Lavanderia do PCC circula de ônibus pelas ruas de São Paulo

Henrique Acker –  Mais de 40% dos passageiros transportados diariamente por ônibus na cidade de São Paulo usam as frotas de empresas ligadas ou controladas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). De 178 mil embarques, 73 mil paulistanos circularam no sistema de transportes do PCC em agosto deste ano. Ao todo são 510 linhas de ônibus municipais.

É o que revela a apuração do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil, que deflagrou a Operação Vectura Corrupta (Condução Corrupta), na quinta-feira, 17 de setembro.

Entre os presos está Levi dos Santos Oliveira, ninguém menos que o ex-presidente da Secretaria de Transporte de S. Paulo (SPTrans). Outro seriamente implicado é o ex-presidente da Câmara Municipal, o ex-vereador Milton Leite (União Brasil) por 27 anos consecutivos.

 

Ex-vereador continua influente

Embora Milton Leite negue, a investigação que deu origem à Operação Vectura Corrupta concluiu que ele é o dono da viação Transwolf Transportes, responsável pelas linhas de ônibus na Zona Sul da Capital paulista.

Sem mandato desde 2024, Milton Leite segue atuando como presidente de seu partido e influenciando a escolha de nomes na política paulistana. É o caso do atual presidente da Câmara, Ricardo Teixeira, também filiado ao União Brasil. Os dois filhos de Leite são candidatos a deputado na coligação que apoia à reeleição de Tarcísio de Freitas.

Milton Leite se entregou à polícia na tarde de 18 de setembro. Nas buscas em imóveis ligados a Leite e seus ex-assessores em Sorocaba (interior de SP) a polícia apreendeu cerca de R$ 287 mil e US$ 89 mil.

 

Elo com o PCC

As investigações começaram em 2023, com a detenção de um integrante do PCC flagrado em casa com uma carga de drogas. A partir da apreensão de celulares dos envolvidos foi possível detectar nomes de outros membros da facção criminosa, até chegar ao esquema das empresas de ônibus.

Entre as pessoas levadas como testemunhas estava a esposa de Andinho, um dos cabeças do PCC, o que levou a polícia a identificar um primeiro esquema de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, utilizando empresas e fintechs para esconder a origem dos recursos.

Mais a frente, também pela apreensão de celulares, foi revelada a existência do grupo “Sintonia dos Gravatas”, encarregado de dar assistência jurídica e defender os interesses legais do PCC.

Com a prisão e a apreensão dos celulares de posse de um dos chefes desse setor, a polícia chegou a compra da refinaria FANAL, além de suspeitas de financiamento de candidaturas em eleições e contatos no setor de transporte coletivo.

A Polícia Civil apreendeu o celular de José Daniel Satilite em julho de 2025. A partir das mensagens e ligações do aparelho, ficou evidente o elo do PCC com empresas de ônibus urbanos. Numa das conversas com um advogado do grupo, José Daniel enviou uma lista com as 12 empresas controladas pela facção, às quais se referia como “nossas”.

 

Lavanderia de dinheiro

Os investigadores cruzaram a lista do PCC com os dados da SPTrans, confirmando a existência das companhias e passaram a investigar seus respectivos donos e acionistas. Ao todo, são 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão entre São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.

“Salta aos olhos que as investigações apontam que 12 das 22 empresas de transporte operando o sistema de transporte coletivo da capital são, em tese, controladas pelo PCC”, concluiu o desembargador Sérgio Ribas no despacho que autorizou a operação da polícia.

Em análise para o G1, o professor Ciro Biderman  (FGV) conclui que o uso de empresas de ônibus é parte de uma cadeia de lavagem de recursos obtidos ilegalmente e em espécie pelo PCC.

“Lavar dinheiro exige uma formalização. Se ele não tem uma parte lícita, o dinheiro teria que ficar o tempo inteiro em espécie (…) Por isso, a lavagem sempre vai passar por um grupo formal”.

 

“Parceiro” de Tarcísio e do Prefeito

O governador Tarcísio de Freitas foi questionado pela imprensa sobre os elogios que fez a Milton Leite e à família do ex-vereador em 30 de agosto, no lançamento das candidaturas dos filhos do aliado, Alexandre Leite e Milton Leite Filho.

“Assim que nós chegamos em São Paulo, nós fomos abraçados por eles, uma parceria enorme, e o tempo todo eu vi a preocupação com as pessoas. Gente que gosta da gente, gente que gosta de vocês”, disse o candidato à reeleição na ocasião em relação à família Leite.

Indagado por jornalistas, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) lamentou o episódio. Nunes disse que tinha “muito respeito pela história” e pela trajetória de Leite, afirmando que cabe a ele provar sua inocência.

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do G1, UOL Notícias, Metrópoles, InfoMoney e CNN Brasil. 

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