense o acolhimento de Flávio Bolsonaro pela Casa Branca. Sua fuga do Brasil foi organizada por Jason Miller, ex-assessor direto de Trump e homem de confiança de Marco Rubio.
Uma investigação na Câmara ou no Senado pode complicar a vida dos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro. Sobretudo se os congressistas se debruçarem sobre as fontes de recursos que sustentam os dois nos EUA, com base nas investigações em curso pela Polícia Federal brasileira.
Bilionários dos dois lados
Um levantamento do The New York Times, revelou que os 20 maiores doadores de campanha investiram cerca de US$ 2 bilhões nessas eleições. O maior deles foi Elon Musk (dono da X, Grok IA e Starlink/Neuralink) que doou US$ 445,6 aos republicanos.
Empresários do Vale do Silício também apostaram suas fichas no partido de Trump, como Marc Andreessen e Ben Horowitz, investidores em alta tecnologia, com US$ 116,4 milhões. Greg e Anna Brockman, da Open AÍ, doaram US$ 50 milhões aos fundos de campanha dos republicanos.
O mesmo fizeram bilionários do setor de criptomoedas, como Ripple Labs e Chris Larsen (US$ 73,1 milhões) e os donos da Coinbase (US$ 55,3 milhões). Os irmãos Cameron e Tyler Winklevoss entraram com US$ 53,2 milhões. A eles se somou Paul Singer, lobista pró-Israel, que doou US$ 53,6 milhões a candidatos republicanos.
Do lado dos Democratas destacam-se os irmãos bilionários George e Alexander Soros (US$ 103,4 milhões), Michael Bloomberg, bilionário do setor de mídia/dados (US$ 84,8 milhões), e Reid Hoffman – co-fundador do Linkedin -, que doou US$ 41,8 milhões.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Nexo Jornal, Revista Fórum, InfoMoney, Universidade do Intercâmbio e portal expatistan.



