O porto de Miramar, localizado em Belém (PA), está prestes a ganhar o BEL1, o pioneiro data center dedicado à Inteligência Artificial na Amazônia. Este empreendimento é iniciativa da Elea Data Centers. A obra já tem gerado preocupações a respeito dos potenciais efeitos ambientais e sociais na localidade.
No mês de julho deste ano, o Ministério Público do Pará abriu um inquérito civil para investigar a conformidade legal do projeto e os impactos potenciais na cidade de Barcarena.
Conforme um estudo preliminar conduzido pela 1ª Promotoria de Justiça de Barcarena, as infraestruturas de data centers situadas em diferentes regiões já têm sido objeto de investigações e reclamações sobre possíveis consequências sociais e ambientais.
Dentre os aspectos mencionados, destaca-se o aquecimento das áreas ao redor das instalações, o que pode levar à criação de “ilhas de calor”, assim como o elevado uso de água em certos sistemas de climatização. Além disso, a grande demanda por eletricidade e os potenciais efeitos sobre a qualidade de vida das populações locais também são preocupações relevantes.
Um data center de IA é uma instalação física projetada para abrigar milhares de equipamentos de alto desempenho, como GPUs e outros chips especializados. Essas estruturas são utilizadas para treinar, executar e atualizar modelos avançados de Inteligência Artificial. Na prática, os data centers processam grandes volumes de dados e fornecem a capacidade computacional necessária para o funcionamento de ferramentas de IA.
Os riscos para a Amazônia
A instalação de um data center na Amazônia levanta preocupações específicas por causa das características ambientais da região. Entre os principais pontos de atenção estão o consumo de água, a demanda energética, o aumento da temperatura local e os possíveis impactos sobre as comunidades do entorno.
O analista de Clima e Meio Ambiente da CNN, Pedro Côrtes, explica que os data centers de IA são empreendimentos intensivos em infraestrutura, que demandam muita energia, geram grandes volumes de calor e podem produzir impactos relacionados ao uso de água. “Na Amazônia, essa avaliação precisa ser ainda mais cuidadosa. Não basta analisar apenas o terreno ocupado pelo empreendimento. É necessário considerar os efeitos sobre os ecossistemas e sobre as populações que vivem no entorno, inclusive os impactos acumulados com outras atividades já existentes”, afirmou.
O uso de água é uma das questões frequentemente associadas à operação de grandes data centers, principalmente em sistemas de refrigeração que utilizam processos evaporativos.
Em áreas com disponibilidade hídrica limitada, esse consumo pode gerar uma competição adicional pelo recurso, inclusive com o abastecimento da população e outras atividades econômicas. No caso do BEL1, entretanto, há uma diferença importante. A Elea informa que o empreendimento utilizará refrigeração por expansão direta, conhecida como sistema DX, em circuito fechado e sem torres evaporativas. Segundo a empresa, portanto, não haverá consumo de água no processo de resfriamento.
Infraestrutura elétrica
Outro ponto de atenção é a quantidade de energia necessária para manter a infraestrutura em funcionamento. Segundo Côrtes, trata-se de uma demanda elevada, concentrada e contínua. Por isso, não basta verificar se existe energia disponível na região. É necessário avaliar se a infraestrutura elétrica local está preparada para receber uma carga desse porte sem comprometer a confiabilidade do sistema.
“A demanda é elevada, concentrada e contínua. Por isso, não basta saber se existe energia disponível na região, mas é preciso avaliar se a infraestrutura elétrica regional está preparada para receber uma carga desse porte sem comprometer a confiabilidade do sistema”, afirma.
A geração de calor também é um aspecto que precisa ser considerado. Grandes edificações, áreas pavimentadas e eventual redução da cobertura vegetal podem modificar o balanço térmico da região. Isso, porém, não significa que necessariamente haverá uma “ilha de calor” significativa no entorno do projeto.
Segundo o especialista, o ideal seria estabelecer uma linha de base da temperatura antes da instalação e continuar acompanhando o microclima durante a operação. Dessa forma, seria possível verificar objetivamente se o empreendimento está alterando as condições térmicas do entorno.
Impactos acumulados
Para Côrtes, um empreendimento dessa dimensão precisa ser analisado como um sistema, e não apenas como um prédio que abriga computadores. É necessário avaliar a demanda por energia e a capacidade da rede elétrica, além de acompanhar a dissipação de calor e seus possíveis efeitos sobre o microclima. Também devem ser considerados aspectos como ruído, vibrações, impermeabilização e drenagem do solo.
A análise deve incluir ainda os impactos acumulados sobre os ecossistemas e as comunidades próximas. Dessa forma, a avaliação dos possíveis impactos do BEL1 deve considerar não apenas a estrutura física do data center, mas também a infraestrutura necessária para sua operação e os efeitos que podem se estender para além dos limites do empreendimento.
Na imagem destacada, vista feita de drone, desde a Ilha do Combu, com a cidade de Belém ao fundo, onde ocorreu a COP30 (Foto: Alex Ferro/COP30)
Por Opinião em Pauta com informações da CNN


