O cofundador da Microsoft e filantropo bilionário Bill Gates defendeu que os Estados Unidos assumam a liderança na regulamentação da inteligência artificial (IA), mas reconheceu que construir um acordo internacional sobre o tema poderá ser ainda mais difícil do que as negociações realizadas durante a Guerra Fria para limitar as armas nucleares.
“Isso é mais difícil do que aquilo foi”, afirmou Gates em entrevista ao programa Meet the Press, da NBC News, exibida neste domingo.
A declaração ocorreu durante uma discussão sobre a posição do presidente Donald Trump, contrário à criação de novas regras federais para as empresas que desenvolvem sistemas de IA. No início deste mês, Trump rejeitou propostas para estabelecer salvaguardas para o setor e afirmou, em uma publicação na Truth Social, que “quem vencer a IA, vence”.
Gates, porém, argumentou que a adoção de mecanismos de controle não colocaria os Estados Unidos em desvantagem na disputa tecnológica com a China. Para ele, é possível combinar o avanço da tecnologia com medidas capazes de reduzir seus riscos.
“O que ele disse está certo, mas acho que, depois que ele ouvir de mim e de outras pessoas que isso não nos prejudica nessa disputa entre nações que ele considera importante, vamos chegar a um consenso”, afirmou.
O empresário citou ainda momentos em que os Estados Unidos lideraram esforços internacionais para estabelecer acordos destinados a proteger a humanidade.
Risco de uso mal-intencionado
As preocupações em torno da inteligência artificial ganharam força nas últimas semanas, especialmente após declarações de pesquisadores e executivos do setor sobre os riscos associados ao avanço acelerado da tecnologia.
Jacob Coxon, ex-pesquisador da Anthropic, afirmou publicamente que profissionais envolvidos no desenvolvimento de IA acreditam que a tecnologia poderá representar uma ameaça extrema à humanidade ainda nesta década.
Na sequência, Dario Amodei, CEO da Anthropic, e Sam Altman, CEO da OpenAI, reconheceram a necessidade de discutir limites para o desenvolvimento da tecnologia diante da possibilidade de sistemas alcançarem níveis de capacidade muito superiores aos humanos.
Amodei defendeu que as empresas responsáveis pelos modelos mais avançados desacelerem o desenvolvimento apenas até o ponto em que os Estados Unidos continuem à frente da China. Ele também propôs uma coordenação internacional entre governos de diferentes regimes políticos para estabelecer regras para a IA.
Na entrevista à NBC, Gates foi ainda mais direto sobre os riscos imediatos.
“A IA é certamente poderosa o suficiente para desencadear eventos que causem um bilhão de mortes”, afirmou. Segundo ele, o principal perigo no momento não está necessariamente em uma futura superinteligência, mas no uso da tecnologia por pessoas mal-intencionadas.
Gates citou como exemplos ataques cibernéticos, fraudes, interrupções de redes elétricas e manipulação de sistemas financeiros.
“Agora, pequenos grupos com IA podem fazer coisas que antes só os maiores países conseguiam fazer”, disse.
Para o empresário, a combinação entre indivíduos dispostos a causar danos e ferramentas de inteligência artificial cada vez mais poderosas representa uma ameaça que exige medidas preventivas dos governos.
Monitoramento como salvaguarda
Gates defendeu que laboratórios de inteligência artificial adotem sistemas permanentes de monitoramento capazes de acompanhar o comportamento das ferramentas desenvolvidas.
“As autoridades policiais serão chamadas para lidar com todos esses casos de fraude ou eventos de interrupção de redes. E a capacidade delas de ver o que está acontecendo será praticamente nula, a menos que o monitoramento e as salvaguardas estejam incorporados à IA”, afirmou.
Ele destacou que a criação desses mecanismos não necessariamente exigiria uma interrupção no desenvolvimento da tecnologia.
Para Gates, existe uma diferença entre desacelerar a evolução da IA e simplesmente incorporar sistemas de segurança aos modelos que já estão sendo desenvolvidos.
“Decidir incluir salvaguardas e monitoramento é uma escolha que podemos fazer. E a única questão é: fazemos isso antes ou depois de ocorrerem grandes ataques cibernéticos ou biológicos?”, questionou.
O empresário também rejeitou a ideia de que um simples botão de desligamento seria suficiente para controlar sistemas avançados de inteligência artificial.
“Não basta ter um botão de desligamento”, afirmou. Segundo Gates, para impedir comportamentos inadequados é necessário ter acesso ao que os sistemas estão fazendo e manter registros dessas atividades.
Para ele, portanto, o desafio colocado pela inteligência artificial não se resume à capacidade tecnológica. A questão central será estabelecer mecanismos de controle capazes de acompanhar o poder crescente dessas ferramentas antes que seu uso provoque danos em larga escala. (Foto: Reuters)
Por Opinião em Pauta com informações da Reuters



