Itauna/Itatá: da disputa territorial à crise internacional

OP Brasília — O que começou como uma controvérsia territorial no Médio Xingu ganhou uma dimensão internacional de direitos humanos. A Terra Indígena Ituna/Itatá, no Pará, tornou-se o centro de uma disputa que envolve ocupações, proteção de indígenas isolados, legislação ambiental, fiscalização federal e agora a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

A área, com aproximadamente 142,4 mil hectares, é interditada pela Funai desde 2011 devido a registros da presença de indígenas isolados. A entrada, permanência e circulação de pessoas não autorizadas são proibidas.

Seis organizações — Opi, Justiça Global, Cimi, Coiab, Movimento Xingu Vivo Para Sempre e AIDA — recorreram à CIDH e pediram uma resposta urgente diante do avanço das ocupações.

 

A lei que mudou o cenário

No centro da controvérsia está a criação da Área de Proteção Ambiental Bacajaí, nos municípios de Altamira e Senador José Porfírio.

O PL nº 461/2026, de autoria do deputado estadual Torrinho Torres (Republicanos), criou a unidade de conservação com 142,4 mil hectares. Segundo as organizações, o perímetro da APA coincidiria com o da Terra Indígena Ituna/Itatá.

A preocupação das entidades é que a nova legislação possa produzir efeitos sobre a regularização fundiária e ambiental dentro de uma área destinada à proteção de indígenas isolados.

 

O avanço das ocupações

Segundo informações encaminhadas à CIDH, cerca de 100 pessoas foram encontradas acampadas às margens do Igarapé Ituna, acompanhadas de motocicletas e veículos. Outros cerca de 200 ocupantes estariam avançando para o interior da área.

As entidades estimam aproximadamente 300 pessoas envolvidas na ocupação e relatam ameaças a servidores da Funai.

A situação é considerada especialmente sensível porque qualquer aproximação pode representar riscos graves para indígenas isolados, cuja proteção depende justamente da manutenção do isolamento.

 

O problema que chegou ao Brasil

O caso expõe uma questão que vai além da disputa fundiária: a capacidade do Estado brasileiro de transformar uma política de proteção em proteção efetiva no território.

A Amazônia possui enorme valor ambiental e simbólico internacional. Quando uma área destinada à proteção de indígenas isolados passa a registrar ocupações e conflitos, a questão pode afetar a percepção sobre a capacidade do Brasil de cumprir seus compromissos ambientais e de direitos humanos.

A pergunta que emerge é simples e incômoda: se a área deveria estar protegida, por que a ocupação conseguiu avançar?

A resposta exigirá mais do que novas leis ou operações. Será necessário demonstrar coordenação institucional, segurança jurídica, transparência e resultados concretos.

O caso foi incorporado à discussão da Medida Cautelar MC-382/10 durante o 196º Período Ordinário de Sessões da CIDH, em 18 de agosto.

Agora, a Ituna/Itatá se tornou um teste para o Estado brasileiro.

Porque, na Amazônia, a credibilidade de uma política pública não é medida apenas pelo que está escrito na lei , mas pela capacidade de fazer a proteção acontecer no território.

Redação Opinião /  Fonte : Dados do CIMI

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