O Rio de Janeiro continua “lindo”?

Henrique Acker – É comum ouvir dos cariocas e dos turistas que visitam o Rio elogios à beleza da cidade: “O Rio é lindo”, dizem. Mentira? Não, certamente que não. O conjunto de acidentes geográficos que cerca a cidade – praias, montanhas e a Baía de Guanabara – de Santa Cruz até a Ilha do Governador, é um espetáculo belíssimo aos olhos de qualquer um.

Mas como vivem os cariocas? A cidade deveria ser um conjunto urbanístico de serviços e atividades funcionando com algum grau de planejamento, harmonia e eficiência, de forma a atender minimamente às necessidades de sua população. No entanto, caminhando pelas ruas e avenidas é possível perceber o abandono.

Desde o governo Marcello Alencar/FHC o Rio – antiga capital do país e hoje capital do Estado do Rio de Janeiro – virou o laboratório das privatizações e do “Estado mínimo”. Tudo foi entregue a empresas concessionárias, que não sofrem qualquer fiscalização eficaz e praticamente não são punidas. Essa política teve efeito devastador em todo o Estado e também na capital.

 

Carioca paga caro e vive mal

O relatório de compra e venda do terceiro trimestre de 2025 da imobiliária Quinto Andar informa que o preço do metro quadrado na Zona Sul da cidade era de R$ 10.555,60. Na Zona Norte, o metro quadrado chegava a R$ 4.342,30.

O valor do aluguel também segue preços elevados. O mesmo Quinto Andar apresenta estudo do primeiro trimestre de 2025 em que o metro quadro mais caro na cidade está no Leblon (R$105,00), seguido por Ipanema (R$ 92,00). Na média, de acordo com levantamento, o preço médio do metro quadrado para aluguel no Rio é de R$ 45,50.

O Mapa Histórico dos Grupos Armados (2025), estudo produzido pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado, aponta que milícias e facções já controlam ou influenciam 31% da cidade.

Um terço da população está fora da cidade “maravilhosa”, residindo em favelas sem qualquer infraestrutura. Outra parte mora nos bairros populares da Zona Oeste, muitos sem tratamento de esgoto, sem pavimentação de ruas, sem serviços básicos e sem transporte direto até as suas casas.

A chamada classe média baixa sobrevive em bairros largados à própria sorte, sobretudo na Zona Norte e Região da Leopoldina. O Centro da Cidade também se transformou em terra de ninguém, esvaziado desde a pandemia, sujo, mal cuidado, um verdadeiro circo mambembe, sem um projeto efetivo de recuperação.

Nas áreas que concentram a maioria da população carioca, impera a lei do mais forte. Numa negociação entre o Estado e os grupos criminosos, divide-se o botim dos “serviços” cobrados aos moradores, que deveriam ser de responsabilidade das administrações municipal e estadual ou fiscalizados pelo poder público.

 

“Serviços” terceirizados ao crime

Exploração de moradia, transporte alternativo, comunicação (internet e gatonet), segurança (privada), abastecimento de gás (botijão) e estacionamento estão nas mãos do tráfico de drogas e das milícias. Esses grupos criminosos operam em total liberdade, num pacto com o Estado, rendendo dividendos financeiros e políticos aos administradores públicos.

A participação ativa de facções de tráfico de drogas e milícias já atingiu os três poderes no Estado. Que o diga a Polícia Federal, que desse 2024 mapeou a relação de metade dos atuais deputados estaduais com organizações criminosas.

As recentes detenções de deputados e o afastamento do ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado são provas contundentes da presença de grupos criminosos na máquina do Estado.

Sem falar nas suspeitas de relações entre o ex-governador e as milícias. Por sinal, o pai do candidato a governador do mesmo grupo – atual prefeito de São Gonçalo e também policial – encabeçava a lista do relatório da CPI das Milícias, de 2008.

 

Cidade privatizada

Donde se conclui que o “Rio lindo” é um cartão postal que atende a uma ínfima minoria de seus cidadãos, que vivem em parte da Barra da Tijuca, São Conrado, bairros da Zona Sul e algumas ilhas de prosperidade.

São justamente essas regiões que as quadrilhas dos engravatados da especulação das áreas mais ricas comandam. E o fazem contando com a Prefeitura, que vende a imagem da cidade promovendo mega shows com dinheiro público e facilita a entrega de terrenos valorizados à exploração das empreiteiras e imobiliárias.

O governo Eduardo Paes (também candidato a governador) encaminhou à Câmara de Vereadores projetos como o PL 93/2025, visando a venda de mais de 300 imóveis considerados “ociosos” ou subutilizados, sob a alegação de gerar receitas para o Fundo Especial de Previdência do Município (Funprevi).

Um estudo apresentado em março deste ano pelo Labá – Direito e o Espaço & Política e o NAJUP Luiza Mahin, grupos de pesquisa e extensão vinculados à Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, relaciona os 324 terrenos e sua destinação na cidade.

 

 

São praças, jardins, pontos de cultura, áreas próximas de bens tombados pelo Patrimônio Histórico, imóveis usados para moradia no Centro, terrenos próximos de áreas de praia, dentre outros. Estão localizados nas cinco Áreas de Planejamento da cidade (ver tabela acima).

O artigo 437 da Lei Orgânica do Município prevê que as terras públicas municipais não utilizadas ou subutilizadas serão prioritariamente destinadas a assentamentos de população de baixa renda e à instalação de equipamentos urbanos de uso coletivo.

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do Laba-UFRJ, Creditas, QuintoAndar, Correio Braziliense e Outras Palavras.

 

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