Pesquisa aponta vantagem de Lula entre indecisos após debate

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou o último debate presidencial de 2026 em vantagem na disputa pelos eleitores indecisos. Em uma pesquisa qualitativa realizada durante o confronto da TV Globo, cinco dos seis participantes que ainda não haviam definido o voto demonstraram maior inclinação a apoiar a reeleição do petista. O movimento foi impulsionado principalmente por declarações de Flávio Bolsonaro (PL) que provocaram reações negativas.

O levantamento foi conduzido pelo instituto Travessia, a pedido do jornal O Estado de S. Paulo, durante o debate realizado na sexta-feira (23). Segundo a reportagem, o senador acumulou avaliações desfavoráveis, sobretudo ao comentar a morte de uma criança e ao fazer uma provocação sobre a deficiência física de Lula. Embora nenhum dos candidatos tenha conquistado o entusiasmo generalizado dos participantes, o presidente se beneficiou dos deslizes do adversário.

A pesquisa reuniu 12 eleitores de São Paulo: seis indecisos, três apoiadores de Lula e três eleitores de Flávio. O grupo acompanhou o debate em uma residência na Vila Mariana, zona sul da capital, e avaliou as falas dos candidatos em tempo real. Cartões verdes indicavam aprovação, amarelos representavam neutralidade e vermelhos expressavam reprovação.

Ao final, cinco dos seis indecisos demonstraram maior disposição para votar em Lula. Uma participante continuou sem preferência definida. Entre os eleitores que já apoiavam um dos candidatos, não houve mudança de posição.

O cientista político Renato Dorgan, responsável pelo levantamento e CEO do Travessia, atribuiu o resultado principalmente ao desempenho do senador.

“Os eleitores de Lula e de Flávio ficaram imóveis, enquanto os indecisos, em sua maioria das classes C e D, se inclinaram para Lula. Mas não por mérito do presidente, mas, sim, pelos erros de Flávio, sobretudo no episódio da menina Ana Clara. Mas ninguém disse que Lula foi bem. Ele não ganhou o debate. Flávio foi quem perdeu”, afirmou.

 

Morte de criança provoca reação negativa contra Flávio

Um dos momentos mais desfavoráveis ao senador ocorreu durante a discussão sobre a morte de Ana Clara Gomes Machado, atingida por um disparo de fuzil que teria partido de um policial cuja atuação Flávio Bolsonaro havia defendido anteriormente como advogado.

Ao comentar o caso, o candidato confundiu o nome da mãe da criança com o da própria vítima. O equívoco provocou reprovação praticamente unânime entre os participantes que não apoiavam o senador.

“Ai, meu Deus, não sabe nem quem é”, reagiu uma eleitora. Outro participante afirmou que Flávio “não tem empatia nenhuma” pela criança.

Entre os indecisos, a reação foi particularmente intensa. Uma participante manteve o cartão vermelho levantado durante toda a manifestação do senador, demonstrando insatisfação com a maneira como ele abordou o episódio.

O assunto voltou espontaneamente à conversa após o encerramento do debate. Uma eleitora que continuou indecisa afirmou que esperava uma justificativa baseada no exercício profissional de Flávio como advogado, mas considerou a resposta decepcionante.

“Eu esperava que ele fosse falar que estava exercendo a profissão dele. Quando ele errou o nome, ficou claro que ele não se importa”, declarou.

 

Provocação sobre os “nove dedos” também pesa contra o senador

Outro episódio que prejudicou Flávio ocorreu quando ele chamou Lula de “nove dedos”, em referência à amputação sofrida pelo presidente após um acidente de trabalho na juventude.

A provocação inicialmente provocou risadas entre os participantes. A percepção mudou quando Lula respondeu lembrando que perdeu o dedo aos 17 anos, enquanto trabalhava.

A resposta do presidente recebeu avaliações positivas de quase todo o grupo, inclusive de participantes que não pretendiam votar nele.

Entre os indecisos, um eleitor classificou a provocação como uma “brincadeira desnecessária”. Outro considerou a fala um “desrespeito com os trabalhadores e pessoas com deficiência”.

Até uma eleitora favorável ao senador criticou sua postura, classificando a ofensa como “chata” e a resposta de Lula como “interessante”.

O pedido de desculpas apresentado posteriormente por Flávio não foi suficiente para eliminar a impressão negativa deixada entre os indecisos e os apoiadores do presidente.

Para Renato Dorgan, a reação está ligada à memória das famílias trabalhadoras da região metropolitana de São Paulo.

“Na Grande São Paulo, há uma memória forte de pais e avós que trabalharam no chão de fábrica. A fala de Flávio poderia ter passado como piada, mas, quando Lula lembrou do acidente de trabalho, o episódio ganhou uma dimensão considerável”, explicou.

 

Lula recebe mais avaliações positivas

O balanço das manifestações registradas durante o debate também favoreceu o presidente. Lula recebeu mais cartões verdes e menos cartões vermelhos do que o senador.

Nas avaliações positivas, Lula abriu uma vantagem de 21,62 pontos percentuais sobre o adversário.

A pesquisa também identificou comportamentos distintos entre os eleitores já alinhados às candidaturas. Os três apoiadores de Flávio apresentaram cartões vermelhos em todas as avaliações de Lula. O senador, por outro lado, chegou a receber manifestações positivas de participantes que declaravam voto no petista.

Entre os momentos mais bem avaliados do presidente estiveram a defesa dos investimentos governamentais no agronegócio e a resposta à provocação sobre o acidente de trabalho. Em ambas as ocasiões, Lula recebeu nove avaliações positivas.

Flávio também teve momentos de aprovação. Sua defesa da cooperação com governadores nordestinos para enfrentar o crime organizado recebeu nove cartões verdes.

O senador ainda foi bem avaliado ao apresentar propostas para o Sistema Único de Saúde (SUS) e defender a redução da maioridade penal. A proposta de estabelecer o limite em 14 anos, porém, foi considerada excessiva por parte dos participantes.

 

Indecisos veem mais experiência em Lula e despreparo em Flávio

A percepção de que Lula demonstrou maior domínio dos assuntos discutidos também apareceu nas avaliações dos eleitores que chegaram ao debate sem preferência definida.

Parte dos participantes criticou Flávio por apresentar respostas superficiais, evitar determinados questionamentos e não explicar suficientemente os resultados de sua atuação parlamentar.

“Lula mostra mais conhecimento, tem mais experiência. O Flávio é a sombra do pai dele. Ele está no debate e não fala nada do que fez”, afirmou um dos indecisos.

Outro participante questionou a insistência do senador na segurança pública, inclusive diante de perguntas sobre outros temas.

“Claro que está todo mundo insatisfeito com a violência, mas ficar falando o tempo todo disso e não responder sobre as outras coisas mostra um despreparo.”

Na avaliação de parte do grupo, Lula apresentou propostas mais concretas e demonstrou maior familiaridade com os desafios administrativos do país. Flávio, em contrapartida, foi considerado mais superficial em comparação com o presidente.

O resultado sugere que, entre os indecisos ouvidos, o debate não produziu uma vitória por aclamação de Lula. O movimento ocorreu sobretudo pelo desgaste de Flávio. Na síntese do responsável pela pesquisa, o presidente não ganhou o confronto pelo brilho próprio: foi o adversário quem perdeu terreno. (Foto: O Globo)

Por Opinião  em Pauta com informações do Estadão

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