Henrique Acker – As contratações de estrelas do sertanejo, axé, pagodão, forró e piseiro não exigem licitação e consumiram, só em 2024, cerca de R$ 3,5 bilhões dos cofres de Prefeituras, governos estaduais e emendas parlamentares. São as conclusões do estudo “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, do Observatório do Agronegócio.
Já os investimentos em projetos culturais via Lei Rouanet – captados junto a empresas privadas que recebem em troca isenções fiscais – geraram retorno financeiro em 2024. É o que revela um estudo divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para cada real aplicado em projetos com apoio da Lei Rouanet, a economia brasileira teve um aquecimento de R$ 7,59 e a arrecadação de impostos rendeu R$ 1,39.
Muita dinheiro público para poucos
A pesquisa do Observatório do Agronegócio, publicada em 1 de julho, tomou como base mais de 20 mil contratos com 250 bandas e artistas, através do Plano Nacional de Contratações Públicas (PNCP).
A constatação da equipe que coordenou a pesquisa é que em shows realizados nos anos de 2024, 2025 e no início de 2026, as cem bandas mais contratadas receberam, cada uma, pelo menos R$ 25 milhões de prefeituras e governos estaduais. Ao todo, o valor do top 100 dos artistas que passaram por estes eventos ultrapassa os R$ 5 bilhões no período.
A investigação revelou que a concentração de recursos públicos é ainda maior num grupo de cinco produtoras, que receberam R$ 2,42 bilhões — quase metade do valor obtido pelo top 100. Entre as que mais arrecadam estão as de Wesley Safadão (Camarote Shows) e Xande Avião (Vybbe).

Esse montante considera apenas artistas que receberam pelo menos R$ 10 milhões cada em verbas de prefeituras e governos estaduais. Oito dos dez artistas mais contratados estão ligados a essas cinco produtoras e também são patrocinados por casas de apostas digitais, as bets.
O top 10 das bandas mais contratadas para mega shows por prefeituras e governos estaduais desde 2024 no Brasil é dominado por artistas nordestinos. Apenas uma dupla sertaneja (Maiara & Maraisa) está na lista das dez bandas mais contratadas. Os 40 artistas e bandas mais badalados fizeram 7.412 shows durante o período pesquisado, dos quais três mil não constam do PNCP.
O estudo revelou ainda que o cantor Zezé de Camargo, que rompeu relações com o SBT alegando descontentamento pela emissora de TV ter recebido o presidente Lula, é um dos que mais arrecadou com shows patrocinados por verbas públicas. Na época falou-se em R$ 20 milhões, mas a investigação chegou ao total de R$ 73 milhões.
Emendas Pix e produtoras Gospel
Parte dos recursos para a promoção de shows e festas promovidas por prefeituras e governos estaduais são retirados do Orçamento da União. Levantamento feito pela revista VEJA identificou que, só em 2025, ao menos 131 transferências desse tipo foram feitas, somando 61 milhões de reais em recursos federais destinados a eventos promovidos por governos municipais e estaduais.
Praticamente todos os autores de emendas são parlamentares de partidos do Centrão e da extrema-direita, ligados ao agronegócio e com interesse em fortalecer seus cabos eleitorais. De acordo com um levantamento da Revista Veja, grande parte dos shows são realizados em cidades com população em torno de 10 mil pessoas. A maior parte no Nordeste.
Essas emendas foram pulverizadas para financiar apresentações de dezenas de artistas, a maioria de renome regional, mas também de grandes estrelas, a exemplo de Wesley Safadão, Leonardo, Bell Marques, Amado Batista e Mikael Santos.
O portal UOL Notícias também publicou levantamento mostrando que cidades com problemas financeiros gastaram ao menos R$ 2,1 bilhões em contratações de shows desde 2024. De acordo com o UOL, apenas 1% das empresas produtoras de eventos contratadas abocanhou mais da metade de todo o recurso público direcionado a apresentações musicais.
A pesquisa do UOL, com base em dados de 2024 e 2025 do PNCP, constatou que foram gastos R$ 5,2 bilhões em dinheiro público com shows e cachês de artistas contratados. Do total, 2,9 bilhões, mais da metade (55,9%) foram destinados a 200 empresas e artistas. Entre as produtoras, aparecem com destaque empresas do gênero “gospel”, geralmente ligadas a igrejas neopentecostais.
Circo sem pão
Muitas das cidades brasileiras dependem fortemente de repasses como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) para cobrir despesas com serviços básicos.
O FPM é uma transferência constitucional do governo federal para as cidades brasileiras, composto por 22,5% da arrecadação do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
A distribuição do FPM é calculada anualmente pelo Tribunal de Contas da União (TCU) com base no número de habitantes do município, dividindo as cidades em faixas populacionais que determinam seus coeficientes de participação no Fundo.
No entanto, diversos municípios com baixo desenvolvimento humano ou com contas no vermelho chegam a comprometer uma parcela expressiva de sua receita anual para pagar cachês milionários.
Lei Rouanet deu retorno

Em 2024, a Lei Rouanet movimentou R$ 25,7 bilhões na economia brasileira e foi responsável pela geração e manutenção de 228 mil postos de trabalho. É o que aponta a “Pesquisa de Impacto Econômico da Lei Rouanet”, elaborada pela FGV e publicada em julho de 2026.
Foram R$ 3,3 bilhões em renúncia fiscal e 4.939 projetos executados, impactando 89,3 milhões de pessoas. A cadeia produtiva associada aos projetos gerou 152,7 mil empregos diretos e 75,3 mil indiretos em 2024, a maioria em pequenas e microempresas.
Os projetos que realizaram gastos em 2024 movimentaram, aproximadamente, R$ 3,9 bilhões no recolhimento de impostos municipais, estaduais e federais em todo o país.
Os projetos incentivados por meio da Lei Rouanet não estão concentrados apenas em capitais e têm impacto financeiro e sobre postos de trabalho nas diversas regiões do país. (Fotos: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do portal deolhonosruralistas/Observatório do Agronegócio, FGV, UOL Notícias e Veja.



