Brasília (Leia Passos) – O lançamento do Observatório da Agricultura Familiar traz para o debate econômico uma realidade que nem sempre recebe a devida atenção: a produção que movimenta o interior do país e sustenta parte importante da economia amazônica.
No Pará, os dados de setembro de 2026 mostram a dimensão dessa atividade e revelam mudanças no perfil de quem vive da terra, dos rios e da floresta. O cadastro reúne aproximadamente 236 mil unidades da agricultura familiar. Desse total, cerca de 228 mil estão em áreas rurais. Outras 3.560 aparecem em regiões periurbanas e 5 mil em áreas urbanas.
A distribuição mostra que a agricultura familiar não se limita às áreas rurais. Também está presente no entorno e dentro das cidades, com participação no abastecimento e na segurança alimentar.
A presença das mulheres jovens
A composição por gênero revela um dado que merece atenção. Os homens ainda são maioria nos registros: 196 mil, diante de 186 mil mulheres. Entre os jovens de 16 a 29 anos, porém, o quadro se inverte. São 35 mil mulheres cadastradas, contra 32 mil homens.
É uma diferença que chama a atenção porque aponta para uma mudança no perfil das novas gerações que ingressam na atividade.
O dado também levanta uma questão: o que o Pará oferece a essas jovens para que permaneçam no campo, assumam a gestão das propriedades e encontrem na agricultura uma perspectiva de renda e autonomia?
O levantamento mostra ainda a diversidade da produção familiar paraense. São 118 mil agricultores familiares tradicionais, além de registros de assentados, comunidades quilombolas e povos indígenas. Entre os grupos identificados estão aproximadamente 9,5 mil unidades quilombolas e 2,5 mil indígenas.
A economia dos rios e da floresta
A agricultura familiar no Pará não se resume ao cultivo da terra. A pesca artesanal e o extrativismo também têm peso nessa estrutura econômica.
Os dados apontam cerca de 51 mil unidades familiares ligadas à pesca artesanal e 35 mil relacionadas ao extrativismo.
São atividades diretamente associadas aos rios e à floresta, que exigem políticas públicas capazes de considerar as características econômicas e territoriais da Amazônia. Tratar essa produção como se seguisse o mesmo modelo de outras regiões do país significa ignorar parte importante da realidade paraense.
O avanço do Pronaf e os limites do crédito
Outro dado relevante é a evolução dos recursos contratados por meio do Pronaf, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar.
Com valores corrigidos pelo IPCA, a série histórica mostra que o crédito no Pará saiu de patamares entre R$ 90 milhões e R$ 170 milhões no início da década e chegou a valores próximos de R$ 1 bilhão em 2025.
A expansão representa maior presença do financiamento público na atividade. Mas o volume de recursos, por si só, não revela o resultado econômico dessa política.
A pergunta é quanto desse dinheiro se transforma em aumento da produção, melhoria da renda e acesso a novos mercados.
No Pará, o resultado do crédito também depende de fatores que estão fora da propriedade rural. Estradas em más condições, dificuldades de acesso à energia, assistência técnica insuficiente e distância dos centros consumidores continuam limitando a atividade.
Ampliar o financiamento é importante. Mas, sem enfrentar esses problemas, o dinheiro pode não produzir a mudança econômica que se espera dele.
Quem vai permanecer no campo?
A presença de mulheres jovens entre os novos cadastrados merece uma análise que vá além da estatística.
A agricultura familiar precisa renovar suas gerações. Para isso, não basta que os jovens permaneçam formalmente ligados à atividade. É necessário que encontrem condições para produzir, obter renda e construir projetos de vida no campo.
No caso das mulheres, o desafio envolve também acesso à terra, ao crédito, à assistência técnica, à tecnologia e aos espaços de decisão.
O número registrado pelo Observatório indica uma presença feminina importante entre os jovens. Resta saber se essa participação será acompanhada de oportunidades para que elas assumam efetivamente a condução dos empreendimentos familiares.
A parte da produção que não aparece
Há uma ressalva importante na leitura dos dados: o cadastro mostra a agricultura familiar formalizada. Não representa necessariamente toda a produção existente no Pará.
Em áreas distantes dos centros urbanos, a falta de documentação, o isolamento geográfico e a dificuldade de acesso aos serviços públicos podem deixar produtores fora dos registros oficiais.
Isso significa que uma parcela da economia rural pode continuar sem acesso regular ao crédito, à assistência técnica e aos programas governamentais.
O Observatório oferece informações importantes para conhecer esse universo. O passo seguinte é fazer com que elas orientem políticas públicas capazes de chegar também a quem ainda não aparece nas estatísticas.
O crescimento do Pronaf e a presença de mulheres jovens no cadastro são sinais relevantes. Mas o desenvolvimento da agricultura familiar paraense não será medido apenas pelo volume de crédito ou pelo número de produtores registrados.
A questão é saber se essa expansão está melhorando a vida de quem produz e criando condições para que as próximas gerações continuem vivendo da terra, dos rios e da floresta. (Foto: Reprodução)



