Organizações de produtores e empresários brasileiros que buscam dissuadir o governo de Donald Trump de aplicar tarifas de 25% sobre produtos brasileiros contaram com o apoio de um conjunto de empreendedores americanos durante uma audiência pública realizada hoje na Comissão de Comércio Internacional nos Estados Unidos, em Washington D.C.
Mark Bitting, da Gehring Montgomery, uma empresa da Pensilvânia que fornece cera de carnaúba brasileira para os setores farmacêutico, alimentício e cosmético dos Estados Unidos, comentou que “na realidade, a tarifa se transformará em um novo tributo para o consumidor americano”. Bitting enfatizou que a cera de carnaúba é financeiramente viável apenas no Brasil e que não existem alternativas práticas para importar esse produto, que se tornou fundamental em diversos mercados no país.
Andy Loehlein, que ocupa o cargo de presidente e CEO da American Seed Trade Association, a qual, segundo ele, “fornece sementes para quase todas as culturas nos Estados Unidos“, declarou que a imposição de tarifas sobre sementes resultaria em prejuízos econômicos maiores do que os possíveis benefícios que poderiam vir de mudanças nas políticas de propriedade intelectual no Brasil. Ele acrescentou que isso levaria a um aumento nos custos para a agricultura americana e na cadeia de suprimentos alimentares.
Econômico e geopolítico
Conforme o executivo norte-americano, as tarifas beneficiariam a China, que é o principal concorrente econômico e geopolítico dos Estados Unidos: “Impostos sobre sementes prejudicariam — e não ajudariam — a posição dos EUA em termos de inovação no setor agrícola”, declarou Loehlein.
Consultores próximos aos empreendedores brasileiros celebraram a precisão das observações feitas pelos americanos, mas mostram um grande ceticismo em relação à chance de que a administração Trump elimine novas tarifas para o Brasil.
As taxas de 25% sobre o país, além dos 12,5% adicionais originados de uma investigação sobre trabalho forçado que também podem ser aplicadas, são consideradas parte da estratégia econômica de Trump. Apesar do superávit dos EUA na balança comercial com o Brasil e das conversas bilaterais, essa seria uma ferramenta da qual ele não estaria propenso a se desfazer.
Por outro lado, também se fizeram presentes durante a audiência pública as já esperadas manifestações protecionistas. Representando os produtores de carne bovina, Bill Bullard, do Fundo de Ação Jurídica dos Pecuaristas e Criadores de Gado Unidos (R-CALF USA), expressou sua desaprovação em relação à proposta de isenção para a carne brasileira no aumento tarifário: “A intensificação das importações do Brasil e de outras nações está provocando prejuízos irreversíveis.”.
Estratégia de campanha
As sessões públicas fazem parte da investigação comercial iniciada contra o Brasil quase um ano atrás pelo Representante Comercial dos EUA, Jamieson Greer, a pedido do presidente Trump.
Na carta em que divulgou sua intenção em julho, Trump mencionou diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro e descreveu o processo judicial que ele enfrenta por tentativa de golpe de Estado como uma “caça às bruxas”. A situação resultou em consequências políticas desfavoráveis para a família Bolsonaro.
Em uma jogada estratégica tanto no âmbito político quanto na mídia, o senador e aspirante à presidência Flávio Bolsonaro se manifestará contra as tarifas na audiência programada para amanhã. Empresários que estarão presentes na audiência afirmaram, em conversas privadas, que percebem essa ação como uma “estratégia de campanha”, sem efeito real sobre a questão tarifária.
A pesquisa abrange diversas questões, incluindo desflorestamento, infrações a direitos autorais, concorrência desleal em métodos de pagamento digitais como o Pix, tarifas diferenciadas do Brasil para países terceiros, impostos sobre o etanol, corrupção e mais.
O relatório preliminar do USTR recomenda que Trump implemente uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros a partir do dia 15 de julho. Uma lista de exceções assegura que as importações dos EUA de aviões, carne bovina e suco de laranja não serão impactadas pela sobretaxa, enquanto outros produtos, como café solúvel, maquinários, ferro gusa, diferentes tipos de arroz e mel orgânico, estarão sujeitos a essa taxa. (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações do UOL



