Baixa renda e pressa: a conta alta dos acidentes de moto

Henrique Acker – Cerca de 40% das mortes no trânsito em cidades e estradas brasileiras são em decorrência de acidentes com motocicletas. São 33 óbitos por dia, perfazendo um total de 15 mil por ano. Os dados são do DataSUS e escancaram um problema que está fora de controle em todo o país.

Em 71% dos municípios, os acidentes de trânsito matam mais do que as armas de fogo. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Antônio Meira Júnior, o acidentado em moto “tem 17 vezes mais chance de morrer se tivesse sofrido um acidente dentro de um automóvel”.

Em sete anos foram registrados 2,5 milhões de casos de invalidez permanente no Brasil, provocados por acidentes com motocicletas. O número é da Seguradora Líder, que administrava o DPVAT, seguro obrigatório do trânsito, e contabiliza as indenizações pagas por invalidez permanente entre 2008 e 2015.

 

Esgotamento físico e maior velocidade

Os motoboys apontam a pressão por velocidade e a urgência imposta por clientes, aplicativos e pela necessidade de renda como as maiores causas de acidentes. A longa jornada diária de trabalho sob forte tensão gera exaustão mental e física, reduzindo o tempo de reação a imprevistos, relatam os motoqueiros profissionais.

Ruas esburacadas e esgotamento físico são os principais gatilhos para as colisões e quedas diárias. A troca de faixa sem sinalização por motoristas de carros também é um dos maiores motivos de acidentes com motos nas cidades. 

Uma pesquisa qualitativa realizada pela Escola de Enfermagem da UFRGS com motoboys de Porto Alegre, em 2024, aponta a competição entre empresas de vendas por encomendas como um dos fatores que mais estimulam a velocidade no trânsito, causando acidentes.

 

Cirurgias e internações lotam hospitais

As vítimas de acidentes com motos são quase sempre jovens trabalhadores (89% são homens), na faixa de 20 a 39 anos. A maioria trabalha como entregador no comércio, para plataformas de vendas ou como mototaxista. Quando não vão a óbito, os feridos sofrem lesões graves e podem ficar com sequelas.

No ano de 2024 as internações envolvendo motociclistas custaram ao Sistema Único de Saúde (SUS), mais de R$ 257 milhões. O custo para a recuperação de um acidentado nos hospitais públicos chega a cerca de R$ 60 mil por mês.

“Isso não é nada perto de uma vida que está totalmente desestruturada, com uma família que precisa de ajuda”, destaca o professor doutor André Sugawara, do Hospital das Clínicas da USP. Em São Paulo, mais de 40 mil pessoas foram internadas, só em 2025, em hospitais públicos, vítimas de acidentes de trânsito envolvendo motos.

 

Cresce serviço de mototaxistas

No Rio, o problema pressiona hospitais e lota emergências e atinge principalmente jovens. É o que alerta o doutor Carlos Neves, Coordenador do serviço de ortopedia do Hospital Estadual Alberto Torres (HEAT), em São Gonçalo.

“No HEAT, realizamos cerca de 500 cirurgias por mês em ortopedia, entre emergenciais e eletivas. Aproximadamente 70% delas são decorrentes de acidentes de moto”, atesta o médico.

Segundo Neves, são aproximadamente 4.800 cirurgias por ano em decorrência de acidentes com motocicletas. “Um cenário de guerra, com uma geração inteira, entre 16 e 30 anos, sendo afetada. Essas lesões deixam sequelas, com impactos na vida pessoal e profissional”, disse.

De acordo com pesquisa da COPPE/UFRJ, 77% das ocorrências de trânsito registradas na capital fluminense envolvem motocicletas. Isso representa a média de um acidente a cada 25 minutos. 

O levantamento constatou a migração de passageiros de ônibus para os serviços de mototáxis, em função do tempo de espera e a demora das viagens do transporte coletivo na cidade.

A avaliação de especialistas em mobilidade urbana é que a explosão no uso de motos também revela falhas estruturais no sistema de transporte urbano.

 

Venda de motos bate recorde

Se nas cidades o número de mortos e feridos em acidentes com motos cresce ano a ano, nas estradas as estatísticas também confirmam a tragédia. De acordo com dados da Polícia Rodoviária Federal, em 2023, 28.245 motociclistas ficaram feridos, sendo que 8.253 em estado grave. Uma média de 77 feridos por dia nas rodovias federais.

Desde 2021, o mercado de motocicletas zero-quilômetro tem crescido, em média, 19% ao ano. O aumento do número de motocicletas em circulação se explica não apenas pelo crescimento da produção, mas pelo custo/benefício. 

O preço de uma moto zero quilômetro é muito menor que o de um carro novo, a manutenção é mais barata, a circulação costuma ser mais fácil e, em muitos casos, ela pode se transformar em instrumento de trabalho.

Em 2025, o setor bateu recorde com cerca de 2,2 milhões de unidades vendidas, superando pela primeira vez a venda de automóveis novos no país. A compra pelo sistema de consórcio já responde por 35,5% das compras de motos zero no Brasil. (Foto: Reprodução)

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de G1, Observatório Nacional de Segurança Viária, Diário do Rio, Diário da Guanabara, CNT, pesquisa COPPE/Semove e pesquisa “Os riscos dos acidentes de trânsito na perspectiva dos motoboys: subsídios para a promoção da saúde” (Escola de Enfermagem UFRGS).

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